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Seg, Set

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Logo da sua pouco eufórica instalação, o governo golpista passou a mostrar ao que veio: desconstrução de tudo o que foi construído desde 2003, tanto do ponto de vista de direitos sociais como de distribuição de renda, de fortalecimento do Estado e do patrimônio das empresas públicas. Ao mesmo tempo que vai revelando os executores dessa agenda.

Além da malta peemedebista, louca para se reapropriar do botim e fazer as nomeações correspondentes nos cargos essenciais, Temer apela para neoliberais de carteirinha e trajetória. Não apenas Meirelles e toda sua equipe, mas tucanos na educação, no Itamaraty, na Petrobras, no BNDES e em outros postos-chave no governo golpista.

Porque o tema de fundo nos tempos atuais é resgate do modelo neoliberal versus modelo de superação dessa alternativa. Ao que o governo Temer se dedica centralmente, valendo-se de que não tem apoio popular, nem nunca terá, é colocar em prática, de forma acelerada o projeto neoliberal, desconstruído pelo Lula. Retomada das privatizações, corte nos recursos para a educação e a saúde, precarização das relações de trabalho, escancaramento do mercado interno, diminuição do peso do Estado, retomada da centralidade do mercado, entre outros tópicos centrais do projeto neoliberal.

Para isso, não por acaso quadros do governo FHC, o grande laboratório de experiências neoliberais no Brasil, retornam ao governo, pela via de um golpe, dado que perderam as quatro eleições posteriores a este governo. E tratam de fazer esquecer o fracasso daquele governo, para tentar impor de novo seus remédios, que deram errado.

O discurso é o da herança pesada do governo Dilma, especialmente desarranjos nas contas públicas, déficit etc, o que obrigaria a impor soluções duras, procurando alienar ao governo anterior a responsabilidade das medidas duras que tratam de impor. Acompanhado de um suposto fracasso dos governos do PT.

Para isso, precisam apagar da memória dos brasileiros o fracasso dos governos neoliberais, tanto de Collor como especialmente o de Fernando Henrique Cardoso, que eles protagonizaram. Precisam disso para retomar os velhos medicamentos, como se os problemas do país viessem do modelo implementado desde 2003, que teria fracassado e deixado a herança que eles tratam de consertar com as mesmas soluções neoliberais do passado.

Quando o fracasso espetacular foi o do governo FHC. Conteve, num primeiro momento, a inflação, que retornou e entregou para o Lula no nível de 12,5%. Promoveu um enorme processo de concentração de renda, de exclusão dos direitos sociais para a grande maioria da população, de precarização das relações de trabalho, de subordinação dos interesses do país ao FMI e aos Estados Unidos.

O Brasil saiu menor do que entrou, com perfil internacional baixo, com direitos sociais diminuídos, com taxas de juros estratosféricas, com Estado enfraquecido, com a mais profunda e prolongada crise recessiva que o país tinha vivido, que foi superada pelo governo Lula. O modelo neoliberal do governo FHC fracassou de tal maneira que o seu partido foi derrotado sucessivamente em quatro eleições, como efeito desse fracasso. Em cada uma das campanhas eleitorais, se comparavam os governos tucanos com os do PT, e os candidatos que representavam esta alternativa ganhavam.

Essa é a verdadeira comparação – o maior fracasso foi o dos anos 1990. Os desarranjos atuais das finanças públicas se dão no marco de um imenso sucesso dos governos que se basearam no modelo de desenvolvimento econômico com distribuição de renda.

Emir Sader é sociólogo e cientista político brasileiro. Artigo originalmente publicado na Rede Brasil Atual  

Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor