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Sáb, Maio

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Dois sexos, independente da orientação sexual que possuam, é a regra básica de quase todos os seres vivos existentes na natureza. Tirando algumas espécies como bactérias, fungos, etc., para a reprodução ocorrer é necessário que haja um ser masculino e outro feminino. As diferenças morfológicas e as relações entre os dois sexos, entretanto, variam a cada espécie, mas não apresentam diferenças entre casais da mesma espécie. A relação entre casais animais são sempre iguais, independente da cor, da raça ou do continente destes.

Entre os seres humanos, porém, a maneira como o casal se relaciona varia de acordo com a época, o local, a religiosidade, a cultura e outros inúmeros fatores. Podendo, inclusive, o casal ser formado por dois seres do mesmo sexo, já que, entre humanos, a procriação não é o eixo central das relações. Portanto sexo como definição biológica e gênero como definição cultural.

Mas o que diferencia homens e animais?

Para o marxismo, é a capacidade que o homem tem de transformar a natureza. A filósofa Madalena Guasco tem uma belíssima tradução desta sentença: "Imaginem uma cena pré-histórica," diz ela. "Um grupo de hominídeos, sendo perseguidos por um animal feroz. Nisso, um deles encontra caído no chão um grande galho de árvore. Ele pega este galho, e com ele, ameaça o animal, que foge. Neste momento, o hominídeo criou sua primeira ferramenta. O galho deixa de ser galho, e torna-se o pau de matar bicho."

Da transformação da madeira em apetrecho à agricultura, passando pela descoberta da produção do fogo, muito tempo se passou. O que sabemos destes homens primitivos? Muito pouco. E grande parte de nosso conhecimento foi obtido misturando-se a pesquisa histórica, arqueológica e a observação antropológica, em tribos ou povos em estágios de evolução semelhantes. E como eram as relações familiares entre estes nossos antepassados?

Presume-se que nestas sociedades primitivas, a capacidade gestacional conferia às mulheres a condição de seres superiores, uma vez que o ato sexual não era identificado como fator responsável pela reprodução. Estas primeiras sociedades foram chamadas de matrilineares: A descendência era definida em função da origem materna, e, o cuidado com as crianças era responsabilidade do coletivo. As tarefas eram divididas de acordo com a força física.

Quando o ser humano deixa de ser um coletor (que pega da natureza o que precisa), descobre a agricultura e começa a domesticar animais, as relações familiares e sociais também mudam. Com a plantação, surgem as primeiras cercas, delimitando a propriedade. Neste período o homem já entendia que a geração de novos seres dependia não só da mulher, mas do casal. E ao acumular terra e animais, preocupou-se em transmitir sua herança a quem possuísse laços consangüíneos, ou seja, seus filhos. Daí a monogamia.

No Egito antigo a família tinha organização patriarcal, com participação de mulheres na religião e política, dependendo de sua classe social. Durante a história deste povo, homens e mulheres governaram, e havia divindades de ambos os sexos com os mesmos poderes e qualidades.

Já na Grécia, conhecida como a origem da democracia as mulheres não possuíam direito à cidadania. Ficava ao seu cargo a manutenção do lar, o cuidado com os filhos e com os não produtivos (velhos, enfermos, incapacitados). A elas era reservada uma peça da casa chamada gineceu, onde habitavam mulheres, crianças e criados, sendo vetado seu trânsito nas outras dependências, exceto para manutenção e organização. Meninos eram separados das mulheres a partir da idade de treinamento militar, aos sete anos (Esparta), ou adolescência (outras cidades-estado gregas). Também o acesso a atividades como filosofia, política e artes eram proibidas às mulheres.

No Império romano A instituição do paterfamilias garantia ao homem poder absoluto sobre as mulheres, filhos e escravos, inclusive de vida e morte. Política, artes, participação na vida pública eram proibidas para mulheres, que também não tinham direito à propriedade.

Durante a idade média as mulheres possuíam direito à propriedade, podiam assumir a chefia de família em caso de viuvez. Em 1404 a escritora francesa Cristine de Pizan (1364/1430) lança o livro "A Cidade das Mulheres", onde defende uma educação igual para ambos os sexos. Cristine é considerada uma das primeiras feministas, por sua defesa da igualdade entre homens e mulheres. Há registros de mulheres que estudaram nas universidades da época.

Durante o primeiro milênio a convivência várias culturas permitiu que as mulheres tivessem acesso a vários ofícios e gozassem de relativa liberdade. O fortalecimento da doutrina católica, porém, com regras de conduta inflexíveis, constrói o paralelo entre a mulher, o pecado original, e o exercício da sexualidade como fonte do pecado. O envio de muitos homens para as cruzadas fez com que as mulheres passassem a gerenciar as comunidades, exercendo todo tipo de tarefas necessárias á manutenção das condições de vida.

