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Seg, Mar

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Estou lendo “confesso que perdi”, obra autobiográfica do Juca Kfouri. 

O título do livro é emblemático, e me levou a escrever essa reflexão.

Perdemos em 64 sem darmos um tiro, a democracia caiu “como um castelo de cartas”, palavras ditas à época por um dos militares golpistas.

A partir de 68 pegamos em armas mas, sozinhos, sem povo — que estava preocupado com coisas mais importantes do que derrotar a ditadura, como por exemplo quando pelé faria o milésimo gol — não só perdemos como começamos a ser massacrados.

Perdemos no começo dos anos 70, quando a violência da ditadura recrudesceu, e, com armas nas mãos, nas ruas e no campo, no Araguaia, continuamos sozinhos, sem povo.

Perdemos.

Pelé já tinha feito o milésimo gol, o “milagre econômico” da ditadura médici enebriava a população (“esse é o país que vai pra frente”) junto com a conquista do tricampeonato mundial de futebol. Perdemos mais uma vez.

Na segunda metade dos anos 70 seguimos perdendo. Chacina da Lapa, Manoel Fiel Filho, Vladmir Herzog, Zuzu Angel, tantos outros. A partir da mobilização dos estudantes — sempre eles! Iniciamos uma tímida reação contra a ditadura, mas a desvantagem contra nós era enorme. Seguimos perdendo.

Final dos anos 70, o movimento sindical, com Lula à frente, consegue tirar parte da população do estado de inércia e torpor no qual jazia. Começamos a reagir, mas o gosto amargo da derrota teimava em permanecer na boca, muito devido à anistia geral que permitiu aos assassinos da ditadura escapar incólumes dos crimes que cometeram. Perdemos.

Início dos anos 80, o movimento sindical consegue mobilizar a partir do ABC paulista grande parcela da população.

Não dava mais pra segurar, e o Brasil explodiu em grandes greves gerais.

1984, o clamor popular praticamente uníssono era “Diretas Já”.

A rede grobu, sempre ela, parceira desde sempre dos assassinos da ditadura, começou um processo de criação um herói nacional. Então eis que tancredo neves surge como salvador da pátria, logo ele que atentou contra o governo popular de Jango, conspirando para se tornar primeiro - ministro.

Mas o povo, sempre o povo, ensandecido e disposto a qualquer coisa que tirasse o país da dramática situação na qual se encontrava, o apoiou como não apoiou quem de fato pelo povo lutou. Tivessem Marighella ou Lamarca o apoio que a população deu para tancredo, justiça seja feita, apoio construído artificialmente pela rede grobu e permitido pelos militares golpistas, teríamos vencido a ditadura, e hoje o Brasil seria outro.

Perdemos de novo: a emenda que instituiria Diretas Já foi derrotada no Congresso.

Em 1985 os militares deixam o poder, mas deixam para inglês ver. Sarney, que assumiu como presidente tampão em função da morte de Tancredo sempre foi representante da ditadura.

Perdemos, mas muita gente celebrou, achando que a ditadura havia finalmente sido derrotada. Não foi. Eles abandonaram o poder, porque a situação estava insustentável. Inflação nas alturas, altíssimo índice de descontentamento popular.

Os militares abandonaram o poder mas continuaram a controlar os cordéis através de coroné Sarney.

O povo? Ah, o povo se tornou “Fiscal do Sarney” que até encenou sequestro de boi nas fazendas.

As derrotas que sofremos até 2003 foram tantas! Collor, Itamar, Fernando Henrique…

Em 2003 elegemos Lula e ouso dizer que foi a primeira vitória que o povo obteve de fato. Desde 1964 só havíamos perdido, de cabeça baixa, toados como gado.

Lula nos trouxe dignidade. Em certo momento o orgulho genuíno de ser brasileiro voltou a ser um sentimento real.

O legado dos dois governos Lula foi herdado por Dilma, mulher digna, guerrilheira, corajosa.

A vitória do povo seguia consolidada, aos poucos, timidamente, mas seguia.

Mas eis que em 2013 começamos a perder novamente.

Não ia ter Copa, era os 20 centavos da tarifa de ônibus e a exigência por Educação padrão FIFA. Sim, padrão FIFA, uma das entidades mais corruptas do mundo.

Começamos a perder novamente, e, como se não bastasse, para a tristeza do povo a Seleção Brasileira toma uma goleada de 7 a 1 da Alemanha.

Literalmente, perdemos.

O resto todos sabem. Seguimos perdendo, gritando que “não iria ter golpe, iria ter luta” e teve golpe e não teve luta.

Derrubaram Dilma, nas eleições de 2016 o povo  -  ah, sempre o povo! votou maciçamente na direita que o odeia.

E seguimos perdendo, divididos, perdendo.

Seguimos perdendo, emparedados por pautas abstratas, coisas de somenos.

“Lugar de fala”, “hômi”, “molieres” PTralha, coxinha, ostentação, Anitta, se Pablo Vitar canta bem ou não, Bolsonaro, huck, doutor rey, patricia monteiro, o dono da Riachuelo.

A pulissa militá segue praticando suas atrocidades igual ou pior do que praticava na ditadura anterior.

E Lula, o maior líder popular do mundo em atividade, o maior presidente que esse país já teve, prestes a ser jogado num cárcere, numa das maiores injustiças jamais vistas aqui ou em qualquer outro lugar.

Revolução? Ah, pelé fez o milésimo gol e quem acha que o Pablo canta mal é preconceituoso.

É isso que importa, não é não?

Diógenes Júnior é Assessor de Comunicação Social e Sindical, historiador independente, ativista político e dos Direitos Humanos, militante do PCdoB e pai do Fidel.

Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

 

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