Opinião
Ferramentas
Tipografia

Acabo de chegar da delegacia de defesa da mulher onde fui acompanhar uma amiga que foi violentada. Estou em choque e a única coisa que consigo fazer é compartilhar o texto do escrivão com o depoimento sofrido narrado aos prantos para que nunca mais nenhum de nós caia num golpe tão repugnante desses também.

"Sou filha da Democracia com a Luta e me nome é Co…""Sou filha da Democracia com a Luta e me nome é Co…" [A declarante iniciou o depoimento aflita]. Vim prestar queixa porque sou vítima de um violento ataque. Não quero tomar seu tempo com qualquer bobagem… Dizem que desgraça pouca é bobagem não é? Pois bem, não tenho nenhuma bobagem para contar.

[O escrivão pediu para ela começar com informações pessoais para o preenchimento do prontuário].

Desculpe, estou com os nervos a flor da pele e acabei nem me apresentando: Eu sou brasileira, pele parda, tenho 28 anos, que aliás acabei de completar. Nasci em 5 de outubro de 1988 em Brasília e minha chegada foi celebrada com festa e alegria.

Em toda minha vida nunca fiz distinção e sempre tive a intenção de ajudar os mais pobres, os que mais precisam, para mim todas as pessoas são exatamente iguais. Isso vem de berço, sabe, com quatro anos eu era carregada no colo dos jovens com suas caras pintadas ocupando as ruas por um futuro melhor, me tornei uma garota como qualquer outra da minha idade, cheia de sonhos. Pretendia promover a tão falada justiça, enfim… cumprir meu papel cidadã.

Me enchia de orgulho ao notar minha contribuição no desenvolvimento do bem estar social. Embora soubesse que nunca permitiram eu me entregar por inteiro para aquilo que eu desejava.
Apesar disso fui ganhando corpo, importância, sendo notada, e muitos se aproximaram de mim só para se aproveitar. Juraram me amar e respeitar. Me iludiram, me usaram, sofri mas aprendi a lição, fui me atualizando…

[Nesse momento o escrivão interrompe novamente, sugerindo que ela informasse o ocorrido – Foi um crime premeditado? – perguntou ele].

Vou te contar como tudo aconteceu. Era um domingo, dia 17 de abril, quando me levaram para uma sala num porão sem janelas cheia de gente graúda envolvida, deputados, juízes a federal… rasgaram minhas roupas, abriram minhas pernas com força. Fui abusada pelo Eduardo e aquilo seguiu por horas, ao final mais de 300 pessoas me violentaram. Enquanto me rasgavam ao meio fingiam fazer aquilo pela família, mas sei que o que faziam eles gozarem era as propriedades. Meu Deus, eu implorava: NÃO!

E eles grunhiam em transe – Sim, sim, sim…

Não foram meus nudes sensuais que vazaram na internet, foi cena de sexo explícito transmitida ao vivo pela TV em horário nobre. Houveram outras seções de estupro coletivo igualmente repugnantes como aquela. Até mesmo a presidenta, sendo mulher, tentou até o último dia me defender, por esta razão ela também não foi poupada.

A agonia seguiu até o último dia de agosto, quando aquele porco arrancou toda a minha dignidade, em seguida posou para fotos orgulhoso de seus feitos imundos, sorrindo com seu grupo só de homens.
Depois disso, Sodoma e Gomorra, todos nós ficamos expostos a qualquer tipo de atrocidades. Sem nenhum pudor, censuram opinião, invadem sua casa sem mandato, violam seus direitos ainda que esteja velando o corpo de um ente querido, ainda que esteja em um hospital em tratamento para uma doença terminal. Nem mesmo na guerra esses crimes são tolerados, crimes contra a humanidade. A Palestina é cada periferia.

Culpam os esfarrapados por eles não descerem ao asfalto para me defender. Eu fico até envergonhada, porque na verdade foi eu que muitas vezes não subi os morros para protege-los. Não devemos culpar as vítimas. Preciso confessar que me recusei a beijar a boca dessa gente sem dente. Como querer que eles sintam minha ausência se eu não me fiz presente? Quantas vezes fui flagrada em selfies sorridentes ao lado de quem agora me surra no jantar, o mesmo parlamentar.
Hoje estou aos trapos, meus agressores de tanto me abusar, de tanta frouxidão moral em seus membros que precisam de aparelhos de sadismo para alcançar seu prazer. Sãovoyeur e entregam sondas vibratórias por onde jorram o pré-sal, eles se molham ao assistir o deleite alheio, dos estrangeiros. Preciso de proteção, serei assassinada e me resta pouco tempo.

[– Me diga, quem é você minha jovem? – perguntou o escrivão comovido].

Sou filha da Democracia com a Luta e me nome é Co…

Antes que a Constituição acabasse seu depoimento a sala foi ocupada por homens camuflados com as cores da bandeira, taparam sua boca, a arrastaram para um carro onde ela foi jogada e partiram em alta velocidade. Na fuga atropelaram um ciclista e atiraram no olho de um jornalista. Já pensou? O olho de uma pessoa que ganha o pão vendo aquilo que outros se recusam em ver!

Peço que passem essa denúncia adiante para que esse crime jamais se repita. Eu particularmente sou radicalmente contra a pena de morte. Mas nesse caso, e somente nesse caso: Em que o sujeito tem coragem de cometer um crime hediondo dessa natureza com uma jovem mulher condenando todo um país, só conhece a violência mais cruel estilo bon vivant, esse merece se entender com o para-belo.

Toni C. é autor dos livros: Sabotage – Um Bom Lugar, e do romance “O Hip-Hop Está Morto!”, integrante do Conselho Nacional de Cultura na área de Livro, Leitura e Literatura, membro da direção da Nação Hip-Hop Brasil, diretor de cultura da ORPAS, jornalista do Portal Vermelho e criador do coletivo LiteraRUA.

Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.