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Ter, Jul

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Prepare o seu coração porque os relatos que vêm a seguir chocam qualquer pessoa com o mínimo de sentimento humano. Duas mulheres contam o terror sexual a que foram submetidas em um banco da capital paulista.

Atendendo a pedidos das vítimas, elas ganham nomes fictícios. Uma será denominada Marina e a outra Cristina. Tudo para preservar a idoneidade dessas duas trabalhadoras já abaladas pelo ambiente de terrorismo a que foram submetidas.

As denunciantes já registraram Boletim de Ocorrência contra o gerente-geral agressor, que foi demitido por justa causa pela instituição financeira após pressão feita pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo.

Os fatos relatados a seguir bem poderiam ser o roteiro de um filme de terror, daqueles que arrepiam até o último fio de cabelo. Ou um desses seriados norte-americanos tipo “Lei e Ordem”. Mas é a pura realidade e do Brasil.

“Pelo amor de Deus, nem fala comigo”, dizia Marina assim que o agressor chegava perto e iniciava os ataques. “A pressão era tanta que fui afastada para tratamento psicológico, vivendo à base de calmantes tarja preta”, complementa.

Já Cristina, que é terceirizada, conta que viveu o pior momento de sua vida quando “esse monstro me atacou no refeitório da agência”, reclama. “Sabe, na presença de outro gerente ele me pegou pelos braços me encostou na parede e tentou me beijar à força, por sorte consegui escapar e me tranquei no banheiro e só chorei apavorada”.

Ela diz também que se sentiu totalmente desamparada. “Mesmo depois de termos feito BO e o cara ter sido demitido, ninguém perguntou como eu me sentia, se estava bem. Sou terceirizada, mas sou ser humano, tenho sentimentos também”, fala.

Eu mando

Mas isso é só o começo. Marina conta que o algoz vivia dizendo que ele era GG e que por isso podia fazer o que quisesse. “Muitas vezes eu era obrigada a ficar trancada no carro, dentro do estacionamento da agência e ele ficava socando o carro e gritando para eu abrir, parecia um animal”.

basta de violencia

Ela afirma que suportou essas agressões por mais de 2 anos porque tinha medo de perder o emprego e de que um escândalo desses pudesse piorar ainda mais a sua vida. Porque “na maioria das vezes sobra para a mulher, como se atiçássemos esses tarados”.

Ela relata que hoje entende “porque as mulheres não denunciam. É um julgamento muito grande, que abala a estrutura de qualquer um. Todo munda acha que isso acontece porque nós provocamos”, diz.

As duas mencionam que outras três trabalhadoras também passaram por esse terror. “Uma conseguiu transferência para outra cidade porque ela vivia num estado de nervos que já não dava mais para aguentar”, conta Marina.

“Toda vez que ele começava a passar a mão nela, perguntava sobre a mãe dela e dizia que ela sofreria muito se a mãe morresse. Então ela só chorava. Só foi transferida quando os patrões perceberam que ela acabaria fazendo alguma besteira, porque não dava mais”.

“Mas ela só conseguiu a transferência no momento em que gritou na frente de todo mundo, inclusive de clientes, para o gerente-geral que ia denunciá-lo. Ela vivia uma pilha e estourou”, conta Cristina.

Ninguém deu bola

Perguntadas sobre as outras vítimas, Cristina diz que elas preferem não se manifestar neste momento com medo da exposição e de perderem o emprego. “Mas todas ficamos aliviadas com a demissão desse monstro”.

“A minha vida virou um inferno. Vivia estressada, parecia uma neurótica. Não conseguia dormir à noite, tentando procurar respostas para tudo isso. Passei a ter problemas de hipertensão, a sofrer desmaios e vivia com o nariz sangrando”, relata Marina.

A vítima conta também que, apavorada, mandou e-mail para o departamento competente da instituição pedindo socorro”. E como não teve nenhuma resposta, ela gravou alguns ataques em celulares para comprovar o terror ao qual eram submetidas.

