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Qui, Dez

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O texto abaixo apresenta reflexão inicial no primeiro módulo da Disciplina “Comunicação no Mundo Trabalho: Recepção e Mediações”, da Escola de Comunicação de Artes, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Da Comunicação (PPGCOM), ministrada pelo Profª. Drª. Roseli Fígaro, entre os dias 06 de Agosto e 10 de Setembro.

 

A CENTRALIDADE DO TRABALHO, O PAPEL DA COMUNICAÇÃO E O “TECHNOLOGY WAY OF LIFE”

 

A evolução social e a arquitetura do movimento histórico são categorias fundamentais para construirmos conhecimento e de maneira objetiva entender o processo de produção e reprodução cultural, material e social.

 Grosso modo, a sentença acima foi colocada desde o início – a exemplo do primeiro dia de aula - dos trabalhos do primeiro módulo da disciplina da “Comunicação no Mundo Trabalho: Recepção e Mediações” e deixa claro quais as premissas básicas o entendimento dos conceitos a seguir. A partir dela, podemos mensurar qual o peso da “Comunicação” e a influência desta categoria na construção da centralidade de uma esfera maior: o Trabalho.

Trabalho sendo entendido aqui nos termos de Marx (2013) como categoria ontológica fundamental da existência humana, atividade afirmadora da vida, que forma a existência dos indivíduos e instaura-lhe um caráter social. É no Trabalho que efetua a diferenciação humana ante os demais seres vivos, a realização do próprio homem. E é ele a fonte de toda riqueza e bem material. E mais, no centro da discussão a ideia de Trabalho como uma categoria que extrapola a relação Trabalho/Salário.

E neste processo de definição da essência humana e diferenciação, a Comunicação torna-se peça fundamental em todo o processo. De forma ampla e com base no referencial em análise, pode-se estabelecer que a Comunicação atua como agente a troca de informações, de modos de vida, de ideologias e de cultura que potencializam e/ou transformam a atividade humana e por consequência o Trabalho.

A duas categorias localizadas acima ganham, ainda mais relevância quando a relacionamos com o processo de revolução tecnológica vivido em todo o mundo. A relação tempo e espaço ganham novas formas, ainda mais complexas que as trabalhadas com Marx (2013) quando do estudo da relação produção/transporte de mercadorias. Tal revolução não imprimiu somente um termo, a saber, Revolução 4.0, ela pavimenta o caminho para outros, tais como: homem empresa, rotatividade, autonomia, diversidade, pluralidade, empreendedorismo, flexibilização, trabalho eficiente, trabalho eficaz, rendimento, moderno, obsolescência programada, home office, polivalência, produtividade, rentabilidade, mérito, autogestão, faça você mesmo, cidadania, sustentabilidade, inclusão, democracia, liberdade, entre muitos outros. Termos que ganham espaço nos debates acadêmicos e em nosso cotidiano e, de forma sutil ou não, modelam formas sociais de vida e de crença.

Para Antunes (2018, p. 64) esse movimento tem como foco garantir a atuação de quem domina esse processo sobre uma sociedade ampla, em constante transformação, de amplitude imensurável e que precisa estar alinhada aos processos de produção vigentes. Nesse sentido, a Comunicação, seja como forma, meio ou conteúdo, ganha papel central no processo de legitimação e validade do sistema social vigente.

HEGEMONIA CULTURAL A SERVIÇO DO CAPITAL

É interessante pontuar que, neste processo de legitimação cultural, uma ação - pontuada em todos os textos com diferentes gradações e exemplos - ganha extremo valor: a expropriação do valor do Trabalho, a destruição da ideia de pertencimento, a alienação do próprio Trabalho.

 

A expropriação de trabalho é o ato de violência no centro dessa relação e é o tempo de trabalho dos trabalhadores que constitui o âmago da luta que ocorre aí, de maneira que um entendimento de como e sob quais circunstâncias essa expropriação se realiza é crucial para a compreensão tanto do capitalismo como um sistema quanto para o entendimento de quais trabalhadores podem ser consideramos pertencentes à classe trabalhadora. (HUWS, 2017, 322).

