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Sex, Set

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Era uma questão de tempo até que Eduardo Cunha resolvesse fazer sua delação premiada ao Ministério Público Federal. Era algo que já estava no radar de todos, especialmente depois das revelações dos proprietários da JBS.

Pois bem. Os primeiros relatos de suas revelações têm assustado seus ex-colegas na Câmara dos Deputados, e por um motivo óbvio: Eduardo Cunha sabe quanto custou o impeachment de Dilma Rousseff. A informação é do jornalista Ricardo Noblat, do jornal O Globo.

Até o mais ávido defensor da tese de normalidade democrática sabe que o afastamento da primeira mulher presidente jamais teria acontecido sem Cunha. O ex-presidente da Câmara dos Deputados fez da demolição do governo Dilma sua principal missão à frente do Legislativo, a ponto de admitir em rede nacional a blitz de pautas-bomba que colocou em pauta.

Quando chegou o momento de golpear, Cunha foi o mestre dos amotinados, orientando ações regimentais, corrigindo o texto de cada um dos pedidos de impeachment (embora devesse julgá-los!), negociando votos favoráveis, ameaçando quem se opusesse. Nos bastidores, a conversa era ainda mais suja, com grandes malas de dinheiro rolando para todos os que aceitassem vender seus votos.

Cunha conseguiu conduzir aquele processo por ter duas características essenciais: nenhum senso moral e extrema organização. E é justamente essa segunda parte que tem assustado seus ex-comparsas. Os boatos sobre sua delação são de que ele teria apontado, um a um, os deputados que receberam dinheiro para votar a favor do impeachment em abril do ano passado, e suas respectivas fontes pagadoras.

Naturalmente, a maior parte deles é do PMDB. Mas não só. Noblat diz que a delação seria forte o suficiente para implicar o presidente Michel Temer, que teria atuado ele mesmo para que os pagamentos fossem feitos.

Inicia-se então o próximo capítulo da auto-humilhação brasileira. Cunha não abriu o bico antes porque estava sendo bem recompensado, mas tudo mudou depois das declarações de Joesley Batista. O próprio operador da propina a Cunha, Lúcio Funaro, também acabou preso, e está negociando com a Procuradoria-Geral os termos da própria delação.

O que acontecerá quando a narrativa do golpe de Estado contra Dilma Rousseff finalmente for revelada nos detalhes? Quando for revelado o valor e o pagador de cada voto que tirou do poder uma presidenta sem crimes, qual será a desculpa de quem mantém a tese, cada dia mais absurda, de “normalidade democrática”?

Maioria parlamentar não significa legitimidade. Se uma votação parlamentar é conduzida em cima de fontes admitidas de propina, ela ainda tem valor institucional? Como a defesa de Dilma afirmou desde o princípio, as acusações que levaram ao impeachment era vazias - as tais “pedaladas fiscais”, irrelevantes, e completamente desconexas da Operação Lava Jato.

Isso não exime Dilma de seus próprios erros, que foram muitos, a começar pela própria incapacidade de articulação. Mas ela era inocente (como Jango também era, em 64). A cada nova acusação, chega a percepção da realidade terrível. Vai se tornar impossível negar a existência de um golpe de Estado em 2016.

Renato Bazan é repórter e editor de vídeos no Portal CTB.


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