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Ter, Jun

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Por José Reinaldo Carvalho* no Jornalistas pela Democracia

Na semana do tsunami, anunciado pelo próprio Bolsonaro, a luta política no Brasil mudou de patamar.

A impressão que a semana deixou foi que transcorreram décadas. Quem está habituado aos solavancos da história, isto não é propriamente uma novidade. Há décadas em que não ocorre nada e há semanas que valem por décadas.

Milhões de pessoas nas ruas de todo o Brasil, honradas com a designação presidencial de "militantes" (embora sua intenção fosse xingar), introduziram um fator novo na conjuntura: a pressão popular na forma do protesto de multidões contra as políticas do governo Bolsonaro, o protagonismo de quem trabalha e estuda.

A mensagem foi clara e suficientemente forte, para ser entendida na Presidência da República, a ponto de transtornar seu titular, nos centros financeiros, no Parlamento e nos comandos militares, como um brado de insatisfação do povo brasileiro com as políticas em vigor, os ataques aos direitos do povo e o achaque à soberania nacional.

O 15 de Maio foi o dia do basta. A experiência mostra que quando o povo começa a dizer NÃO inicia-se um novo ciclo político, uma nova etapa da luta, a preparação de um novo ascenso, no quadro de um processo prolongado de acumulação de forças. Uma retomada assim vale mais do que mil discursos e especulações.

O Brasil vive uma crise profunda, cujo componente principal é a vigência de um governo de extrema-direita que vai mostrando sua fragilidade política e incapacidade. Um governo isolado, apartado do povo e perdido em escaramuças com o Legislativo.

A crise acendeu o sinal amarelo nos poderes de fato. O impeachment passou a ser considerado algo natural, o próprio Bolsonaro o mencionou em entrevista em Dallas, os principais meios de comunicação publicaram editoriais ácidos, e estabeleceu-se uma nova unanimidade nacional, a de que este governo esgotou-se e não tem condições de continuar.

Enquanto se aprofunda a crise do governo, a economia derrete, caminha ladeira abaixo para a depressão, e a crise social torna-se dramática. Quase 14 milhões de desempregados. Um cenário sombrio de uma nação que caiu no abismo.

A resposta do presidente para demonstrar força, resiliência e capacidade de reação é um novo tsunami, com a reiteração de suas piores características de tirano.

Bolsonaro ameaça o país com a instauração de uma ditadura, desdenha o congresso, ataca as instituições. Encastelado no seu clã, intolerante, incapaz de conviver com a oposição, chama de idiotas os manifestantes e convoca suas hordas às ruas, sabe-se lá com quantos milicianos na retaguarda. Sinaliza que somente através da tirania poderá garantir a governabilidade. Seus seguidores mais extremados prometem cerco ao Congresso, ao Judiciário e o desencadeamento de uma "revolução cidadã".

O movimento popular não tem por que se intimidar e fugir da luta. As manifestações oposicionistas e os protestos não devem parar.

A cara da ditadura se enfrenta com luta. O cenário político do país é de uma inevitável polarização que requer do polo progressista capacidade para unir amplas forças em torno da defesa da democracia, dos direitos sociais (Previdência) e da soberania nacional. Este último aspecto não pode ser contornado, porquanto o ministro Guedes, em estado de tchutchuca com furor entreguista, prometeu nos EUA vender tudo, até mesmo o Banco do Brasil e os palácios republicanos, desdenhando o fato de que não são propriedade do clã do seu chefe.

Mas se há uma cara ditatorial e outra da luta, há também a do embuste.

Ao vazio político deixado pelo descrédito e fracasso de Bolsonaro, a dupla Rodrigo Maia-Marcelo Ramos propõe resgatar o "protagonismo da Câmara", na verdade o protagonismo de um polo político que se vai consolidando - a oposição conciliadora e conservadora. Os dois decidiram juntar-se para elaborar um projeto "alternativo", "da Câmara", em que se troca seis por meia dúzia para cambiar a paternidade e o patrocínio da proposta de espoliação do povo que é a reforma da Previdência.

Acima de tudo, diz o presidente da Comissão Especial da Reforma da Previdência, "é preciso proteger a pauta econômica da carga tóxica do governo".

Mais: "Não é um novo projeto. O cronograma para a reforma está mantido. A questão é que como as alterações que a comissão fará são muito profundas, o que surgirá será um substitutivo que tem a cara da Câmara".

A proposta "alternativa" com a "cara da Câmara" tem, e não é mera coincidência, o mesmo escopo da de Paulo Tchuchuca: confiscar R$ 1 trilhão de quem vive de pensões e aposentadorias para garantir que o governo Bolsonaro e os que lhe sucederão continuem pagando religiosamente a conta de juros para que o capital monopolista financeiro nacional e estrangeiro siga vivendo à tripa-forra, às expensas da miséria do povo brasileiro.

Fica patente o embuste da alternativa política baseada na trama institucional encabeçada pela direita e centro-direita.

Mais abstrusa ainda é a proposta de encontrar uma saída para a crise entregando o poder ao general da reserva Hamilton Mourão, vice-presidente. Mourão é a voz das catacumbas do regime ditatorial, modulada por um tom realista e pragmático, mas de sentido antidemocrático.

A cara do embuste diz muito sobre o que seria o destino do Brasil sob a batuta dos defensores de tal política.

São ilusórios os atalhos, seja dos que seguem o político Rodrigo Maia, seja os que batem continência ao militar de turno na vice-presidência.

Em caso de crise institucional e governamental incontornável, não há saída possível fora da soberania popular.

Atalhos não levarão à superação do regime do golpe, que começou em 2016 e teve continuidade com a eleição de Bolsonaro em 2018, nem a saída política para a crise do país virá dos protagonistas desse golpe.

As forças progressistas estão desafiadas pela crise política aguda. Firmar um entendimento comum, formular uma plataforma de convergência e agir para pôr o movimento social nas ruas, serão já passos na direção do avanço da luta popular.

Resistir e lutar contra a agenda de Bolsonaro, rechaçar sua ofensiva golpista, acumular forças com vistas à superação do ciclo de direita. O ajuste interno no campo conservador, incluindo a direção reacionária do congresso e as Forças Armadas não são alternativas válidas para o campo progressista.

* Jornalista, pós-graduado em Política e Relações Internacionais, diretor do Cebrapaz – Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz. Integra o projeto Jornalistas pela Democracia

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