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O Jornal Extra, em seu editorial desta quarta-feira (16), publicou um posicionamento onde cria a editoria “Guerra do Rio” que, segundo o jornal servirá para apresentar uma nova forma de “interpretar e contar o que acontece ao nosso redor” para casos que fogem “da normalidade civilizatória” que só seriam vistos no Rio de Janeiro. A publicação das Organizações Globo encerra seu editorial se dizendo envergonhada de ser uma publicação com uma editoria de guerra num país que “se recusa a reconhecer que está em guerra”. Diante desse relato indignado do jornal, ficamos com a pergunta: guerra contra quem?

O jornal alega defender uma “guerra baseada na inteligência, no combate à corrupção policial, e que tenha como alvo não a população civil, mas o poder econômico das máfias e de todas as suas articulações”, mas é isso que vemos na prática? A presença das forças armadas na segurança pública fluminense é constante desde 2008. Foram 12 ações militares em 9 anos. Somente no ano de 2009 não houve nenhum tipo de ação das forças armadas no Rio de Janeiro e, o que mudou?

As mudanças foram poucas. Ao contrário do que o Jornal Extra tenta defender, a suposta “Guerra do Rio” não é uma guerra contra os grandes empresários do tráfico e da violência, a guerra é contra os pobres. Numa cidade com desenvolvimento desigual, onde cerca de 2 milhões de trabalhadores vivem nas favelas sem as condições ideais de infra-estrutura e saneamento, alijados do processo de desenvolvimento da cidade, as forças militares de segurança são as únicas que sobem os morros. Não é com saúde, educação, políticas de geração de emprego e renda, de moradia e de inclusão social que o Estado sobe as favelas e morros: é com caveirões, fuzis e metralhadoras! Trata-se de um Estado que, hoje, não possui um governo, que se encontra sem nenhuma perspectiva de crescimento econômico e desenvolvimento social, manchado por escândalos que geram descrédito no povo, com índices econômicos pífios e que encontra apenas na solução militar os caminhos para enfrentar seus problemas. Foi assim já em 2008, nas eleições municipais; entre 2010 e 2012 na Ocupação Militar do Complexo do Alemão; em 2011 para os Jogos Mundiais Militares; em 2012 na Rio +20 e nas eleições municipais; em 2013 na Jornada Mundial da Juventude; em 2014 na Copa do Mundo; entre 2014 e 2015 na Ocupação Militar do Complexo da Maré; em 2016 nas Olimpíadas e nas Eleições Municipais e; esse ano na votação do Pacote de Maldades e agora no Plano Nacional de Segurança do Rio.

O modelo que o Jornal Extra tenta criticar lembrando do gravíssimo caso em que um feto fora baleado e morto ainda no ventre de sua mãe é o mesmo que ele defende ao lançar o conceito de guerra. Se há uma guerra no Rio de Janeiro, esta guerra não é contra os grandes traficantes ou empresários da violência. Ela é uma guerra contra os pobres, os negros e os trabalhadores. Uma guerra contra as classes que mais sofrem no dia a dia com a truculência de uma política econômica e de segurança pública.

Desde a Lei Áurea, o povo negro fora relegado às partes altas das cidades. Sem emprego, sem uma política que os incluísses, foram abandonados pelo Estado à sua própria sorte após séculos de escravismo. O processo de favelização é fruto de um Estado que nunca se preocupou com as condições de vida dos negros e dos trabalhadores. As favelas, ao contrário de quartéis generais do crime como tenta passar a grande imprensa, são a moradia de uma imensa população de baixa renda que não é inserida nos planos de desenvolvimento econômico e social das cidades.

A “guerra aos pobres” no Brasil já acontece bem antes dessa incursão militar dos governos Temer e Pezão. Ela já aconteceu em 2010 no Complexo do Alemão, em 2014 na ocupação do Complexo da Maré, na votação do pacote de maldades do Pezão no começo do ano e em diversos momentos da cidade nos últimos 10 anos. É uma guerra onde a violência e o despreparo dos que pensam a nossa segurança pública transformam a moradia do povo trabalhador em uma praça de guerra enquanto os verdadeiros barões do tráfico continuam ilesos.

Até hoje, o Brasil quer saber quem era o dono da pasta base de cocaína que lotava o helicóptero em Minas Gerais? Ou ainda porque um avião lotado de drogas decolou da fazenda do ministro? Mas para essas localidades e para os donos legais dos meios de transporte de toneladas e mais toneladas de entorpecentes não há tanques, não há armas de grosso calibre e muito menos a truculência de forças treinadas para matar. No país da impunidade dos grandes traficantes, jovens negros seguem encarcerados por porte irrisório de substâncias ilegais ou até mesmo por carregarem um simples desinfetante.

A guerra existe, Jornal Extra. Mas não é uma “Guerra do Rio” de um país que insiste em não aceitar que está em guerra. Ela é uma guerra aos pobres em um país que ataca os trabalhadores seja na esfera dos direitos sociais mais básicos, atacando sua aposentadoria, seus direitos trabalhistas e seus sistemas de saúde e educação; seja na esfera econômica com o fim da política de valorização do salário mínimo, o fim da política de conteúdo nacional e a ausência de medidas que combatam o desemprego e a desigualdade social; seja na esfera social transformando moradias em praça de guerra e usando das forças armadas para reprimir o povo negro e trabalhador.

Não à guerra aos pobres! Por uma política de inclusão social, urbanização e respeito ao povo trabalhador das nossas favelas.

Rio de Janeiro, 16 de Agosto de 2017

Paulo Sérgio Farias é presidente da CTB-RJ


Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

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