Fonte

Segundo o último relatório da OCDE, a economia mundial “se manteve numa fase de baixo crescimento com um decepcionante baixo crescimento que afetará as expectativas e tenderá como consequência um debilitamento do comércio, do investimento, a produtividade e os salários”. Catherine Mann, economista-chefe da OCDE, disse: “É necessário atuar para tirar a economia mundial da trama do baixo crescimento”. “A espiral não é ascendente, sim descendente. Com queda do comércio, baixa produtividade, e redução do crescimento global”.

O crescimento do PIB real per capita está desacelerando, tanto nas economias capitalistas avançadas como nas chamadas emergentes, enquanto que o grande motor da expansão global, China, também está desacelerando (controladamente). Todavia, se a economia dos Estados Unidos reduz mais ainda o ritmo lento, será muito difícil evitar uma nova crise mundial. Os indicadores estão começando a ficar vermelhos. Portanto, como disse o Instituto Global McKinsey, nos espera uma “turbulência global”, interpreta Michael Roberts.

Já o FMI (setembro 2016) está pedindo uma ação coordenada mundial para “contrarrestar a desaceleração renovada”. No novo documento afirma-se que só políticas corretas podem “acabar com a preocupação generalizada de que os políticos pouco podem fazer quando se enfrenta a um círculo vicioso de (muito) baixo crescimento, (muito) baixa inflação, taxas de juros próximas a zero, e altos níveis de dívida”. Nas contas do Fundo, registrar-se-á em 2016 o pior desempenho em matéria de crescimento econômico mundial desde 2009.

Essencialmente – analisa a Carta do IEDI-775, outubro 2016 -, e em se confirmando tais projeções do Fundo, a economia americana interromperá a trajetória de aceleração traçada desde 2013 (?) e apresentará o menor ritmo de expansão desde 2012. Ademais, a perda de ritmo frente à 2015 (1%) será maior que as previstas para o Reino Unido e para a área do euro (0,4% e 0,3%, respectivamente), o que resultará numa “conjuntura inédita” no período atual: um crescimento ligeiramente maior nesses dois países/regiões em comparação com os Estados Unidos, bem como numa menor assimetria de desempenho no âmbito das economias avançadas (exclusive o Japão). Hipóteses...

Anemia globalizada

Por sua feita, o relatório UNCTAD (ONU, setembro 2016) que acompanha as economias dos chamados países em desenvolvimento, no que chegou à conclusão de que o mundo está a ponto de “entrar numa terceira fase da crise financeira”. Alerta para os altíssimos níveis do endividamento das empresas nessas economias; que o crescimento econômico global permanece fraco, ou uma taxa abaixo de 2,5%; do comércio mundial idem, que diminuiu drasticamente para cerca de 1,5% em 2015 e 2016, em comparação com 7% antes da crise.

Segundo esse organismo, as economias em desenvolvimento vão crescer, em média, menos de 4% este ano, com variações consideráveis ​​entre países e regiões: enquanto a América Latina está em recessão e o crescimento na África e Ásia Ocidental está a abrandar para cerca de 2%, Leste, Sudeste e Sul da Ásia ainda está crescendo a uma taxa de cerca de 5%.

Num resumo desses relatórios - sempre interesseiros e revisados posteriormente para baixo - anota-se que: (i) a nova projeção do FMI (World Economic Outlook-WEO), prevê uma expansão de 3,1% da economia mundial em 2016, ou a atividade econômica global apresentará uma “pequena desaceleração” frente a 2015, quando o crescimento foi de 3,2%; (ii) já para a OCDE e a Unctad tais projeções são inferiores: 2,9% e 2,3%, respectivamente.

Noutro ângulo, segundo documento recente do Instituto de Finanças Internacionais, a fuga de capitais de 30 economias emergentes alcançou US$ 735 bilhões em 2015, sendo liderada pela China. Maior abertura da conta capital da economia chinesa, incertezas sobre as bolsas de valores e sobre a desvalorização da moeda desencadearam uma fuga de capitais da ordem de US$ 460 bilhões, a despeito de um superávit na balança comercial de US$ 595 bilhões. Para 2016, as expectativas apontam para uma fuga de capitais dos países emergentes de US$ 448 bilhões conforme o think tank dos financistas norte-americanos. 

