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A decisão do povo britânico de retirar o país da União Europeia é acontecimento de enorme significado político, com importantes repercussões geopolíticas e econômicas, não só para a Europa, como para todo o mundo.

Os defensores da União Europeia apresentam o fato como uma ameaça à civilização e à democracia. Nada mais falso. O que não podem esconder é a enorme crise desse bloco imperialista e o sério abalo que o pronunciamento da maioria dos britânicos provoca em suas estruturas. Não podem esconder também a insatisfação que grassa em toda a Europa em decorrência das políticas antissociais da União Europeia.

Os democratas de fancaria ignoram uma manifestação soberana, no quadro de uma campanha marcada por acontecimentos trágicos e politicamente condicionada por uma falsa disjuntiva entre, por um lado, posições neoliberais, que defendem a permanência na União Europeia e a integridade do bloco, e, por outro lado, posições de direita, reacionárias, xenófobas, racistas, hoje presentes no cenário político da quase totalidade dos países europeus.

A disjuntiva reflete as agudas contradições entre facções da grande burguesia e do imperialismo. Os falsos democratas nada dizem sobre o fato de os centros de decisão da União Europeia sediados em Bruxelas serem monstrengos burocráticos que engendram decisões lesivas à autonomia nacional dos povos e violadoras dos direitos sociais. Quem não se lembra do modo como chantagearam e ameaçaram o povo grego, ignorando o resultado do plebiscito promovido pelo governo do Siryza, quando soberanamente foi dado um contundente NÃO às políticas da EU?!

Os comunistas brasileiros saudamos a decisão soberana do povo britânico e congratulamo-nos com os comunistas britânicos e outras forças da esquerda consequente, que votaram pela saída do Reino Unido da União Europeia. O Partido Comunista Britânico e seus aliados fizeram a campanha pelo chamado Brexit levantando as bandeiras da democracia, dos direitos dos trabalhadores, o internacionalismo e a solidariedade, não se confundindo em nenhum momento e nenhum aspecto com o discurso reacionário da direita, mas tampouco capitulando à pressão política e ideológica dos defensores da União Europeia, nem se abalando com as falsas acusações de que seu voto favoreceria as forças da extrema direita.

O resultado da consulta popular assinala uma contundente derrota das políticas antissociais da União Europeia. Esta se revela cada vez mais como um bloco de caráter monopolista, imperialista, militarista, que sempre atuou contra os interesses dos povos, a democracia, o progresso social e a paz mundial. A União Europeia, malgrado suas contradições com o imperialismo estadunidense, contradições de caráter interimperialista, foi e é sua principal cúmplice nas agressões a povos e nações, no incremento da Otan e na execução de políticas neoliberais e neocolonialistas, inclusive para com a região da América Latina e o Caribe.

A União Europeia, sob a hegemonia de potências imperialistas, submete os países mais débeis e massacra seus povos com políticas econômicas, monetárias e financeiras de arrocho, responsáveis pela recessão, o desemprego, o corte do gasto social e o ataque aos direitos dos trabalhadores.

A decisão soberana do povo britânico alenta as forças democráticas e progressistas em sua luta contra esse tipo de integração capitalista e imperialista, por democracia, justiça, progresso social, cooperação e paz, pelos direitos humanos e os direitos dos imigrantes, contra o racismo e toda forma de discriminação.

Os comunistas brasileiros nos somamos a essa luta e com ela somos solidários. Não nos deixamos levar pela repugnante propaganda dos meios de comunicação que tentam caracterizar o resultado do plebiscito como vitória da direita. O que favorece as políticas da extrema direita europeia é a persistência no caminho ruinoso do neoliberalismo, do conservadorismo, do militarismo e das intervenções bélicas.

É a insidiosa ideia de que não há caminho alternativo entre as diferentes facções da burguesia e do imperialismo. A integração pela qual lutamos e tentamos construir na América Latina e no Caribe nada tem a ver com o modelo da União Europeia.

Como força independente de classe, cujo inimigo principal é o imperialismo estadunidense, os comunistas brasileiros, respeitando todas as posições que se apresentam honestamente no debate político e na batalha das ideias, não se permitem ilusões nem alianças com o imperialismo da União Europeia.

José Reinaldo Carvalho é jornalista, membro do Comitê Central e da Comissão Política Nacional do PCdoB, secretário de Política e Relações Internacionais, editor de Resistência

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