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Já se disse que acontecimentos de grande relevância na história das sociedades humanas tendem a se repetir, com a diferença de que primeiro ocorrem como tragédia, depois como farsa. São notáveis as semelhanças entre o golpe militar de abril de 1964 e o golpe branco que está em curso no Brasil em abril deste ano sob a máscara do impeachment. A começar por alguns de seus protagonistas.

Tomemos a velha Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo), representante mais assanhada da nossa burguesia neste momento. Ela também ajudou a escrever aquela sombria página da nossa história, que muitos julgavam página virada. A Fiesp patrocinou e respaldou de variadas formas o golpe militar, ao qual o patronato serviu e pelo qual foi devidamente servido. Hoje, atua conjuntamente com a CNA (Confederação Nacional da Agricultura) e centenas de outras entidades empresariais que decidiram investir nos golpistas.

Papel da mídia

Vejamos também a mídia empresarial, que o jornalista Paulo Henrique Amorim sabiamente designou de PIG (Partido da Imprensa Golpista). É sabido que teve papel destacado e decisivo no golpe. O Globo, da riquíssima família Marinho, cresceu à sombra da ditadura e foi a ela fiel até não poder mais. O “Estadão” apoiou e a Folha de São Paulo, rainha da dissimulação, cometeu a infâmia de emprestar seus veículos aos torturadores da Operação Bandeirantes (Obam), conforme registra o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, que foca e desvenda as relações perigosas do patronato (e sua mídia) com o regime. Talvez seja esta a razão pela qual o jornal dos Frias tenha se esforçado sem muito sucesso para emplacar a ideia de que a ditadura inaugurada pelo golpe de 1964 foi uma “ditabranda”.

A luta no terreno das ideias, para a conquista de mentes e corações, é tão ou até mais importante, em determinadas circunstâncias, que nos planos político e econômico. Sem a falsa consciência criada e disseminada diuturnamente pela mídia golpista, com a manipulação sutil ou grosseira dos fatos, a seletividade e o mais rasteiro sensacionalismo, sem tudo isto não teria sido criado o ambiente golpista que vemos hoje. É a mídia monopolizada pelos capitalistas que fomenta o ódio de classe, os preconceitos contra negros, mulheres, homossexuais, a intolerância que vitima nas periferias as camadas mais pobres e frágeis da nossa classe trabalhadora. Se Carlos Lacerda tinha a cara da tragédia, Merdal Pereira é a encarnação da farsa.  

Com um pouco de imaginação e acuidade é possível perceber ainda a ação de forças externas ocultas semelhantes às que foram denunciadas por Getúlio Vargas em sua Carta Testamento e que deixaram fortes impressões digitais no golpe militar desfechado 10 anos depois do suicídio do presidente nacionalista (Leia aqui)). Enquanto governantes de diferentes países latino-americanos e caribenhos fazem questão de denunciar o golpe em marcha por aqui (ao lado do secretário-geral da OEA e líderes da Unasul e Mercosul), Washington, que andou espionando a presidenta Dilma e a Petrobras, manteve e ainda mantém um silêncio muito eloquente para quem sempre meteu os bedelhos em questões domésticas de outros países, particularmente em nosso continente. Como em 1964, multinacionais estadunidenses estão contribuindo generosamente com os líderes (de extrema direita) das organizações que estão mobilizando para as manifestações de coxinhas.   

As classes e os golpes

Salta aos olhos que as forças, ou melhor, as classes sociais que estão por trás do golpe presidido pelo ladrão Eduardo Cunha são fundamentalmente as mesmas que patrocinaram o golpe de 1º de abril de 1964: os latifundiários representados pela CNA e no Congresso pelo ex-presidente da UDR, Ronaldo Caiado; a burguesia, liderada pela Fiesp e outras entidades empresariais; a aristocracia financeira internacional, o imperialismo hegemonizado pelos EUA. Insuflada pela mídia, parte das classes médias e da intelectualidade (que estão divididas) está se comportando como cão raivoso da burguesia.

