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Às vésperas de celebrar os 70 anos da Federação Sindical Mundial (FSM), em atividade a ser realizada na cidade de São Paulo, uma pergunta tem sido recorrente por parte da delegação internacional que participará do evento: “o que está acontecendo com o Brasil?”

O questionamento tem todo sentido. Afinal, durante os últimos anos o Brasil vinha sendo retratado pela mídia internacional como a bola da vez, o país que menos havia sentido os efeitos da crise econômica internacional, a nação que passou a priorizar o social e conseguiu tirar da miséria milhões de habitantes, o anfitrião dos maiores eventos esportivos do planeta (Copa do Mundo de Futebol em 2014 e Jogos Olímpicos em 2016).

Contudo, desde o final do ano passado essa imagem próspera foi substituída sem maiores explicações para o público internacional. No lugar, apareceram as crises política e econômica, alçadas a uma condição de catástrofe sem precedentes. De repente, sob a lente da imprensa internacional (a quem os principais grupos midiáticos do Brasil estão alinhados ideologicamente), todos os avanços obtidos durante os últimos 12 anos desapareceram. “O que mudou no Brasil nos últimos meses?”, passaram a perguntar gregos, chineses, cubanos, portugueses, egípcios, chilenos, indianos e outros camaradas que estarão em solo brasileiro entre os dias 1º e 3 de outubro.

É justo que as delegações que estão por vir ao Brasil recebam uma análise com diferente viés sobre nossa conjuntura atual. Abaixo seguem cinco fatos importantes para que todos compreendam a disputa que vem se travando no país ao longo dos últimos meses:

1. Dilma reeleita
A reeleição da presidenta Dilma Rousseff não foi bem aceita pela elite econômica do Brasil. Desde o dia seguinte à oficialização da vitória, iniciou-se no país um movimento que se transformou em um “terceiro turno”, cujo resultado final ainda está longe de acabar. Imprensa, entidades empresariais, parte do sindicalismo e setores de extrema-direita se articularam com eficiência, de modo a mobilizar milhões de pessoas em manifestações com o objetivo de destituir Dilma do poder. O governo, com dificuldades e baseado no apoio de forças populares, tem conseguido se posicionar contra o golpe e a favor da democracia.

2. Erros do governo
Existe um movimento golpista no país, mas é inegável que o governo liderado por Dilma Rousseff cometeu equívocos. Houve escolhas erradas na condução da política econômica, com consequências que afetam diretamente a classe trabalhadora (a taxa de juros nacional foi ampliada por sete vezes consecutivas nos últimos meses). Se no início da crise internacional, em 2008, o país foi capaz de driblar seus efeitos, desta vez tornou-se impossível ficar alheio aos resultados desfavoráveis da União Europeia, dos Estados Unidos e até mesmo da China.

3. Crise política
Apesar dos problemas econômicos, a abrangência da crise em que o Brasil se encontra só pode ser plenamente explicada pelo viés político. Com a reeleição de Dilma, a direita brasileira decidiu alterar sua estratégia e passou a exercer uma oposição com características irresponsáveis e golpistas, reforçada pela eleição do Congresso Nacional mais conservador das últimas décadas. A saída de Dilma Rousseff passou a ser uma bandeira de luta dos setores mais reacionários. Seu objetivo, mais do que reassumir de imediato o poder, é atingir toda a base de sustentação ao atual governo e impedir que o projeto democrático-popular iniciado por Lula em 2003 obtenha uma nova vitória em 2018.

4. Importância do pré-sal
O contexto geopolítico no qual o Brasil se insere também deve ser destacado. Com a descoberta do pré-sal, que hoje já uma realidade (492 mil barris de petróleo por dia), Lula e Dilma reforçaram o papel estratégico da Petrobras, contrariando os interesses das grandes corporações do ramo da energia e de nações como os Estados Unidos. A oposição no Brasil já deixou claro que, sob sua influência, a exploração dessa riqueza seria feita por um modelo diferente.

5. O papel do Brasil no mundo
Desde a chegada de Lula à Presidência, o Brasil deixou para trás sua tradicional política de subserviência aos interesses do imperialismo norte-americano. Nesses últimos 12 anos, o país liderou o processo de integração latino-americana e aprofundou suas relações com a China e o continente africano, estabelecendo as bases da chamada política “Sul-Sul”, além de criar as condições para a formação do BRICS (bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). A oposição no Brasil, alinhada aos interesses dos EUA, age no sentido de pôr fim a tais avanços e restabelecer as condições prévias do xadrez geopolítico mundial.

Feita essa pequena lista de esclarecimentos, é hora de estender o tapete vermelho para receber todas as delegações que participarão do Simpósio de 70 anos da FSM. Vida longa à nossa Federação! E que todos sejam bem-vindos ao Brasil!

Francisco Sousa e Silva é secretário-geral da União Internacional Sindical de Metalúrgicos e Mineiros (UIS MM) e secretário de Relações Internacionais da Federação Interestadual de Metalúrgicos e Metalúrgicas do Brasil (Fitmetal).