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Paradoxalmente, os fatores que levaram a sociedade brasileira a mudanças importantes nas últimas duas décadas e que possibilitaram a inclusão de milhares de pessoas, secularmente excluídas de todas as políticas públicas e espaços democráticos de participação e discussão, são os mesmos fatores apontados como a desgraça do país e de sua economia.

Paralelamente, imbuída do sentimento de poder e oportunidade de reivindicar mais avanços e consolidar os existentes, a sociedade foi às ruas em 2013 exigir o direito de exercer dignamente sua jornada de trabalho, de estudos, de cultura e de lazer.

Um sonho, se paradoxalmente, todo esse movimento não tivesse sido ursupado e ressignificado pelo consórcio oposicionista, que há quatro anos perdeu as eleições presidenciais e vinha buscando legitimidade para tomar o poder a qualquer preço.

Com apoio da grande mídia, peça fundamental para a deflagração do golpe que se materializava, foi sendo construído ao vivo e em cores, no dia-a- dia, "o sentimento das ruas", com várias horas de reportagens e flashes sobre a indignação dos brasileiros. Induzindo todos e todas a acreditarem que os males contra os quais deveriam continuar se mobilizando e lutando eram: a economia falida e a corrupção.

Assemelhando-se a um reality show, as pessoas eram monitoradas, manipuladas e estimuladas a desenvolver ódio contra as políticas sociais, contra as pessoas beneficiárias dessas políticas, contra todos e todas que as defendessem, em especial, aos movimentos sociais e partidos de esquerda, e contra a presidenta da República Dilma Rouseff, cuja sanha fascista e misógina dedicou seus maiores dejetos, virulência e intolerância.

No mês em que a Lei Maria da Penha completa 10 anos e é reconhecida mundialmente como instrumento de combate à violência doméstica e promoção da paz e tolerância nas famílias brasileiras, assistimos a dois episódios dignos de um filme de ficção: a atriz Letícia Sabatella é quase linchada em uma praça em Curitiba por uma horda de sonegadores e estelionatários e uma jovem mulher, religiosa, é atacada por denunciar publicamente um parlamentar, da bancada evangélica, Marcos Feliciano (PSC-SP), porque já não suportava o assédio e agressões do mesmo. E seus correligionários, sabedores do que ocorria, ignoraram seu sofrimento.

Após divulgar conversas em whatsapp com Feliciano e áudios com seu assessor direto que, segundo ele, o conhece há 15 anos, a jovem gravou um vídeo pró-Feliciano e desapareceu. 

Silêncio total da grande mídia.

Antes, as "pessoas de bem "disfarçavam o machismo e a misoginia com frases do tipo "em mulher não se bate nem com uma flor". Como forma de manifestar proteção à "rainha do lar", à "do avental todo sujo de ovo", que cuidava das suas roupas e da sua comida e, de vez quando, satisfazia suas necessidades, cumprindo com "a sua obrigação". Afinal de contas, bater porquê, se ela está desempenhando seu papel direitinho?

Por mais que façamos um exercício diário e necessário de análise e interpretação deste momento político em que vivemos, impossível não se impactar e indignar com tamanhas demonstrações de imbecilização e fascismo que foram gestados, gerados e potencializados em 2013.

Paradoxalmente aos avanços sociais, à onda fascista conservadora se espalha e inunda corações e mentes, aneatesiados, que se deixam levar sem perceber que ela só pára quando já dizimou tudo que encontrou pela frente.

Dirige-se para o futuro. Pegando atalho pela educação. Entrando nas escolas, sufocando professores/as, preparando as bases para um exército de reserva de mão-de-obra barata e dócil. Não podemos assumir o estigma que a onda fascista nos impõe. Não nos calemos por medo de sermos identificados como "comunistas petralhas".

Desde quando perdemos a nossa capacidade de ler e entender o mundo, para lutar por um mundo melhor e possível?

Para além do voluntarismo desgovernado, precisamos nos encontrar e nos afirmar como cidadãos e cidadãs de bem, sim! Precisamos ter lado. E nosso lado é o lado dos trabalhadores e das trabalhadoras em toda a sua diversidade. 

Que possamos ser pessoas de bem. Que nossa capacidade de querer e desejar o bem de todos não nos torne cegos ao que muitos podem fazer com palavras e gestos, em especial quando estiverem imbuídos de poder. Que nossa positividade seja fundamental para reconhecermos a atmosfera viciada que exalam criaturas ignaras e bestializadas, mesmo que sua aparência possa ser agradável aos olhos.

Que a nossa compreensão do mundo, como lugar de igualdade e convivência fraterna, nos fortaleça sempre a determinação e a perseverança em sermos aqueles e aquelas que lutam diariamente para que que isso se torne realidade.

Ísis Tavares, presidenta da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil no Amazonas (CTB-AM) 
 
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