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Em boa medida, os números traduzem a crise que se arrasta no Brasil desde 2013/2014 – e que se acentuou com o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff no ano passado. Dois dados revelados pelo IBGE sobressaem. Um deles aponta que, no biênio 2015/2016, o País viveu a pior recessão de sua história, com 7,2% de queda acumulada do PIB. O outro revela que, em março de 2017, o índice de desemprego também bateu recorde – 14,2 milhões de brasileiros estavam sem trabalho.

São estatísticas suficientes para desmascarar o governo ilegítimo de Michel Temer (PMDB), que prometia viabilizar a estabilidade política e o crescimento econômico, numa espécie de “governo de salvação nacional”. Ao mesmo tempo, esses números mostram os desdobramentos mais visíveis da crise – os danos mensuráveis, a “realidade macro”.

Mas a recessão e o desemprego também impõem uma “realidade micro”. São as consequências que envolvem os sentimentos e os dramas pessoais do trabalhador, suas vivências tão únicas quanto intraduzíveis, o sofrimento individual, familiar e comunitário.

Com a crise em curso no Brasil, nós, da FITMETAL e dos sindicatos filiados, temos constatado que os trabalhadores metalúrgicos estão mais sujeitos a doenças, transtornos, estresse, acidentes de trabalho e insociabilidade. Além disso, há cada vez mais registro de depressão e até suicídios em nossa categoria, sobretudo entre os desempregados.

Somos um dos segmentos mais afetados pela crise. Desde 2013, os metalúrgicos perderam mais de 538 mil postos de trabalho. Uma “tempestade perfeita” juntou a redução drástica de investimentos públicos, os ataques inconsequentes da Operação Lava Jato à indústria nacional, o encolhimento do mercado interno, a agenda ultraliberal e desnacionalizante do governo Temer, além de uma acentuada desindustrialização.

Com isso, dezenas de milhares de metalúrgicos tiveram de recorrer à informalidade ou foram obrigados a aceitar novos empregos. Alguns passaram a ter remuneração até 40% menor na nova ocupação, mesmo com um trabalho similar ao anterior. Quando as condições de trabalho se aviltam, o padrão de vida do metalúrgico igualmente decai.

Há uma música que trata desses “homens e mulheres” que “todo dia cedo / saem pelas ruas procurando emprego / andam o dia todo a cidade inteira / para pão e água, nada na carteira”. É justamente canção “Desemprego”, do cantor e compositor paulista Edvaldo Santana.

Sua letra, embora composta e lançada em outro período, parece o retrato acabado deste Brasil que vive hoje uma crise sem fim, sob o governo ilegítimo de Michel Temer (PMDB). A partir de dois personagens – um pai e uma mãe de família que fracassam na batalha pelo emprego –, Edvaldo nos mostra a relação entre trabalho e autoestima, emprego e dignidade.

“Ela volta para casa antes que anoiteça / a pressão subiu, tem dor de cabeça / fala pra vizinha como está difícil / faço qualquer coisa, mas não tem serviço”. Enquanto isso, “no final da tarde, ele para no boteco / Pra beber fiado, tem que ficar quieto / Olha para o filho, bate o desespero / A fome é um bicho que mata primeiro.” No fim, a falta de emprego acaba por desmotivar o conjunto da classe trabalhadora: “Cara com satisfação tá difícil de se ver / Nada disso tem mais graça”.

À sua maneira e com rara sensibilidade, a música de Edvaldo Santana capta o dia a dia tenso dos trabalhadores que, uma vez desempregados, ficam sem perspectiva. Como sustentar a família? Como levar a vida adiante? Como achar graça do que quer que seja?

Os institutos de pesquisas são especializados nos impactos mais visíveis da crise – aqueles capturados quase que integralmente pelas estatísticas. Temos o desafio de, a exemplo de Edvaldo Santana, decifrar melhor os efeitos “invisíveis”, talvez imensuráveis, que dizem respeito aos sentimentos e às sensações do trabalhador. Saber reconhecer e enfrentar essa faceta da crise, em solidariedade aos trabalhadores atingidos, é um dever de todos nós.

Marcelino Rocha é presidente da CTB Minas e da Fitmetal 

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