A 4ª Revolução Industrial

Simultaneamente, questão crucial emanada das transformações da base técnica do capitalismo, a grande crise capitalista global iniciada em 2007-8 confluiu a denominada 3ª Revolução Industrial, para uma nova transmutação que vem sendo denominada de 4ª Revolução industrial ou “Indústria 4.0”.

Relembrando, um dos estudos pioneiros no Brasil acerca das características da 3ª Revolução Industrial aparece no ensaio de Luciano Coutinho, “A terceira revolução Industrial e tecnológica: as grandes tendências de mudança” (1992).[1] Para ele, as principais que emolduravam o fenômeno do novo paradigma eram: 1) amplo espectro de aplicação em bens e serviços; 2) oferta crescente e suficiente para suprir a demanda na fase de difusão acelerada; 3) rápida queda dos preços relativos dos produtos portadores das inovações, reduzindo continuadamente os custos de adoção destas pelos usuários; 4) fortes impactos conexos sobre as estruturas organizacionais, financeiras e sobre os processos de trabalho; 5) efeitos redutores generalizados sobre os custos de capital e efeitos amplificadores sobre a produtividade do trabalho.

Ainda, para Coutinho, as tendências então plasmadas expressariam: São elas: a) o peso crescente do complexo eletrônico; b) um novo paradigma de produção industrial - a automação integrada flexível; c) revolução nos processos de trabalho; d) transformação das estruturas e estratégias empresariais; e) as novas bases da competitividade; f) a “globalização” como aprofundamento da internacionalização; e g) as “alianças tecnológicas” como nova forma de competição. (Idem)

 

De outra parte, ainda bem no início dos anos 80, J.C. Braga e Frederico Mazzucchelli [2] apresentaram, inovadoramente, uma brilhante análise das características e propriedades gerais do capitalismo monopolista e anunciando a ideia da hegemonia financeira nele. Com efeito, na medida em que nesse estágio capitalista se estabelece uma unidade originária contraditória (acumulação produtiva X financeira) da forma lucros e da forma juros, “a autonomização da forma juros promove uma dominância financeira de duplo caráter: creditícia, nas vinculações com a acumulação industrial, e monetária na acumulação fictícia”

Prosseguem os autores: “É, portanto, o desenvolvimento do capital a juros que faz dos aspectos financeiro-creditícios e financeiro-monetários os determinantes par excellence da estruturação monopólica do capital e do movimento do capital monopolista”.

Tecnologia “financeirizada”

Analisando essa espécie de elevação das mudanças tecnológicas anteriores às mais recentes, conclui Schwab (2015), a 4ª Revolução Industrial promove uma “fusão de tecnologias, borrando as linhas divisórias entre as esferas físicas, digitais e biológicas”. Ela fomenta a inteligência artificial, a robótica, a impressão 3D, os drones, a nanotecnologia, a biotecnologia, a estocagem de dados (Big Data) e de energia, os veículos autônomos, os novos materiais, a Internet das coisas etc. [3]

 

Algumas implicações: a venda mundial de robôs atingiu 225 mil em 2015, 12% a mais que o ano anterior; espera-se 400 mil em 2018, sendo que Ásia (especialmente China e Coréia do Sul) controlam 60% das vendas, seguindo-se o Japão, EUA e Alemanha. Em 2014 o facebook comprou o aplicativo WhatsApp por U$ 25 bilhões, que possuía 55 funcionários; a United Continental aérea foi capitalizada em dezembro de 2015 por fortuna similar, entretanto possuindo 82.300 funcionários.