A formação dos primeiros estados nacionais, marcados pelo mercantilismo, a volta dos homens, e a necessidade destes retomarem seus postos de trabalho e ofício, mais a moralidade religiosa, a retomada do Direito Romano (em substituição do Direito Germânico) marcam o recrudescimento da opressão da mulher na sociedade ocidental e o início da caça às bruxas. O acesso a universidade é vetado, as mulheres perdem grande parte dos direitos civis, como propriedade e herança. O universo profissional é restrito às profissões que reproduzem o caráter de cuidadora: professora, enfermeira, ou de serviços relativos à alimentação, limpeza, cuidados com os não-produtivos (crianças, enfermos, idosos). Este movimento coincide com o retorno dos homens das Cruzadas, com o início do Renascimento, com a valorização do trabalho enquanto status social e com o início da inquisição, movimento iniciado no século XIV e dirigido pela Igreja.

O Iluminismo, a partir do século XVIII, dá início a um movimento de valorização da intelec­tua­lidade feminina. Duas educadoras, Mary Mon­tagu e a Marquesa de Condorcet , destacam-se neste período, com textos e idéias pró-defesa do direito da mulher à educação. Em 1785, em Middelburgo (Países Baixos), é fundada a primeira Sociedade Científica para Mulheres. As universidades permitem o ingresso de mulheres em alguns cursos, vetando os de maior status, como medicina e direito.

A revolução industrial e o desenvolvimento do capitalismo trazem uma nova realidade às mulheres. Ao desenhar novas possibilidades e relações de trabalho, traz também uma nova forma de opressão e exploração. O contrato de compra de mão-de-obra era feito com os homens chefes de família, e dizia respeito ao cumprimento de metas. Era usual que homens levassem os filhos, mesmo crianças, e mulheres para garantir o cumprimento das tarefas. E era o homem quem recebia o pagamento, tornando invisível a participação de menores e mulheres neste mercado de trabalho.

Neste período situaríamos, em 8 de março de 1857 o suposto massacre das 129 mulheres (ou ainda 300 mulheres) numa fábrica de tecidos, na Filadélfia. Na verdade, não existem registros deste episódio, nesta data. O que existe são registros de outros episódios.  O primeiro foi uma longa greve de costureiras, em Nova Iorque, de novembro de 1909 a fevereiro de 1910, O segundo, um incêndio em uma fábrica têxtil, também em Nova Iorque, em 25 de março de 1911, onde morreram 129 trabalhadores, em sua maioria mulheres. O terceiro, ocorrido na Rússia pré-revolucionária em 23 de fevereiro pelo calendário russo (no calendário ocidental, corresponde a 8 de março). Nesta data explodiu a greve das tecelãs e costureiras de Petrogrado. Segundo Reneé Côte, escritora canadense que pesquisou por mais de 10 anos a data 8 de março, Foi a confusão entre estas três datas e fatos que levou a proposição desta data como o dia internacional da mulher, proposto pela primeira vez em 1921 Moscou, URSS, na I Conferência das Mulheres Comunistas.

Com o surgimento dos primeiros partidos populares as mulheres encontram espaço para iniciar movimentos reivindicatórios, como o direito ao voto. Esta ligação fez com que o surgimento dos primeiros movimentos feministas estivesse vinculado aos partidos políticos. Conseqüência direta destes movimentos e da participação de mulheres na revolução francesa: casamento civil e divórcio, contrariando frontalmente o clero e a opressão ocidental-cristã da igreja católica. Surge "Em Defesa dos Direitos da Mulher", de Mary Wollstonecraft, com a defesa da idéia de que a opressão e a discriminação da mulher são causadas por homens e mulheres que reproduzem os preconceitos adquiridos na educação. Mary defendia ainda que, como as mulheres tinham "direito" à guilhotina, deveriam ter também o direito ao voto. Recebeu o direito à guilhotina.

A primeira convenção dos direitos da mulher data de 1848, em Sêneca Falls, Nova Iorque. O aumento do número de mulheres no mercado de trabalho trouxe também o aumento da exploração: as diferenças salariais eram justificadas pelo fato de que as mulheres "tinham quem as sustentasse", os melhores postos eram destinados aos homens, as mulheres eram as primeiras demitidas. Inicia-se aí o entendimento de que a luta das mulheres está inserida num contexto de classes, fortalecendo a visão socialista da opressão da mulher como parte da luta pelo fim da exploração e da opressão.

A primeira guerra mundial encontra as primeiras lutadoras da causa feminista ainda envolvidas com questões como o direito ao voto, ao estudo e ao ingresso no mercado formal de trabalho. O chamamento das mulheres para ocupar cargos vagos no mercado de trabalho, apesar de ainda tímido, produz uma nova consciência, e durante a década de 30, praticamente em todos os países ocidentais voto, estudo e trabalho são consolidados como direitos femininos.

Notadamente nos países envolvidos no conflito, o início da segunda guerra mundial coincide com um período de intenso chamamento das mulheres ao mercado de trabalho, para suprir as vagas dos homens que estavam no front. A oferta de equipamentos que permitissem à mulher acumular tarefas domésticas, cuidado com os filhos e trabalho intensificou-se. Assim popularizam-se creches, eletrodomésticos, lavanderias. A mulher qualifica-se para garantir a produção. Data desta fase as campanhas pela substituição do aleitamento materno por leite animal.

