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Sex, Jan

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No Grande Rio, somos 12 milhões de pessoas. Para garantir a mobilidade de uma população deste tamanho, é indispensável um transporte público de alta capacidade, como trens, barcas e metrô. Apesar disso, os sucessivos governos do Estado e dos municípios da região sempre privilegiaram o transporte sobre rodas. Ao ponto do ônibus realizar hoje mais de 80% das viagens diárias regulares.

Nessa curva, as políticas de transporte derraparam feio. Não adianta quadruplicar pistas, cavar túneis ou encher a paisagem de cinzentos viadutos. O ônibus é poluente, caro e leva poucos passageiros em cada viagem. Quando se aposta nele, não tem jeito, o engarrafamento, a poluição e os prejuízos sempre vem. Segundo estudo da UFRJ, perdemos em tempo, combustível e desgaste de material cerca de R$ 12 bilhões por ano. Mas o maior prejuízo é sempre do trabalhador, que perde qualidade de vida em ônibus lotados, desconfortáveis, inseguros e guiados por motoristas mal pagos e trabalhando muitas vezes em dupla função.

Investir no ônibus não foi bom nem para o Rio, nem para os cariocas. Só foi bom para… as empresas de ônibus! E toda a vez que a sociedade tenta discutir a melhoria e abertura das contas do sistema, os empresários puxam o freio de mão e colocam o debate numa caixa-preta. Para se ter uma ideia, até hoje só eles sabem (e informam o que querem aos governos) quantos passageiros transportam por dia. Uma informação que é vital para definir o preço da passagem ou determinar os investimentos para melhorar o sistema fica só na mão dos empresários. Ou seja, a raposa tomou conta do galinheiro.

A mão deles continua firme nesse volante, principalmente, porque eles nunca deixam de fazer grandes doações às campanhas políticas de prefeitos e vereadores. Avançam o sinal, porque a lei proíbe doações de concessionários de serviços públicos, mas molhando a mão do guarda achavam que a multa nunca ia chegar. Só que, dessa vez, dormiram no ponto e perderam a viagem.

Uma grande operação da Polícia Federal desbaratou o cartel das empresas e prendeu seus principais “pilotos”. Estão trancados em Bangu, dentre outros, o presidente da poderosa Federação das Empresas (Fetranspor), Lélis Teixeira, e o empresário Jacob Barata Filho, “rei do ônibus”, investigados pelo suposto pagamento de R$ 500 milhões em troca de aumentos das passagens. De 1994 a 2015, enquanto a inflação foi de 400%, a tarifa disparou 1.000%, com todos os ganhos embolsados pelos empresários do setor.

A prisão desse pessoal abre espaço para um novo tempo. Agora, livre da pressão econômica das empresas, o povo tem a chance de escolher políticas de mobilidade mais responsáveis, que ajudem a cidade a se desenvolver com dignidade, conforto e tarifas justas para os usuários dos serviços. Para que possamos discutir, por exemplo, a transformação dos trens da Supervia em metrô de superfície, beneficiando moradores da Baixada, Zona Norte e Zona Oeste. Assim como a ampliação e melhoria do transporte aquaviário, fundamental para acelerar a locomoção entre a capital, Niterói, São Gonçalo e outras cidades no entorno da Baía de Guanabara. Sem falar no passe livre social nos transportes para desempregados, trabalhadores informais, estudantes de todos os níveis e beneficiários do Programa Bolsa Família.

Tá na hora de botar nos trilhos (e na água) o transporte do Rio.

Márcio Ayer é presidente do Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro


Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

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