Relatório do banco suiço UBS (2016), por sua vez, defende que a 4ª Revolução Industrial está ancorada em duas forças. “A primeira é a automatização extrema nos negócios, governo e vida privada. A segunda, é a extrema conectividade, que aniquila a distância e o tempo como obstáculos à comunicação cada vez mais ampla e mais rápida”. (Cintra, idem) 

Estima-se que até 2020, 70% dos habitantes do planeta possuirão smartphones. Facebook, twitter, instagram, WhatsApp passaram a integrar o dia-a-dia das pessoas no mundo inteiro. O supercomputador Watson (IBM), orientado por um grupo de pesquisadores, após estudo revisado de 100 mil casos médicos e descobriu uma nova proteína para determinado tipo de câncer, o que foi posteriormente confirmado por cientistas da área. O sistema tipo Watson já processam traduções simultâneas, respondem à pergunta de celulares, substituem procedimentos de médicos, de advogados, de contadores, de policiais, de economistas, de operadores de mesa de bolsas de valores

Assim, as chamadas operações de alta frequência – realizadas por programas de computadores com algoritmos que compram e vendem ativos financeiros em milésimos de segundos – correspondem hoje a 70% do volume negociado do mercado de ações norte-americano e 30 a 40% no mercado europeu. [4]

Desemprego estrutural e crescente

No estudo The Future of Employment: How susceptible are Jobs to Computerisation? ” (“O futuro do emprego. Como são suscetíveis os postos de trabalho com a informatização? ”), que aborda o que podemos chamar de “desemprego tecnológico”, com foco nos EUA -, defende que à medida que as tecnologias de “machine learning” e robótica avançarem, será inevitável a substituição de funções ocupadas por humanos hoje. Tarefas e procedimentos bem definidos e repetitivos poderão ser substituídos por algoritmos sofisticados O estudo estima que nada menos que 47% dos atuais empregos nos EUA estão em risco. Entre estas funções estão motoristas de veículos como caminhões e táxis, estagiários de advocacia, jornalistas, auditores, desenvolvedores de software, administradores de sistemas de computação, etc.

Aliás, no documento apresentado ao Fórum Econômico Mundial (Davos, fevereiro, 2016), “The Future of Jobs: Employment, Skills and Workforce Strategy for the Fourth Industrial Revolution (“O futuro dos empregos: emprego, habilidades  e Estratégia da Força de Trabalho para a Quarta Revolução Industrial”), com base em pesquisa com 15 grandes economias do capitalismo desenvolvido e em desenvolvimento conclui-se que: haverá até 2020 um acréscimo de perda líquida e de empregos da ordem de 5 milhões de empregos, sendo a razão de 7,1 milhões para a criação de 2,1 milhões.

A esse respeito, alguns países do G-20 encaminharam estratégias recentes de médio e longo prazo, apostando firmemente na ideia dessa 4ª revolução industrial como irreversível. A própria China, que recentemente presidiu o G-20, propôs explicitamente um Plano de Ação sobre a ‘Nova Revolução Industrial’ para estabelecer respostas conjuntas quando ao impacto no emprego, na formação profissional, infraestrutura, proteção da propriedade intelectual e auxílio a industrialização nos países em desenvolvimento. Os EUA a Advanced Manufacturing (2011); Alemanha a Industry 4. 0 (2014); o Reino Unido a Future of Manufactoring (2013). A França a Industrie du Futur (2015); a Coréia do Sul a Manufactoring Inovation 3.0 (2015); a Índia a Make in India (2014); a China a China Manufactoring 2025 (2015). [4]

Nova fase do capitalismo?

Essa é a questão que nos parece central desvendar: as grandes transformações financeiras e técnicas sequenciais que ocorrem no capitalismo desde o início dos anos 1980, com a ascensão do neoliberalismo e impulsionadas pela crise dos anos 1970, originaram uma nova fase no capitalismo?

Questões para investigação.

NOTAS

[1] Em: Economia e Sociedade, nº1, 1992, Campinas.

[2] Ver: “Notas introdutórias ao capitalismo monopolista”, de Braga, J.C.S. e Mazzucchelli, F., in: Revista de Economia Política, São Paulo, n°2, abril/junho/1981.

[3] Em: “Sistemas industriais em transformação”, de Marcos A. Macedo Cintra, in: Informativo econômico da ABDE, junho de 2016.

[4] Em: Maryse Fhari e Daniela Prates, 2015, in: Cintra, idem.

[5] Em: Cintra, idem.

A. Sérgio Barroso é médico, doutorando em Economia Social e do Trabalho (Unicamp) e assessor político da CTB

Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor