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Antigamente se dizia “Homem” (com H maiúsculo), de forma a representar todas as pessoas, e assim se incluía a mulher. Até que ela não se sentiu mais representada por esse mecanismo de opressão operado pela linguagem.

Hoje são companheiras e companheiros, senhoras e senhores, mulheres e homens; diria Riachão “cada macaco no seu galho”. De fato, o feminismo trouxe transformações significativas na sociedade, com o voto das mulheres, a entrada no mercado de trabalho, o uso de anticoncepcionais etc. Mas o macho é forte, ou ao menos se autoimagina sê-lo, e procura manter-se macho em detrimento de todas as mudanças que os tempos impuseram.

Bom seria se falássemos em “coisa de Homem” e incluíssemos o homem incapaz de operar a opressão da tortura, da violência gratuita por não suportar a felicidade alheia, manifesta no amor de dois homens; na beleza da negritude; enfim, no direito de cada ser vivente expressar sua singularidade na mais alta radicalidade, sem, com isso, afrontar a moral alheia.

Mas, francamente, é pedir demais para uma humanidade tão tacanha. Que elege estupradores. Que põe a propriedade privada à frente do humano direito à moradia e da humana dignidade para justificar friamente um caso Pinheirinho, dentre tantos outros. Só mesmo dizendo Homem para justificar o cinismo daqueles inconformados com a corrupção, não em si mesma, mas a efetuada pela outra quadrilha. Como bem definiu Getúlio, “aos amigos, tudo, aos inimigos, a lei”.

Se despir de tal machismo anacrônico, com o perdão do eufemismo, requer outro paradigma de formação do ser vivente, e cabe ao Estado fazer sua parte sob a forma de uma educação pública de qualidade; de propiciar mecanismos de politização da sociedade; de ofertar cultura à guisa de formação (durante todo o ano e não apenas na farsesca “Virada Cultural”) etc.

Ou seja, trata-se da necessidade de gestar um novo homem e, por que não, uma nova mulher, mas para isso é preciso encarar transformações em setores no qual o velho é um empecilho, como a democratização da mídia e dos poderes legislativo e judiciário, de uma reforma tributária que possibilite menos desigualdade social e dinheiro para o Estado investir em cidadãos.

Como a ecologia nos mostra, os sistemas estão todos ligados e, assim como a alteração em um deles reflete nos demais, as transformações precisam se dar em todos os níveis para, quem sabe um dia, sairmos da pré-história e, aí sim, podermos bater no peito peludo ou depilado e cantar, parodiando Ney Matogrosso, “ai papai aqui estou eu/papai aqui estou eu/sou Homem com H/e como sou”.


Maurício Baraças é músico, compositor e colaborador do Portal CTB