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Dom, Abr

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Por Umberto Martins (*)

Presenciamos nesses dias um dos capítulos mais indignos da história do Brasil. O presidente Jair Bolsonaro acaba de desempenhar nos EUA o papel de um governante vassalo, completamente subserviente ao bilionário Donald Trump, um líder de extrema direita que não goza de boa reputação na chamada comunidade internacional, nem mesmo entre os mais tradicionais aliados de Washington.

O espírito de vira-lata (descoberto por Nelson Rodrigues) baixou com tal desenvoltura no capitão reformado que escandalizou até o jornalista Marco Antonio Villa, um colunista conservador acostumado a criticar diuturnamente o PT. “Esta viagem está sendo desastrosa”, comentou, classificando de “absurdo o que está sendo feito. Você se alia aos EUA e não vai receber nada. É necessário acabar com essa subserviência”.

Com efeito, Bolsonaro sentou no colo de Donald Trump e cedeu praticamente a todos os desejos do seu chefe e ídolo. Entregou a estratégica base aérea de Alcântara (MA), disse que o Brasil “está a postos” para servir de bucha de canhão numa possível intervenção militar do imperialismo na Venezuela, acenou com a internacionalização da Amazônia, reduziu tarifas de importação de trigo e abriu o mercado para carne suína estadunidense.

Ele também liberou visto para turistas provenientes daquele país sem qualquer contrapartida e humilhou brasileiros imigrantes apoiando a política xenófoba de Trump, incluindo a construção do chamado “Muro da Vergonha” na fronteira com o México. Chegou ao ponto de declarar que a grande maioria dos imigrantes “não tem boas intenções”.

Como se não bastasse, sinalizou com apoio à estratégia do imperialismo contra a China, nossa maior parceira comercial que já se transformou na maior economia do planeta, condição que a coloca naturalmente numa rota de colisão com os EUA, que querem manter a qualquer preço a hegemonia sobre a geopolítica global.

Contra os interesses nacionais

Orientada pela mais tosca das ideologias, a política externa do governo Bolsonaro está na contramão da história e também dos interesses nacionais. Não é preciso grande esforço intelectual para perceber que ao longo da história universal, a política imperialista dos Estados Unidos, inaugurada no século 19, contrariou os interesses dos povos e das nações, sobretudo na América Latina e Caribe, região considerada como um mero “quintal” por Washington, mas igualmente no Oriente Médio, na África, Ásia e mesmo na Europa.

No Brasil, os Estados Unidos estiveram desde sempre aliados às forças sociais mais obscurantistas e reacionários para combater as forças progressistas e sabotar o desenvolvimento nacional. Foram as “forças subterrâneas” denunciadas por Getúlio Vargas, levado ao suicídio em 1954, enviaram uma frota para garantir o golpe militar de 1964, que depôs João Goulart, e deixaram fortes impressões digitais no golpe de Estado de 2016, travestido de impeachment.

Grampearam a ex-presidente Dilma Rousseff e municiaram a Lava Jato com informações sobre a Petrobras e a Odebrecht colhidas por suas agências de espionagem. Convém lembrar que Sergio Moro, acusado de ser um “agente dos EUA” pelo jurista Fábio Konder Comparato, fez questão de visitar com Bolsonaro a sede da CIA em Washington. Na América Latina os EUA estiveram por trás dos sangrentos golpes de Estado no Chile (liderado por Augusto Pinochet em 1973), na Argentina (1975) e outros países.

Uma das contrapartidas ao espetáculo de vira-latismo, destacado com ironia pelo jornal “Washington Post”, foi o aval do governo norte-americano ao ingresso do Brasil na decadente OCDE, considerada falsamente por apologistas do capitalismo neoliberal como um “clube dos ricos”. Mas nem mesmo isto está em sintonia com os interesses nacionais, pois nos impõe prejuízos, uma vez que tal associação (descartada por Lula e por Dilma) está condicionada à perda de vantagens no comércio exterior conferidas aos países considerados em via de desenvolvimento, como tarifas diferenciadas para proteger a indústria e ramos sensíveis da economia.

Uma potência em declínio

Conquistada no bojo da Segunda Guerra Mundial e traduzida nos acordos celebrados na cidade estadunidense de Bretton Woods em 1944, a hegemonia dos EUA tem por principal fundamento a sua força econômica, que ao término daquela carnificina era indiscutível. Mas hoje em dia este poder está em franco declínio, em função do parasitismo enraizado no American Way of life (modo de vida americano) e, em igual ou maior medida, do desenvolvimento desigual das nações, uma lei da história moderna refletida nas disparidades das taxas de crescimento dos PIBs, que resultou na fulminante ascensão da China.

A ação desses fatores ao longo das últimas décadas promoveu transformações de vulto na economia mundial e na correlação de forças entre as grandes potências, conduzindo ao deslocamento da produção industrial, e por extensão do poder econômico, do chamado Ocidente (leia-se EUA, Europa e Japão) para o Oriente, e principalmente dos Estados Unidos para a China.

Isto também significa o esgotamento da ordem mundial fundada na hegemonia do dólar e liderada pelos EUA, o que se desdobra objetivamente num processo de transição global na direção de uma nova ordem internacional, que a julgar pelos propósitos declarados por Pequim e Moscou deve ser orientada pelo respeito ao direito dos povos e nações à autodeterminação, à margem de intervenções imperialistas, bem como pelo multilateralismo, ou seja, sem hegemonismo e unilateralismo, como é o caso da atual.

A sabujice que guia a política externa de Bolsonaro vai na contramão deste movimento, e por isto na direção oposta ao novo cenário geopolítico que está sendo desenhado pela história. A subordinação do Brasil aos EUA seria um gesto vil e desprezível em qualquer momento da nossa história, mas é um contrasenso que pode nos custar caro especialmente no atual contexto, em que os EUA nada têm a nos oferecer senão mais exploração e sofrimento.

Hostilizando a China, por outro lado, temos muito a perder e já começamos a acumular prejuízos. O gigante asiático, que absorve 26% das exportações brasileiras (mais do que o dobro dos EUA, que ficam com apenas 12%), já reduziu e suspendeu investimentos bilionários no Brasil em reação às provocações do governo de extrema direita. Agora está restringindo as compras de produtos oriundos do agronegócio, para desespero dos nossos ruralistas, que já manifestam arrependimento pelo entusiasta e pouco racional apoio que deram ao golpe de 2016 e à eleição do capitão fascista.

(*) Editor do Portal CTB, jornalista e escritor, autor do livro O Golpe do Capital contra o Trabalho

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