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18
Ter, Jun

2019

  • 1968: o ano que não terminou”, famoso livro do jornalista Zuenir Ventura, começa com observação peculiar: “A nossa história começa com um réveillon e termina com algo parecido a umaressaca  ressaca de uma geração e de uma época”.

    Se nos permitissem, seja a numerologia ou o atrevimento, substituir o um pelo dois, o nove pelo zero, e o seis pelo um, adiantando (ou seria atrasando?) relógios e calendários em 50 anos, as mesmas palavras — e o mesmíssimo subtítulo — poderiam bem servir para descrever 2018.

    Tivemos marcos significativos no ano passado. O novo ano que não terminou foi aquele dos 30 anos da Constituição da República e dos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas também dos 50 anos do Ato Institucional Número 5 (AI-5), e, infelizmente, chegamos ao seu suposto último dia mais próximos do retrocesso deste do que de todo o ideário daquelas.

    Marcos de décadas cujos objetos se digladiaram desde o primeiro dia de janeiro, com o início de um ano eleitoral e a expectativa de pôr fim ao movimento golpista que se arrasta, crescente, até o mal-estar da ascensão de um projeto protofascista ao poder, exatamente um ano depois.

    Nesse confronto, a Constituição de 1988, símbolo de todo o processo de luta pela redemocratização do país, foi particularmente atacada. A cidadania e o pluralismo político, garantidos em seu Artigo 1°, sofrem. A construção de uma sociedade livre, justa e solidária, a erradicação da pobreza, da marginalização e a redução das desigualdades sociais e regionais, assim como a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação, assegurados no Artigo 3° como objetivos fundamentais da República, são alvos de afrontas.

    A liberdade de manifestação do pensamento e a livre expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, estabelecidas no Artigo 5°, são censuradas. Os direitos sociais à educação, à saúde, à alimentação, ao trabalho,à moradia, ao transporte, ao lazer, à segurança, à previdência social, à proteçãàmaternidade e à infância, à assistência aos desamparados, determinados no Artigo 6°, são vilipendiados.

    A educação como direito de todos e dever do Estado e da família,com vistas ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho, tal qual expresso no Artigo 205, é bombardeada. A liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber,juntamente com o pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, princípios do ensino presentes no Artigo 206, é perseguida.

    Se os escombros de 2018 persistem, 2019 nos impõe que a luta também prossiga. Mais uma vez, a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino — Contee tem compromissos coletivos voltados para as grandes batalhas que já estão em pauta e para as que estão por vir, a fim de que as três décadas da nossa Carta Cidadã, celebradas neste ano, não tenham sido vãs. Se os danos da eleição de um projeto político extremamente nocivo são imensuráveis, nossa tarefa para 2019 é enfrentá-los e combatê-los. Pela educação, pelos trabalhadores, pela luta sindical, pela ordem democrática, pela liberdade.

    Gilson Reis é coordenador-geral da Contee.


     Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

     

  • Saber o que pensa e conhecer o modus operandi são 2 condições fundamentais para se relacionar com qualquer governo, tanto de modo propositivo, quanto de maneira reativa. Com o governo Bolsonaro não será diferente. Se a sociedade civil e os cidadãos não entenderem essas 2 dimensões, as chances de êxito em eventuais disputas com o governo serão praticamente nulas.

    Sobre o pensamento do governo Bolsonaro, parece não haver dúvida de que se trata de um governo:

    1) de direita, do ponto de vista político;

    2) liberal, do ponto de vista econômico;

    3) fiscalista, do ponto de vista da gestão;

    4) conservador quanto aos costumes, valores e comportamentos; e

    5) temerário em relação aos direitos humanos e ao meio ambiente.

    Quanto à estruturação em núcleos de poder, parece evidente que se trata de um governo que foi organizado para falar para 3 públicos segmentados:

    1) os eleitores fundamentalistas do capitão;

    2) os setores de “classe média” moralistas-justiceira; e

    3) o mercado. Ninguém, entretanto, fala para o povo, especialmente aquela parcela da população que depende das políticas e dos serviços públicos, ou para os trabalhadores ou as minorias.

    Quem melhor sistematizou os supostos núcleos estratégicos do governo Bolsonaro foi o professor da FGV e presidente do Instituto Luís Gama, Silvio Almeida. Em artigo publicado recentemente sob o título “Sobre política, distração e destruição”, ele definiu e sistematizou 3 núcleos:

    1) o ideológico-diversionista,

    2) o policial-jurídico-militar, e

    3) o econômico.

    O primeiro — ideológico-diversionista — serviria, na lógica do artigo do professor Silva Almeida, apenas para manter a moral da “tropa” ou dos bolsonaristas em alta, dando-lhes representatividade e acomodação psicológica ao ideário conservador que sustentou a campanha eleitoral.

    Seriam os agitadores que serviriam para “fidelizar” os seguidores do bolsonarismo e, segundo o professor, também para “desviar a atenção”, além de “causar indignação e tristeza” entre os “progressistas”, enquanto os núcleos 2, e, principalmente, o 3, colocam em prática suas agendas.

    Esse grupo faz, em nome do presidente, o que, nos EUA, Donald Trump faz pessoalmente, como tática de persuasão, e que Scott Admas, em “Win Biggly: in a World Whee Facts Don’t Matter” [1] classifica com “dissonância cognitiva”: lança ideias ou declarações polêmicas, tenham ou não conexão com realidade, para atrair o interesse da mídia e tirar o foco dos problemas que realmente importam para o País, pautando a imprensa, os intelectuais e até mesmo a oposição. Quando o tema perde importância, outra polêmica é criada em seu lugar, e assim permanece em evidência, mesmo que as suas “propostas” não levem a lugar algum.

    O 2º núcleo — policial-jurídico-militar — é composto de profissionais altamente qualificados, que sabem operar o Direito e a máquina repressiva. Como alerta Silvio Almeida, não existe “arminha de dedo”. A arma é de verdade mesmo. O jogo é bruto. Vai de cadeia à destruição física e moral dos adversários.

    Seu objetivo, na lógica do artigo do professor Silvio Almeida, é dar sustentação aos outros 2 núcleos, de um lado, dando corpo às alucinações do núcleo ideológico — do qual faz parte o próprio presidente, que vê “inimigos da pátria”, ideologia de gênero e “comunistas” em tudo quanto é lugar — por meio de mudanças legais, de abertura de processos civil e penal, além de perseguição e repressão aos críticos mais exaltados, e, de outro, utilizando os instrumentos jurídicos, fiscalizatórios e intimidatórios do Estado para acuar e amedrontar os opositores mais aguerridos da agenda neoliberal.

    O 3º núcleo — econômico — formado por neoliberais convictos, tem como objetivo colocar em prática, em sua plenitude, a agenda do mercado, a verdadeira “Ponte para o futuro”, que Michel Temer não teve tempo nem legitimidade para executar totalmente. Essa agenda consiste na:

    1) desindexação geral da economia;

    2) desvinculação orçamentária;

    3) privatização selvagem;

    4) abertura da economia;

    5) desregulamentação do trabalho, com a “livre” negociação; e

    6) restrição para acesso a benefício previdenciário, inclusive com aumento da idade mínima, aumento do tempo de contribuição e redução do valor do benefício.

    O núcleo econômico, além de preparado e pragmático, tem convicções profundas, beirando o fundamentalismo, tanto da necessidade de um ajuste fiscal pelo lado da despesa, com redução do papel do Estado na exploração da atividade econômica, na prestação de serviços e no fornecimento de bens e programas sociais, quanto da urgência da alienação do patrimônio público e da abertura da economia ao capital estrangeiro, sempre sob o pretexto de que o enxugamento do Estado é condição indispensável para atrair investimento e gerar emprego e renda.

    Com esse “modus operandi”, o governo — caso as forças prejudicadas pelos excessos e pela ausência de calibragem do governo em suas políticas não ajam com unidade e inteligência estratégica — conseguiria atingir seu objetivo, atraindo os “progressistas” contrários à pauta de comportamentos, costumes e valores para o embate ou a disputa com o núcleo ideológico-diversionista, enquanto o núcleo econômico tocaria a agenda real de desmonte, com a consequente transferência para o mercado dos poderes e do orçamento do Estado, sob o fundamento de valorização da livre iniciativa, da competitividade e, principalmente, da lucratividade.

    Como diz o ditado árabe, enquanto os cães ladram, a caravana passa. Assim, sem muita dificuldade, a “cortina de fumaça” do debate sobre “costumes” e declarações polêmicas permite que os verdadeiros interesses da sociedade, aqueles que pesam na mesa e no bolso do trabalhador, do aposentado, da pensionista, dos desempregados, sejam sacrificados no altar do verdadeiro Deus do governo Bolsonaro: o mercado.

    *Antônio Augusto de Queiroz é Jornalista, consultor e analista político, diretor licenciado de Documentação do Diap e sócio-diretor da Queiroz Assessoria.

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    NOTA

    [1] Em tradução livre “ganhe muito: em um mundo onde os fatos não importam”


     Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

  • O presidente da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra), Guilherme Feliciano, participou e compôs a mesa alta, no dia 22 de janeiro, da audiência pública sobre o fim do Ministério do Trabalho e possível extinção da Justiça trabalhista, na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP), em São Paulo. A audiência promoveu debates aprofundados para a análise crítica das questões que notabilizam a Justiça do Trabalho e o Ministério do Trabalho como conquistas essenciais para a cidadania. Além do presidente Feliciano, o presidente da Amatra 2, Farley Rodrigues Ferreira, também esteve presente.

    Em sua fala, o presidente Feliciano afirmou que a Justiça do Trabalho é um patrimônio institucional do povo e da sociedade brasileira e que a sua extinção é tarefa quase impossível. Na sequência, expressou três eixos de considerações sobre um suposto fim da Justiça trabalhista.

    “O que precisamos é desarticular falácias (ditas e repetidas sem maior reflexão para extenuar a imagem da Justiça do Trabalho), apontar quimeras (como a de fazer cinco Tribunais Regionais Federais absorverem 24 TRTs e suas respectivas carreiras) e sugerir alternativas (se há queda do número de ações e intensa capilaridade, que venham mais competências para a Justiça do Trabalho). O que faríamos com os juízes vitalícios e com os milhares de processos em tramitação? ”.

    O presidente Feliciano convidou, ainda, a advocacia paulista para comparecer ao Ato Nacional em Defesa da Justiça do Trabalho, no dia 5 de fevereiro, em Brasília. “Vamos entoar, em uníssono, este canto, esta palavra forte, em defesa da Justiça do Trabalho”, enfatizou Feliciano.

    Mais

     Fonte: Anamatra

  • Aproveito o debate em torno da eleição para a Presidência da Câmara dos Deputados para além de opinar sobre o tema, sugerir que nos polarizemos mais sobre a caracterização do quadro político mais geral atual e investiguemos, com afinco, as razões que nos levaram até aqui. 

    Penso que, com esse foco, seremos capazes de melhor analisar as estratégias, inclusive a das últimas eleições, e atualizarmos as nossas táticas para as mais variadas frentes de luta que atuamos, dentre elas, a parlamentar. Não deve haver desconexão dessas específicas com a linha mais geral. 

    Registro que corroboro com o apoio à candidatura do Deputado Federal Rodrigo Maia pelas inúmeras razões já fundamentadas, inclusive pelo PCdoB. Julgo que é um passo tático condicionado pela desfavorável conjuntura, mas em sintonia com as táticas sagazes, amplas e com o sentido da resistência que a nova quadra exige.

    Se as circunstâncias políticas da última eleição dessa mesma Presidência exigiram o mesmo esforço e movimento, as de hoje impõem-se como exigência. Esta centralidade advém de forças que examinam a concretude das condições políticas que ora se estabeleceram no Brasil e em particular, no Executivo e no parlamento federal. 

    São daqueles que consideram que em 2018 não tivemos apenas uma mudança na Presidência da República. Opinamos que o Brasil, através do sufrágio universal, foi tragado pelas novas condições geopolíticas, nas quais, a extrema direita ganha relevância com sua base social e representações em executivos e parlamentos, provocando um relativo isolamento do pensamento progressista em escala global. 

    Estes mesmos fatos são as novas objetividades atuais em nosso país. Uma base conservadora e reacionária do Brasil venceu as últimas eleições e quase já no primeiro turno. Essa vitória revelou que eles identificaram, compreenderam e manipularam os aspectos sociais, os valores e o desalento, em particular da classe trabalhadora e dos novos estratos que compõem a nova sociedade brasileira. Portanto, a ultradireita, em consórcio, obteve uma vitória política e ideológica, configurando-se numa derrota estratégica para o campo popular e democrático.