“Não gosto do que você faz”, ela conta que dizia ao algoz, que ignorava. Segundo Marina, quando ela falava firme com o agressor, “ele dizia que todas nós gostamos de um chefe assim carinhoso e que tudo tinha que ser do jeito dele, pois ele era o chefe”.

Ela conta também que “ele passava a mão na bunda da gente, dava tapas e insinuava ameaças á familiares. Tinha momentos que chamava a funcionária e ficava dando tapas na vagina enquanto passava tarefas”.

As duas dizem que, para as outras trabalhadoras, o gerente-geral vivia mandando vídeos pornográficos no WhatsApp de madrugada e escrevia: “é isso que eu vou fazer com você. Aprecie bem e se prepare”.

Marina relata também que de tão nervosa “acabava descontando em familiares e todo dia tinha briga em casa e ninguém entendia o porquê”. Para ela, esses dois anos foram os piores de sua vida. “Nunca pensei que viveria uma provação dessas”, lamenta.

Ela reforça ainda que vivia tentando mudar de emprego, de agência. “Mandava currículos, fazia denúncias por telefone, mas sempre que havia uma possibilidade de transferência, ele barrava com o argumento de que eu não era boa funcionária”.

Medo de quê?

“Você está com medo de quê?”, perguntava o agressor à Cristina e ele mesmo respondia para ela não se preocupar com nada, pois “eu é que mando aqui”. De acordo com ela “violências desse tipo abalam toda a estrutura de uma mulher”.

“O que me deixava ainda mais apavorada é que ninguém fazia nada. Chegaram a me dizer que não tinham nada a ver com quem ele come ou deixa de comer”, reclama Cristina. “Nessas situações parece que não somos nada”.

Cristina aos prantos diz que “você ser agredida sexualmente, como fomos, mexe com tudo. A gente passa a se sentir um lixo, sem ter nem lixão para ser jogada”. Ela conta também que após o gerente-geral ser demitido, a instituição disse não ter nada a ver com o caso dela por ela se terceirizada.

“Depois da tentativa de estupro que a Cristina sofreu, dissemos que precisávamos fazer alguma coisa, então fomos pedir socorro ao sindicato. Foi quando começamos a enxergar uma luz”, conta Marina. “Foi graças ao sindicato que esse monstro foi para o olho da rua”.

De acordo com ela, “resolvemos contar toda essa história para que todas as mulheres saibam que têm a quem recorrer. Não fiquem aguentando esses sujeitos, com medo de se expor. Eu perdi quase 3 anos de minha vida com medo, agora chega”.

CTB apoia denunciantes

mulher de coragem

A secretária da Mulher Trabalhadora da CTB, Ivânia Pereira, que também é presidenta do Sindicato dos Bancários de Sergipe, disse que “existe na negociação com os banqueiros um item específico sobre assédio moral, porque isso é muito comum acontecer no setor financeiro”.

De acordo com Ivânia, “é muito importante ressaltar a coragem dessas mulheres levar adiante essa denúncia”. Segundo ela, fatos como esses são corriqueiros no mundo do trabalho, por causa da “certeza da impunidade”.

“Denúncias desse porte podem chocar inicialmente, mas trazem à tona e para a mesa de discussão com os patrões com objetivo de acabar com esse tipo de agressão às mulheres”, afirma.

Edson Oliveira, integrante do Núcleo da CTB no Sindicato dos Bancários de São Paulo, acompanha as denunciantes desde que o fato chegou ao sindicato, e as trouxe à Redação do Portal CTB para “denunciarmos esse tipo de atrocidade contra trabalhadoras de instituições financeiras”.

Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB

Serviço:

Mulheres em situação de vulnerabilidade podem recorrer ao Disque 180, a denúncia pode ser feita anonimamente. Também podem recorrer à Delegacia da Mulher mais próxima e já foram inauguradas Casas da Mulher Brasileira, que reúnem todo tipo de serviço para vítimas de violências. Também pode ser usado o Disque 100, que atende denúncias de violações dos Direitos Humanos.

Assédio Sexual é crime (art. 216-A, do Código Penal, com redação dada pela Lei nº 10.224, de 15 de maio de 1991).

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