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A vida nacional estipula alguns momentos definidores da própria existência e razão de ser brasileiro. O Carnaval e o futebol são expressões muito presentes e marcantes naquilo que podemos chamar de “brasilidade”.

Óbvio que outros valores, fenômenos, manifestações e práticas também concorrem para a caracterização distinta do povo. Mas me detenho nesses dois aspectos para fins de reflexão particular e específica.

Acrescento transversalmente um outro elemento – o das eleições gerais – para problematizar e relacionar a Cidadania enquanto exercício político consciente e autônomo aos itens culturalistas e identitários da nacionalidade para localizar possíveis nexos, desdobramentos e prognósticos frente ao complexo, mutável e incomum cenário social, com vistas a alcançar um viés interpretativo e explicativo da situação concretamente vivenciada.

Tanto a folia de Carnaval quanto o jogo de futebol costumam sofrer críticas arbitrárias e pejorativas: a de representar o velho “pão e circo”, distração e engodo, alienação e manipulação, escondendo, distorcendo, mascarando ou falsificando os fatos e processos. Em outros termos, seriam o “ópio do povo” em versão laica.
Só para contrariar tais teses, já em fevereiro último o desfile da Paraíso do Tuiuti trouxe à tona dramáticas questões do Brasil do Golpe e da Crise. As referências à escravidão histórica serviram de base para a narrativa radical e contundente da tragédia dos tempos atuais.

A costumaz discursiva de que samba e carnaval não passam de alienação foi mais uma vez desmentida pela força do ato rebelde e contestatório da agremiação carnavalesca carioca, campeã da empatia e torcida popular.

Mas além da festejação das ruas e passarelas ergue-se outra manifestação brasileiríssima, destacada como característica do nosso pertencimento: o futebol, a Seleção Brasileira e a Copa do Mundo. As intitulações de “país do futebol” ou “pátria de chuteiras” não são exageros hiperbólicos, mas sim uma síntese parcial da presença do esporte como uma prática social extremamente valiosa, empolgante e envolvente.

A realização da Copa expõe leituras e interpretações várias, desde aquelas pessimistas e amargas, que atribuem distração dos problemas importantes até aquelas eufóricas e ufanistas, cuja consequência é irremediavelmente alienante da vida concreta, mas com a possibilidade de um ponto de equilíbrio na exata razão em que identifica e diferencia a catarse futebolística das circunstâncias econômicas, políticas e sociais.

Fosse a Copa só ilusionismo barato, o criticismo teria sentido. Acontece que o baixo interesse dos brasileiros quanto ao torneio é sintomático: as pessoas estão tensas, circunspectas, taciturnas frente aos destinos da Nação. Desemprego, carestia e empobrecimento não desapareceram da vista dos brasileiros.

Há um lamentável desencanto e distanciamento provocado justamente pela compreensão dos graves problemas em evidência. Ocupados com assuntos e soluções mais relevantes para a própria sobrevivência, os brasileiros relegam a busca pelo hexa a um plano secundário.

Compreende-se, portanto, que não se resume a dramaticidade ao futebol. A falta de entusiasmo quanto ao desempenho do escrete canarinho – símbolo da brasilidade – se repete diante da proximidade do pleito eleitoral. Ao abdicar da própria identidade e também da Cidadania, verifica-se que a dureza e tristeza do tempo presente coloca a consciência do povo em primeiro lugar.
Quais os riscos? Rebaixar o sentimento pátrio expresso pelo futebol é tão danoso e perigoso quanto esvanecer a participação cidadanista.

Mais: o desinteresse pela Política abre condições para aventuras, simulacros, proselitismos e demagogias de todo tipo, em especial aquelas que se aproveitam da fragilidade e desespero para prometer com simplificações grosseiras e reducionismos baratos uma redenção ou um alívio imediato.

É lícita toda a crítica e descontentamento com a avalanche ufanista de nacionalismo raso, estereotipado e estéril. Também é admissível desconfiar dos usos distrativos que a emoção popular pode sofrer por conta dos resultados futebolísticos. Porém, tais preocupações não podem ser superestimadas, paranoizadas ou dar margem para uma postura antibrasileira.

As pesquisas de opinião apontam que o desinteresse na Copa repete-se com o das Eleições e tal coincidência deveria ser objeto de exame mais maduro e sério por parte daqueles que se dedicam as causas populares, sociais, nacionais e progressistas. A perfilação de uma brasilidade e uma cidadania afetadas, inertes e rebaixadas não é bom sinal, é sintomática de problemas mais profundos e graves.

Aos brasileiros carentes de estima, orgulho, motivação, empenho e vislumbre cabe uma intervenção democrática, libertária, conscientizante, emancipacionista e mobilizadora. A explicitação da nossa arraigada brasilidade complementada pelo nosso dever cívico e cidadanista é uma oportunidade ímpar. Desconhecer que, apesar dos pesares, o futebol encarnado na Seleção e na Copa cumpre papel e abre espaço para o debate favorável às nossas pautas e causas é tremendo equívoco, pois ignora ou desdenha a capacidade das pessoas em divisar a alegria de se ver como Povo e Nação através da bola da necessidade de cumprir seus direitos e deveres políticos que os livrem do Golpe e da Crise em que vivem e do qual bem sabem quais foram mesmo os responsáveis e também quem pode livrá-los dessa tragédia programada.

Não precisamos de uma nova derrota acachapante ao estilo 7 a 1, pois isso já vem acontecendo desde que os golpistas, entreguistas, neoliberais e fascistas assumiram a linha de ação governamental. Reivindicamos o resgate crítico e lúcido da brasilidade e da cidadania, operando sobre as frentes abertas com o nossos conterrâneos, em sua gigantesca maioria brasileiros e brasileiras trabalhadores e eleitores, ansiosos para mudar a dura e triste realidade.

Vencer ou perder a Copa é do jogo da vida, mesmo quando o jogo é carregado de vícios e maldades. Mas torcer pelo fracasso implicará num desquite entre Esquerda e imaginário popular e nos colocará no campo inimigo, fazendo parecer afáveis os que tentam exclusividade sobre o verde e amarelo.

Alex Saratt é educador 

Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

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