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Seg, Set

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“Não tem televisão naquela casa.” Era a piada que se fazia antigamente quando o casal tinha um filho atrás do outro. Falta de TV para distrair no sábado à noite, o casal ia lá e pimba – lá vem mais um bebê.

Hoje toda casa tem TV. E a fertilidade vem caindo. Mas no mundo todo as mulheres pobres continuam tendo muito mais filho que as mulheres ricas. Por quê?

No Brasil, não sabemos. Nos Estados Unidos, agora eles sabem. Uma pesquisa do Brookings Institute acompanhou durante um bom tempo 3.885 mulheres que não tinham plano de engravidar. Conclusão: mulheres pobres têm cinco vezes mais chance do que as ricas de ter um filho sem ter planejado.

O que isso tem a ver com a vida sexual de umas e outras? Essa é uma boa surpresa da pesquisa: nada. As classes abastadas e as apertadas se comportam da mesma maneira na cama. Ricaças e remediadas transam mais ou menos o mesmo número de vezes por mês.

Número de parceiros diferentes também não tem a ver com a conta bancária. E a mulher americana média tem uma vida sexual ativa por dez anos antes de se casar. Também nisso classes A e E se assemelham.

O que varia loucamente entre ricas e pobres? Adivinha: dinheiro. É a capacidade financeira de evitar a gravidez. Por exemplo: a taxa de gravidez entre as mulheres que usam DIU é 0,08%. Camisinha é 12%. Camisinha é barato. DIU custa mil dólares para mais nos EUA.

Uma conclusão cruel do instituto Brookings: a desigualdade começa antes do nascimento. Se sua mãe é rica e você é filho único, terá muito mais oportunidades na vida do que se fôr um de quatro irmãos de uma mãe pobre.

Por isso este é um problema que vai além da vida particular de cada um, das escolhas de cada indivíduo. Tem um impacto social brutal. Econômico também, para o país como um todo. Se de um lado falta dinheiro para as mulheres pobres evitarem a gravidez, custa bastante para o governo lidar com tanta criança indesejada. São 21 bilhões de dólares anuais do contribuinte americano gastos com isso.

Os números da pesquisa gritam. Quantas mulheres pobres tiveram uma gravidez no último ano? Nove por cento. Ricas? Três por cento. E quantas crianças nasceram? As mulheres ricas fizeram mais abortos: 32% abortaram propositalmente no último ano, contra só 9% entre as mais pobres. O aborto nos EUA é lei. Mas a aplicação desta lei e a disponibilidade do procedimento depende de legislação local. E o custo também varia, claro.

E no Brasil? A diferença entre mulheres ricas e pobres deve ser infinitamente maior, considerando que o aborto aqui é criminalizado. Outro dia mesmo um médico denunciou à polícia uma moça que tinha feito um aborto. No Brasil quem tem dinheiro faz aborto com todo conforto e segurança, com ótimos médicos em clínicas confortáveis. Quem depende do SUS que corra da polícia.

É essa diferença entre classes que o novo projeto de lei do deputado Jean Wyllys pretende enfrentar. O PL 882/15 prevê a legalização do aborto até 12 semanas de gravidez, se a mulher assim o quiser.

O projeto será muito debatido. É bom que seja mesmo. Mas vamos desde já desqualificar as críticas cretinas. Ainda é muito comum comentários do tipo "essa mulherada fica tendo um filho atrás do outro pra ganhar Bolsa-Família." É preconceito de classe e é estupidez, nos EUA e no Brasil.

Talvez o deputado do PSOL não saiba desta pesquisa, que demonstra que a vida sexual das americanas e pobres é igual. Te empresto o argumento, Jean. Como o Brasil adora se espelhar nos Estados Unidos, pode ser um cala-boca nos críticos mais truculentos.

Conheço (e discordo) de gente ótima que é contra a legalização do aborto no Brasil. Mas aqui nem discuto o aborto em si. O problema é maior e começa bem antes. Com a diferença de tratamento entre classes, nos EUA, aqui, em qualquer lugar. É uma praga a ser combatida em todas as frentes.

Passou a hora de mudar a lei e corrigir essa injustiça. A mulher que engravida sem planejar e decide ter a criança, que tenha. E quem decidir pelo aborto, que possa fazer isso com segurança, sem risco para sua saúde. Sendo rica ou pobre.

André Forastieri é jornalista


Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.