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Dom, Mar

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Jair Bolsonaro acaba de perder as eleições. O tipo atrevido, arrogante e desafiador que se apresentou sem medo no
primeiro turno das eleições, e ganhou em termos relativos, tornou-se um cordeiro tímido perante os ministros do Supremo Tribunal Federal, que lhe exigiram explicações sobre a ameaça de fechar a instituição com um soldado e um cabo. Entendo que milhões de seguidores de Bolsonaro, de forma absolutamente irresponsável, gostariam de ver fechado o Supremo. Entretanto, ele não recuou da proposta do filho.

Nas hordas de pobres que seguiram Bolsonaro no primeiro turno o sentimento dominante é a frustração com a situação social e, sobretudo, o desemprego. Na classe média alta e nas classes dominantes o sentimento é de pura ganância. Eles acreditam que Bolsonaro lhes dará vantagens ainda maiores que as dos governos Lula e Dilma, mediante uma política de ainda maior escravização do trabalho, e no rastro do que foi a reforma trabalhista de Temer. Toda essas hordas devem estar decepcionadas com a nova atitude humilde de Bolsonaro.

“Todos nós erramos”, disse ele com inaudita modéstia. Então o homem que prende, mata e arrebenta todo mundo, o homem que promete unir o Brasil pelo ódio, esse salvador da Pátria delirante erra e não resiste a um pequeno puxão de orelha dos ministros do Supremo. Todos nós estávamos acostumados a ver e ouvir uma  proposta de líder montado com uma armadura de ferro, cavalgando como os anjos do Apocalipse, perseguindo “comunistas” sem dó nem piedade, e sem qualquer compromisso, ao final, com a coerência política.

A humildade de Bolsonaro exibida na televisão refletiu uma atitude cativante. É o homem novo da Bíblia em São Paulo. Agora ele acha que o Supremo Tribunal Federal, que seu filho quer fechar, é uma instituição altamente respeitável, tanto que entre suas iniciativas uma das primeiras será visitar o ministro Toffoli, o presidente do STF. Que coisa sublime. Ainda em plena campanha, antes de ganhar as eleições, Bolsonaro concede ao Supremo a graça extraordinária de fazer uma visita a seu presidente!

Não sei o que deu em Bolsonaro, mas se ele tivesse colocado pé firme contra o STF poderia ganhar as eleições como super-mocinho do Oeste. Diria, por exemplo, que esse Supremo não defende a democracia como afirma Toffoli, e merece uma reforma em regra, talvez através de uma Constituinte exclusiva. Entretanto, Bolsonaro não tem qualquer idéia sobre Justiça, democracia e Direitos Humanos. Por isso recuou. Jogou a toalha por medo do Supremo, mesmo porque o Supremo exerce atualmente uma espécie de ditadura jurisdicional que poderia prejudicá-lo.

Como dizem os franceses, a quelque chose malheur est bon – ou seja, para alguma coisa o mal acaba servindo. A aula do filho de Bolsonaro, seu herdeiro político, fez o pai atravessar o Rubicão ao contrário: em vez de avançar sobre Roma, recuou para os bárbaros. Bolsonaro teve que se humilhar de uma forma que nenhum de seus eleitores gostaria de ver. Aquela cara patética, doentia, misturada com decepção, não é o que  os eleitores dele esperam para o segundo turno. O herói caiu do cavalo. Toda aquela aura de homem valente virou fumaça. Bolsonaro é um retrato na parede, nada mais – como diria Drummond.


J. Carlos de Assis é jornalista, economista político, doutor em Engenharia de Produção, autor de mais de 20 livros sobre Economia.

Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

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