Os interesses desses sinistros personagens, escondidos e mascarados pelo pensamento dominante e o falso moralismo difundidos pelo PIG, convergem para uma mesma direção e podem ser lidos, identificados e sintetizados, nas entrelinhas dos projetos, declarações e pronunciamentos dos líderes golpistas. A “Ponte para o futuro” apregoada por Temer, o Traíra que como Cunha está indelevelmente manchado pela lama da corrupção, promete ao patronato, força decisiva dos golpes, a terceirização sem limites, a flexibilização da legislação trabalhista, de forma que o negociado prevaleça sobre o legislado (o que pode significar simplesmente o fim da CLT), a ampliação do DRU (Desvinculação da Receita da União), que trocando em miúdos vai significar a redução de verbas para a educação e saúde em benefício da aristocracia financeira.

Ao imperialismo acena-se com a privatização da Petrobras, fim da política de partilha e volta das concessões no pré-sal, supressão da política de conteúdo local (ou nacional), esvaziamento da Unasul, Mercosul, Celac e realinhamento, como sempre subalterno, com os EUA e o Ocidente, em detrimento do Brics. Não é sem razão que o Ministério Exterior de Cuba alertou: “Este golpe contra a democracia brasileira faz parte da contraofensiva reacionária da oligarquia e do imperialismo, contra a integração latino-americana e os processos progressistas da região. Além disso, é dirigido também contra os países integrantes do Brics, que constituem um conjunto de poderosas economias que têm desafiado a hegemonia do dólar estadunidense” (Leia aqui) . Uma convergência de interesses das burguesias nacional e estrangeira contra a classe trabalhadora e o Brasil, a soberania nacional, unindo a conspiração local à geopolítica de uma potência decadente.

Deus, família e propriedade

Notemos que em 1964 o crime contra o povo e a nação foi perpetrado em nome de Deus, da família e da propriedade privada. Na votação do impeachment, exercendo o mais puro e cínico cretinismo parlamentar, os golpistas, em geral grandes proprietários ou representantes destes, de novo levantaram o nome de Deus em vão e fizeram falsas juras à “sagrada família”. Hastearam mais uma vez a bandeira do combate à corrupção com tal alarde e hipocrisia que o espetáculo infame de uma presidenta honesta julgada por um notório ladrão foi vendido ao povo pela mídia golpista como algo absolutamente normal e legítimo. Diferentemente, a mídia internacional quase que por unanimidade identificou e denunciou o caráter golpista deste processo kafkiano.

Mas ao lado das convergências e identidades é preciso assinalar uma diferença fundamental em relação a 1964: a posição das Forças Armadas, que não mais parecem dispostas a respaldar golpistas e fazer o jogo dos Estados Unidos. O contexto geopolítico mudou profundamente desde então. Movimentos e sinais provenientes de Washington, como a reativação da Quarta Frota, já não são percebidos com bons olhos nos quartéis. Eis uma fragilidade não negligenciável do golpe em andamento.

Conforme o comandante do Exército Brasileiro, general Eduardo Villas Bôas, que criticou o clamor da direita por intervenção militar, “não há paralelo com 1964, primeiro porque hoje nós não temos o fator ideológico. Naquela época, nós vivíamos a situação de Guerra Fria e a sociedade brasileira cometeu o erro de permitir que a linha de fratura da Guerra Fria [a] dividisse. Isso não existe mais. O segundo aspecto é que hoje o Brasil tem instituições sólidas e amadurecidas, com capacidade de encontrar os caminhos para a saída dessa crise” (Leia aqui).

O caráter antidemocrático das forças sociais que estão por trás disto tudo é patente, mas o golpe, sutil (como sutil é a ditadura do capitalismo, nas palavras do papa Francisco), pode sucumbir em meio às próprias sutilezas. A radicalização da luta de classes provocada pelas classes dominantes está politizando e despertando a consciência democrática da nação. A mobilização popular é o antídoto do golpe e pode acabar fazendo com que o feitiço vire contra o feiticeiro.  

Umberto Martins é jornalista e assessor da CTB