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A última semana foi recheada de fatos e factoides que, por razões distintas, merecem alguns comentários. Começou na segunda-feira, 12, com o julgamento e a condenação do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ex-presidente da Câmara Federal e personagem chave no golpe parlamentar que depôs Dilma e conduziu o usurpador Michel Temer à Presidência.

Um dos homens mais poderosos da república, por um breve e conturbado período, Cunha chegou a se gabar de ter mais de uma centena de parlamentares na palma das mãos, dependentes de seus favores. Foi cassado por notória corrupção e o resultado surpreendeu: 450 votos a 10. Seus ex-colegas não quiseram acompanha-lo até a cova, certamente com medo de cair juntos.

O agora ex-deputado, com um potencial explosivo de delator, sentiu-se traído e apontou a responsabilidade do Planalto no seu isolamento. Neste assunto é preciso convir que ele está coberto de razão. Cumpriu-se com sua cassação parte do enredo do golpe que, conforme revelou o senador Romero Jucá nas conversas gravadas por Sergio Machado, incluía o sacrifício de um boi de piranha eleito entre os golpistas envolvidos na Lava Jato.

Este malfadado cidadão chama-se Cunha, que nas mesmas conversas foi considerado um político “morto” por Jucá. É mais um episódio que escancara a farsa do impeachment, que não existiria sem a contribuição do ex-deputado carioca, que depois do trabalho sujo foi descartado pelos líderes do golpe como uma casca de banana. Ele prometeu para breve um livro sobre os bastidores do golpe. Aguardemos.  

O pacote do entreguismo

Na terça, 13, foi anunciado o pacote de concessões e privatizações do governo, com 32 projetos concentrados na área de energia e infraestrutura. Inclui novas regras para concessões de aeroportos, rodovias, ferrovias, campos de petróleo, saneamento e água. Como era de se esperar, em geral as mudanças visam ampliar as facilidades, garantias, altos lucros e privilégios para os grandes capitalistas, em especial o capital estrangeiro, enquanto reduz o papel do Estado a um mero coadjuvante e sustentáculo financeiro dos empreendimentos privados.

O BNDES será de novo transformado um banco da privatização, como na era FHC. É um pacote que nos remete de volta ao entreguismo e às privatizações tucanas, o retrocesso a um projeto neoliberal rejeitado pelo povo brasileiro e derrotado nas urnas em todas as eleições presidenciais realizadas desde 2002.

O fato demonstra o que temos reiterado em nossas análises: o golpe parlamentar que levou o usurpador Michel Temer à Presidência tem como principais objetivos, além de manipular a operação Lava Jato, exterminar direitos da classe trabalhadora e satisfazer os interesses da grande burguesia, dos latifundiários e do imperialismo. Tudo isto transparece com nitidez nas ações, propostas e proclamações do governo biônico, cuja orientação antipopular, antidemocrática e antinacional salta aos olhos.

Ódio e medo a Lula

A quarta-feira, dia 14, foi marcada por um grande espetáculo de pirotecnia, quem sabe o factoide do ano, encenado com dinheiro público por alguns jovens procuradores do Ministério Público Federal (MPF) que denunciaram Lula como o grande comandante dos esquemas de corrupção investigados no Lava Jato.

O show midiático, temperado por uma tosca apresentação em Power Point (feita para impressionar os mais tolos, acabou virando piada na internet) foi transformado em sensacionalista manchete de todos os veículos da mídia burguesa. No entanto, as acusações requentadas contra Lula (associadas a um apartamento no Guarujá, do qual não é dono, e a um sítio em Atibaia, que pertence a um amigo da família) carecem de provas.

“Não temos provas, mas convicções”, confessou o líder da força-tarefa da Lava Jato, Deltan Dellagnol. Ora, como se pode acusar um ex-presidente da República sem provas e com base em convicções ideológicas? O factoide é mais uma evidência de que a celebrada operação Lava Jato, comandada pelo juiz Sergio Moro e a força-tarefa liderada pelo procurador Deltan Dellagnol, integra a conspiração que tem por objetivo colocar um ponto final no ciclo progressista iniciado em 2002 e reestabelecer no país a hegemonia neoliberal, em detrimento dos direitos sociais, da democracia e da soberania nacional.

De imediato, o objetivo reacionário dos golpistas pressupõe inviabilizar a candidatura de Lula à Presidência em 2018. Não basta achincalhar sua imagem. É indispensável transformá-lo em ficha-suja de forma a torna-lo inelegível. Não pouparão esforços neste sentido e nem terão escrúpulos.

Nós seguiremos na resistência, combatendo e denunciando o golpe. Não vamos abandonar as ruas. Dia 22, próxima quinta-feira, as centrais sindicais vão promover unitariamente um Dia Nacional de Paralisações em defesa dos direitos da classe trabalhadora, contra as reformas trabalhista e previdenciária proposta pelo governo golpista. Estaremos esquentando os motores para uma greve geral. Vamos derrotar os golpistas. 

Adilson Araújo, presidente da CTB.