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Não é de hoje que a administração municipal tem feito uma análise equivocada sobre a existência de cobradores nos ônibus que circulam pela capital paulista.

Na tentativa de enxugar a folha de pagamento, ignora-se o papel fundamental exercido por esses profissionais que não apenas cobram tarifas mas também garantem melhor atendimento à população.

Os cobradores que trabalham no sistema municipal de transporte urbano possuem diversas atribuições além do recolhimento do valor das passagens: orientam os passageiros para deslocamentos em pontos da cidade, dão suporte aos motoristas na acomodação de pessoas com mobilidade reduzida, auxiliam na organização interna do ônibus e no estacionamento em garagens, terminais e outros locais.

Enfim, cumprem papel de agente social dentro do processo de atendimento aos cidadãos paulistanos.

Faz todo sentido manter os cobradores trabalhando no sistema, mais valorizados e com melhor treinamento. Não faz sentido excluir essa profissão e jogar a responsabilidade de dirigir, limpar, cobrar e atender, entre outras, nas costas dos motoristas, simplesmente para enxugar folha de pagamento.

Cidades como Belo Horizonte, Recife e Santos, cujas administrações extinguiram os cobradores, expuseram motoristas a uma série de transtornos causados pela fadiga e pelo estresse, como erros nas cobranças de tarifas e acidentes de trânsito.

A proposta de extinção dos cobradores é manobra injustificável num contexto em que o poder público não fomenta políticas públicas efetivas, como revisão da distribuição da gratuidade, para melhorar o sistema. A solução paliativa e covarde, então, é prejudicar os trabalhadores, ceifando mais de 20 mil postos de trabalho em meio à crise econômica.

Outro ponto sem explicação é como os cobradores serão realocados no sistema. O prefeito jogará a conta nas costas dos empresários, que reclamam do inchaço em suas folhas de pagamento? Ou as empresas vão usar a prerrogativa da crise para demitir motoristas, mecânicos e outros profissionais para acomodar cobradores?

Lamentavelmente, os experimentos de ônibus sem cobradores estão sendo realizados à base de ameaças, sem o consentimento dos empresários do sistema e sem consulta prévia ao sindicato. São coações impostas para precipitar a vontade do prefeito em prejudicar trabalhadores e cidadãos.

Cabe expor, aqui, que a função dos cobradores tem respaldo na lei nº 13.207, de 2001, que garante a presença do "segundo homem" dentro dos ônibus. O prefeito João Doria (PSDB) vai atropelar a lei sancionada na Câmara Municipal?

O antecessor, Fernando Haddad (PT), também tentou extinguir a categoria e foi sumariamente derrotado no Tribunal de Justiça de São Paulo, que acolheu o pedido da entidade e a validação da lei municipal que resguarda os postos de trabalho.

O sindicato, assim como fez na gestão Haddad, vai empregar seus melhores esforços políticos e jurídicos para manter os cobradores nos postos de trabalho.

VALDEVAN NOVENTA é presidente do Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores em Transporte Rodoviário Urbano de São Paulo (Sindmotoristas).

Publicado originalmente na Folha de S. Paulo 

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