 

Além disso, outro ferramental utilizado para garantir o pleno funcionamento do sistema e a construção de um discurso - o qual está baseado em uma longa lista de termos (alguns já citados acima) que referendam uma visão de mundo e legitimam a cultura vigente -, é a tecnologia. Sua própria natureza – ideia de mudança constante, atualização, conectividade - vira trilha no grande musical que aqui iremos chamar de “Technology way of life”.

 Com isso, ser moderno torna-se condição para compor a engrenagem do sistema. Não há mais espaço para o coração, somente para parafusos e fluídos. Dito de outra forma, a ideia de “homem empresa”, problematizada por Dardot e Laval (2017) e que reflete bem essa etapa social, dita uma conduta social que mascara as relações brutais estabelecidas no interior do sistema.

 Os autores ainda destacam que junto com a concepção de homem empresa floresce a ideia de um “mercado concebido como um processo de autoformação do sujeito econômico, um processo subjetivo autoregulador e autodisciplinador, pelo qual o indivíduo aprende a se conduzir. O processo de mercado constrói seu próprio sujeito. Ele é autoconstrutivo” (DARDOT E LAVAL, 2017, p. 140).

O mundo da vida é tomado por uma concepção de que só o que é moderno é bom. O que nos faz lembrar da reflexão apresentada por Marx (2018) em seus escritos publicados no Grundrisse: no mundo moderno que emergia com o avanço da indústria e com a complexidade da relação Capital/Trabalho, bem como as relações pessoais entre os homens e mulheres, emanam das relações de produção e de troca.

As transformações que se estruturam no Mundo do Trabalho e influenciam homens e mulheres que nele se organizam são bem pontuadas por Antunes ao esquadrinhar as condições de vida do que o autor chamou de classe-que-vive-do-trabalho[1]. Antunes define como classe-que-vive-do-trabalho homens e mulheres, produtivos e improdutivos, desprovidos e desprovidas dos meios de produção e que sofrem coação, d qualquer forma, para vender sua força de trabalho no campo e na cidade em troca de salário (ANTUNES, 2013).

Em texto recente, o autor aprofunda sua análise sobre a nova morfologia da classe trabalhadora, seus avanços e recuos e sua localização no interior do sistema vigente.

 

Essa nova morfologia compreende não só operariado herdeiro da era taylorista e fordista (...), mas deve incluir também os novos proletários precarizado de serviços[2], parte integrante e crescente da classe-que-vive-do-trabalho.

(...)

... a classe trabalhadora, em sua nova morfologia, participa cada vez mais do processo de valorização do capital e da geração de mais-valor nas cadeias produtivas globais. As formas de intensificação do trabalho, a burla dos direitos, a superexploração, a vivência entre a formalidade e informalidade, a exigência de metas, a rotinização do trabalho, o despotismo dos chefes, coordenadores e supervisores, os salários degradantes, os trabalhos intermitentes, os assédios, os adoecimentos, padecimentos e mortes decorrentes das condições de trabalho indicam o claro processo [condição] vivido hoje... (ANTUNES, 2018, p. 64).

 

Tanto Antunes (2018, p. 62) como Huws (2017, p. 358) sinalizam para os desafios postos no Mundo do Trabalho frente às diversas mudanças e pelo impacto do atual discurso hegemônico.

Ao salientarem o avanço brutal da superexploração do trabalho, seja ele material ou imaterial, sinalizam que esta não é mais uma realidade vivida apenas pelas cidades periféricas e dependentes, ela cresce frondosa e sem limites no coração das sociedades mais avançadas. Cenário, que no dizer dos autores, cobra novas formas de atuação, de resistência, de enfrentamento e de organização dos homens e mulheres que compõem e são explorados pelo sistema.

SUBJETIVIDADE E PERTENCIMENTO

A conformação do Mundo do Trabalho estabelecida pela premissa apontada acima não existe sem razão, ela tem função social e sistêmica e pode ser verificada de forma concreta no movimento de apagamento da ideia do Trabalho como atividade humana e social, nunca reduzida à simples execução de tarefas ou a um processo de produção alienante. E como atividade humana e social, a Comunicação torna-se parte intrínseca do Trabalho, alimentando a subjetividade e reforçando a ideia de pertencimento.

