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Realiza-se entre os dias 23 e 26 de junho em San Salvador, capital de El Salvador*, o XXII Foro de São Paulo. O Foro é uma importante articulação política que aglutina organizações partidárias e sociais da esquerda latino-americana e caribenha, fundado em 1990 para enfrentar os desafios de um contexto marcado pela derrota da experiência socialista e a brutal ofensiva da agenda neoliberal em escala mundial, sobretudo, em nossa região.

Esta edição conta com a presença de 377 representantes, pertencentes a 86 organizações. Este ano acontece diante de um ambiente político regional marcado pela elevação da contraofensiva imperialista contra o recém iniciado ciclo progressista da região.

A sua programação está marcada pelos exames desse novo contexto, particularmente, sobre as suas causas objetivas e subjetivas. Estão sendo debatidos temas que abordam desde os efeitos da crise capitalista em nossas economias, a ausência das reformas estruturais, as ilusões de classe até a lacuna de um projeto de desenvolvimento estratégico regional.

No entanto, mesmo considerando essas limitações, é uníssono que os processos progressistas e revolucionários de nossa região realizaram uma melhoria na vida de nosso povo, destacando uma histórica mobilidade social, que reforçaram as soberanias nacionais e que abriram instrumentos pela integração como a ALBA, CELAC e UNASUL.

Aliás, são por esses acertos e não pelos erros ocorridos que o consórcio imperialista age para interrompê-lo. O Foro reafirma que o ciclo não está encerrado e que a “disputa por posições” continuará.

* El Salvador: 6.279.783 habitantes; 3ª maior economia da região; 7.500 dólares de PIB per capita; inflação 1º trimestre 2016 de 0,8%; 7% taxa de desemprego; economia dolarizada com 60% serviços, 29% indústria e 11% agricultura.

“Não nos enganemos achando que adiante tudo será fácil ”

O documento base (acesse a íntegra), além de apresentar um diagnóstico sobre o atual estágio da luta política regional e de seus obstáculos, também apresenta um resgate de algumas resoluções políticas anteriores. Nelas já apareciam formulações sobre as ameaças imperialistas e os riscos que essa disputa de classe envolve. Destaco alguns dados e trechos que merecem reflexão:

 -“Os EUA já detiveram 50% do PIB mundial. Em 2000, 31%, e 21% em 2014. China detém 15%”

- “Para cada 1% de crescimento do PIB chinês, resulta um crescimento de 0,4% no da América do Sul. Já 10% de crescimento eleva em 25% as exportações da América Latina”

- “Desde o final da década 1990 até hoje, forças de esquerda e progressistas obtiveram 35 vitórias presidenciais. Esses êxitos têm convertido a região num cenário de “guerra de posições” entre a esquerda e a direita, do que falava Gramsci, sujeita a fluxos e refluxos na correlação de forças”

- “Aprofundar as transformações sociais em curso e paralelamente e de modo permanente, uma máquina eleitoral efetiva com uma estratégia para busca de uma hegemonia da esquerda nos espaços institucionais, no poder legislativo, judicial e midiático”

- “As oligarquias não cedem um milímetro de espaço econômico, social, político, ideológico, cultural, midiático e institucional, e lutam por eles até as últimas consequências, sejam por meios legais ou ilegais”

- “A guerra de posições entre 1998 e 2008 foi favorável às forças populares”

- Foro de 2009: “Uma correlação de forças favoráveis em âmbito continental não é garantia de êxito de todas ou de cada uma experiência nacional”

- “O impacto da crise capitalista reduz a margem de manobra dos governos progressistas”

- “A guerra midiática e a judicialização da política são meios utilizados há algum tempo contra Governos de esquerda e progressistas, no entanto, atualmente há uma efetividade bem maior”

- “É um momento de fazer um debate autocrítico profundo sobre o que ocorre em nossos países. Dentre alguns, o papel dos meios de comunicação e dos movimentos sociais, com os quais devemos aprofundar as relações para aprofundar as mudanças”.

A partir do documento central, já circula e se debate entre os presentes, a proposta de resolução política que será aprovada na plenária final do encontro.

Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN)

A organização anfitriã do evento é a Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN), que comemora seus 35 anos de luta. Nascida em 1980 no marco da guerra civil salvadorenha que se estendeu até 1992.

Sob o jugo dos EUA, entre 1970 e 1980 El Salvador esteve marcado por uma dramática situação social e esse quadro criou as condições para a fundação da FMLN.

A luta armada se prolongou por 12 anos e em 16 de janeiro de 1992 foi assinado um acordo de paz, encerrando uma ditadura militar de 60 anos. Neste mesmo ano, a FMLN transforma-se em partido político e faz sua primeira disputa eleitoral.

Em 2009, a FMLN ganha a presidência com Mario Funes e em 2014, com o ex-guerriheiro Salvador Sánchez Cerém, atual presidente. Hoje, a FMLN é a principal força política no país. No primeiro dia do Foro foi reservada uma programação para comemorar os 35 anos desse partido. Dois livros foram lançados resgatando sua história e feitos.

Também hoje foi saudada com grande entusiasmo a conquista do povo colombiano, de suas organizações e apoiadores de todo o mundo, com o histórico acordo que abre caminhos para uma necessária paz naquele país. 

O impressionante nível de organização desse evento foi motivo de elogios entre os presentes, revelando o compromisso militante e a capacidade executora da entidade anfitriã.

Divanilton Pereira é Secretário de Relações Internacionais da CTB e Coordenador da FSM Cone Sul

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