Sidebar

16
Ter, Jul

Fonte
  • Smaller Small Medium Big Bigger
  • Default Helvetica Segoe Georgia Times

Dia 14 de março de 2018, à tarde. Participo do enterro do Matheus Melo, morto de forma brutal e covarde por policiais militares. Eis que, no enterro, recebo uma ligação: era minha irmã, Marielle Franco. Ela queria prestar solidariedade à família do Matheus.

Dia 14 de março de 2018, à noite.

Recebo a notícia de que Marielle e Anderson Gomes foram mortos, de forma brutal e covarde. Ligo para a companheira Mônica do Borel. Do outro lado da linha choro, muito choro. Era a confirmação de um pesadelo: nossa irmã havia sido assassinada. Mas eu custava a acreditar.

Então liguei para a irmã Paloma Gomes e minha mana atendeu aos prantos. Desmoronei, como se tivesse sido nocauteado. Para me socorrer, restava uma das minhas melhores amigas, irmã que admiro e respeito muito: Mônica Cunha. Mas seu celular estava desligado.

Não tinha mais o que fazer: era o fim de um sonho. Desabei e chorei. Muito. Como há tempos não chorara. E, assim, o dia 14 de março entrou para a história como o pior dia da minha vida, até então.

Dia 15 de março de 2018.

Participo do velamento do corpo de minha irmã na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Mais choros. Que foram confortados pelos abraços de grandes companheiras e companheiros.

E, enquanto o corpo de nossa irmã não passava na nossa frente, dentro da Câmara Municipal, brados. Muitos brados. Das mulheres e de todos os movimentos por elas representados. Em especial o movimento negro e LGBTs.

Os brados foram acompanhados, subitamente, por uma estrondosa salva de palmas, que fizeram meu coração tremer – como nunca antes havia sentido.

Ali eu não só fui invadido por uma explosão violenta de emoção, mas também (ou, sobretudo) tive a certeza que a revolução, no Brasil, somente será possível com as mulheres no comando, o que restou comprovado após os declames de Talíria, Monica Cunha, Mônica do Borel, Flavinha, Monique, Rejany, Paloma, Bell, Andreía, Rose Cipriano, entre outras.

Aquela explosão trovejante era o indício mais concludente de que a luta, por si só, é – e sempre será – a razão do nosso viver, motivo pela qual – hoje e sempre – somos todos Marielle: presente!

Marielle, mesmo não tendo graduação em direito, foi a maior advogada que conheci. Sabem por quê? Porque a palavra advogada significa “advocatus, vocatus ad”, ou seja: advogada é aquela chamada a socorrer. Assim era Marielle: pronta para o que der e vier; custe o que custar.

Por isso, em homenagem à nossa irmã Marielle Franco, bem como a todas ali presentes, que ensinaram aos homens que a revolução somente será possível se os homens lutarem como uma mulher (daí a expressão: Lute como uma mulher!), fiz um pequeno texto, cujo título poderia ser “Apologia de Marielle”, dado que se trata de um texto inspirado na obra de Platão – Apologia de Sócrates.

Talvez pensem, senhoras e senhores, que poderia ter evitado minha morte se dissesse e fizesse tudo aquilo que eles estão acostumados a ver e ouvir da classe dominante. Longe de mim fazer isso. Eles queriam me ouvir gemer, lamentar e fazer coisas que, insisto, são indignas de mim – coisas que vocês estão acostumados a ouvir de outros.

Por isso não me arrependo, companheiras, de ter lutado pela defesa do meu povo, mesmo que isto tenha custado minha vida, porque prefiro morrer lutando do que viver como uma covarde.

Companheiras negras e companheiros negros: não devemos em qualquer lugar, seja ele no Tribunal ou na guerra, deixar o nosso povo sem defesa, mesmo que isso possa custar nossas vidas. Eu sou a prova disso. Jamais deixem que minha morte seja em vão.

Nas batalhas, é muito comum os homens evitarem a morte depondo suas armas e implorando misericórdia aos perseguidores, mas nós, mulheres, somos diferentes dos homens, porque a covardia é uma palavra que não existe em nosso vocabulário.

Faço-lhes, por fim, um pedido: não se subtraiam à defesa das causas do povo negro, das mulheres e das causas LGBT. Onde for apurável um grão que seja, de direito, juntem-se a elas. E o principal: lutem sempre como uma mulher; jamais como um homem. Não nos calarão.

Do seu irmão Djeff Amadeus. Negro com muito orgulho. Saudade, muita.

Marielle: presente!

Djefferson Amadeus é mestre em Direito e Hermenêutica Filosófica (UNESA-RJ), bolsista Capes, pós-graduado em filosofia (PUC-RJ), Ciências Criminais (Uerj) e Processo Penal (ABDCONST).

Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

0
0
0
s2sdefault

Quer saber o que acontece no movimento sindical e no mundo do trabalho?

Digite seu nome e e-mail para receber gratuitamente nosso informativo.