Logo, não podemos dissociar o Trabalho da construção do Mundo da Vida e de sua evolução na história, sendo também válido o caminho contrário, o Mundo da Vida influencia também o Mundo do Trabalho. “Não se pode postular a independência da vida de trabalho em relação à vida pessoal; é um todo indissociável, em que todas as partes se comunicam de maneira permanente” (SCHWARZ e DERRIVE, 2008, p.47). Para os autores, o ato de trabalhar é uma ação social, que permite ao indivíduo produzir-se como ser social na atividade do trabalho.

Essa concepção subjetiva e essencial do Trabalho entra em conflito direto com outra já citada aqui, a de “homem empresa” e a de “mercado autoconstrutivo”. Já que cabe à segunda mascarar a ideia de Trabalho como vetor de avanço e ganhos sociais. Ela não só desconsidera a concepção de Trabalho, nos termos de Marx, ela nega a ideia de luta social, a existência da luta de classes.

E no interior desse processo, a Comunicação atua deixa de ser agente emancipatório e formador de consciência pra torna-se instrumento de domesticação social. Exemplo disso são as formas sutis que encontramos aos nos depararmos com a defesa do “ser empreendedor”.

Nos termos de Casaqui (2015) o discurso de empreendedorismo, em especial o de empreendedorismo social, atua como agente fortalecedor do capitalismo. Já que, usando de uma comunicação moderna e multiplataforma, por um lado, mascara as funções do sistema, apaga as relações sociais, fomentam o individualismo e a meritocracia, e por outro, reforça a ideia de conformismo em torno das desigualdades: a oferta existe, o problema é não poder pagar pelo serviço.

ALGUMAS POSIÇÕES

O que se tira da reflexão realizada até aqui é que a pressão exploradora não se dá somente ou mais pelo chicote do capitão do mato ou pelo ritmo imposto pela máquina, mais sim pela redução da função social do Trabalho, do valor do Trabalho e do papel dos trabalhadores e das trabalhadoras. Condição para o funcionamento do sistema e sua manutenção como norma social.

Sem reservas, o sistema social em curso não só espolia desses homens e mulheres que vivem do trabalho a ideia de que são agentes sociais, ele apaga de suas memórias a reflexão postulada por Marx: de que são eles possuidores de uma mercadoria com valor, parte necessária para o avanço de qualquer sociedade. Tal condição é alcançada por meio de um contínuo bombardeamento de modos de vida e visões de mundo, as quais alienam seus anseios sociais e os transformam em motor para retroalimentar o sistema opressor capitalista.

REFERÊNCIAS

ANTUNES, Ricardo. O Privilégio da Servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. 1 Ed. São Paulo – Boitempo, 2018.

_________________. Ricardo Antunes. Os Sentidos do Trabalho: Ensaio sobre a afirmação e negação do trabalho. Coimbra: CES/Almedina, 2013. », Configurações [Online], 12 | 2013, posto online no dia 08 outubro 2014, consultado o 11 setembro 2018.

CASAQUI, V. A Construção do Papel do Empreendedor Social: mundos possíveis, discurso e o espírito do capitalismo. Galaxia (São Paulo, Online) n. 29, p. 44-56, Junho de 2015. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/gal/n29/1982-2553-gal-29-0044.pdf. Acessado em 25 de Agosto de 2018.

DARDOT, Pierre, LAVAL, Christian. A nova razão do mundo. Ensaio sobre a sociedade neoliberal. Tradução: Mariana Echalar. Boitempo Editorial, 2017. Páginas 133-155.

MARX, Karl. O Capital: Crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do capital. Tradução: Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.

__________. Grundrisse: Manuscritos econômicos de 1857-1858: Esboços da crítica da economia política. Tradução: Nélio Schneider. Boitempo Editorial, 2015 - 792 páginas.

HUWS, Ursula. A Formação do Cibertariado. Trabalho Virtual em um mundo real. Tradução: Murillo Van der Laan. Campinas, São Paulo: Editora Unicamp, 2017.

SCHWARZ, Yves, DERRIVE, Louis. Trabalho e ergologia: conversas sobre a atividade humana. Rio de Janeiro: Eduff. 2008

URL : http://journals.openedition.org/configuracoes/2192 ; DOI : 10.4000/configuracoes.2192

 

[1] Grifo nosso.

[2] Grifo do autor.

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