É interessante estabelecer uma relação entre conjuntura, moda e cinema desta época. Longos colares, echarpes, saias rodadas são trocadas por figurinos de inspiração masculina. Os saltos descem, as saias ajustam-se, casacos ganham ombreiras. É a masculinização da figura feminina, condizente com a ocupação dos espaços "masculinos". No cinema, as heroínas são fortes, decididas, estereotipando força e poder decisivos como qualidades ou prerrogativas dos homens.

No fim da guerra, a volta dos homens ao mercado de trabalho exigia o retorno das mulheres ao "lar". Amplas campanhas de valorização da "feminilidade", a volta da definição incisiva de papéis e divisão de tarefas por sexo. A maternidade volta a ser estimulada, e a disputa pela hegemonia mundial entre o bloco capitalista e o bloco soviético tentava transformar quaisquer reivindicações das mulheres em suspeitas de "comunismo". É desta época o livro "Meu filho, Meu tesouro", do Dr. Spock, médico americano que condicio­nava a saúde física e emocional dos filhos à permanência ao lado da mãe, no mínimo até os sete anos de idade. A moda volta a ser glamour, o cinema explora a imagem da mulher ingênua e sensual, mas nada inteligente. Se durante a guerra a mulher devia ser razão, agora seria puramente instinto. Sexual e maternal, bem entendido. Marilyn Monroe representa bem esta época, com sua beleza, sensualidade e triste final.

Já na década de 60, o movimento, influenciado por publicações como O Segundo Sexo de 1949, (Simone de Beauvoir) passa a defender que a hierarquia entre os sexos não é uma fatalidade biológica e sim uma construção social. Para além da luta pela igualdade de direitos, incorpora o questio­namento das raízes culturais das desigualdades. Numa década de efervescência política e cultural, a luta das mulheres contribuiu, e muito, para a quebra de padrões que tornou possível a mudança de comportamentos e a transformação de valores.

O surgimento dos anticoncepcionais deu outro impulso à emancipação da mulher. A partir do controle da contracepção, ela começa a exercer sua sexualidade independente do casamento, algo impensável para os padrões até então vigentes.

Para Karl Marx "a ideologia da classe dominada é a ideologia da classe dominante, imposta através de seus meios de produção de ideologia". E os partidos, formados por pessoas criadas e educadas numa sociedade patriarcal, não teriam como desenvolver uma teoria feminista emancipacionista, a não ser pela contribuição das mulheres. Neste período surge o feminismo sexista radical, originado pelas disputas internas nos partidos de esquerda.

 A contribuição destas primeiras feministas, com toda a radicalidade que se fez necessária para chocar e promover o debate sobre a opressão da mulher pode bem ser sintetizada pela queima de sutiãs em praças, na chamada "nosso corpo nos pertence", na luta pela legalização do aborto. Obviamente a mídia não deixou barato: até hoje, a feminista é retratada como a caricatura de uma mulher masculinizada, desleixada, insensível e fria. Reação previsível de uma sociedade onde o padrão dominante é masculino, branco e rico.

Outra batalha travada pelo movimento de mulheres desde então é localizada na publicidade, onde o abuso da exposição do corpo feminino para a venda de produtos, ou a associação da mulher a conceitos como docilidade, subserviência, ignorância têm sido combatidos, e em alguns raros  casos, normatizado.

Hoje a luta das mulheres é diversa, dependendo da cultura da conjuntura e das condições sócio-políticas de cada país ou região. No ocidente, passa pela igualdade de condições de oportunidades, trabalho e salário, pelo fim da violência doméstica. Em lugares onde ainda não existem leis a respeito, pelo direito ao aborto e por políticas de cotas em instâncias diretivas. No oriente médio, apesar da diferença de tratamentos a que são submetidas, a principal reivindicação das mulheres é a paz, já que os conflitos armados são a maior fonte de opressão. No continente africano dominado pela miséria, pela AIDS, a luta contra a violência sexual, o estupro e a fome. 

Quanto ao lilás ser a cor do feminismo, diz-se por ser ele a combinação do azul com o rosa. O roxo foi historicamente a cor da nobreza, e já havia sido usado por feministas da Inglaterra.  E havia também a questão de classe: feministas burguesas não usariam o vermelho, cor das bandeiras socialistas.

Por fim, para entendermos o papel da mulher em uma sociedade, temos que conhecer a organização social, política e cultural desta sociedade. No mundo atual, dominado pelo capitalismo, as relações de gênero sofrem, além da opressão própria, a opressão de classe social. Assim, a mulher rica sofre opressão por ser mulher, mas enquanto classe  oprime a outros homens e mulheres. Por isto diz a feminista histórica Jussara Cony: "Não basta ser mulher, tem que ter lado. Porque o inimigo não é o homem; é o capital. Com o homem, nos cabe a luta conjunta por um mundo melhor, igualitário, justo, sem exploração. E sem machismos."
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