    Contudo, para alguns, trata-se apenas de um rodízio que faz parte da vida democrática, e que logo estaremos de volta; para outros, uma “oportunidade” de desenvolver uma política demarcatória com efeitos restritos aos seus próprios interesses propagandísticos. Como exemplo e lição, essa pregação de hoje é a repetição de posições errôneas ocorridas contra a participação da disputa presidencial no colégio eleitoral em 1985. Foi daquela correta tática pela participação - na qual o PCdoB teve também importante papel - que se garantiu uma transição interrompendo a ditadura militar e a elaboração de uma nova Constituição realizada pela Assembleia Nacional Constituinte.

    O tempo e a vida real fizeram com que as vozes contrárias de outrora elegessem atualmente essa mesma Constituição como sendo a depositária da defesa da democracia, da soberania nacional e dos direitos sociais. 

    A esquerda brasileira ainda não investigou adequadamente as causas de nossa derrota, não só a eleitoral, mas sobretudo, a perda de base social, até mesmo dos milhões de assalariados que foram alçados às novas condições pelo ciclo Lula-Dilma. A guerra híbrida que o país foi submetido explica o “êxito” do meio, mas o campo fértil para sua exploração advém de algumas insuficiências programáticas e táticas do nosso projeto. Penso que o campo democrático, popular e progressista deve investir mais energia nesse foco e menos em secundários que só geram mais dispersão e isolamento político.

    Afastar-se desse estudo e o não reconhecimento das dimensões de nossa derrota impedem que atualizemos as táticas que a conjuntura exige, proporcionando, sobre alguns – explícito agora na eleição à Presidência da Câmara Federal - caminhos que produzem apenas barulhos à ouvidos restritos e seletivos, menosprezando alguns postos e pressupostos necessários para desenvolvermos a guerrilha parlamentar federal. O voto do PCdoB à Presidência da Câmara busca melhor posicionar-se para melhor resistir. O sistema pactuado com a Constituição de 1988 está cotidianamente sob ataque e exige de nós ações com quem tem o compromisso de respeitá-la. 

    Em 2016 o país foi gravemente ferido com um golpe jurídico-parlamentar-midiático, criando as condições para que a ultradireita assumisse a Presidência da República em 2019. A execução desse programa implica em atacar a democracia, fragilizar a soberania nacional e subtrair direitos sociais. Esse contexto exige que disputemos menos as bolhas e falemos, convençamos e agreguemos os milhões que, anestesiados, se envolveram numa nova e perigosa farsa. 

    Portanto, saímos de uma fase de ameaça e adentramos na de sobrevivência, exigindo assim, a mais radical amplitude para o êxito de nossa resistência. O PCdoB, em particular, vítima de uma reforma eleitoral antidemocrática, guia-se nessa direção.

    Assim penso. 

    *Divanilton Pereira é vice-presidente nacional da CTB e membro do Comitê Central do PCdoB.

  • O Brasil assiste desde a vitória de Jair Bolsonaro para a Presidência da República cenas dignas de um filme de horror ou mesmo de uma comédia de péssima feitura. E isso acontece das mais diferentes maneiras e nos mais diferentes setores.

    Mas, no tocante ao Mundo do Trabalho, categoria fundamental para o avanço social, a coisa é de arrepiar os cabelos.

    Neste final de ano, presidente eleito oferta aos milhões de trabalhadores e trabalhadoras mensagens de horror e pessimismo que vão desde a chamada “carteira de trabalho verde e amarela” até afirmar que “é difícil ser patrão no Brasil”.

    Ora, vejam! A proposta, por exemplo, de aumentar a informalidade no mercado de trabalho - ou seja, menos direitos - confirma seu compromisso com os patrões e piora o já desolador cenário de desmonte nos direitos da classe trabalhadora

    Lembremos que, além de não ter acesso a nenhum direito, o trabalhador ou trabalhadora informal vê o acesso à aposentadoria cada vez mais distante, já que quem trabalha por conta no Brasil, hoje, é considerado contribuinte individual, o antigo autônomo. Além disso, não contribui com a arrecadação, o que agravará a crise, impacta negativamente nas contas públicas, o que reflete na queda da oferta e qualidade de serviços públicos essenciais.

    E fica pior. Bolsonaro voltou a afirmar que "ser patrão no Brasil é um tormento". Tudo para justificar sua brutal ofensiva contra a classe trabalhadora - grande parte dela formada por seus eleitores -, para assim fazer novas flexibilizações nas leis trabalhistas.

    Bolsonaro encarna o que há de pior e confirma a herança escravocrata de uma elite atrasada que não gosta do povo, que defende o Estado mínimo e diz fomenta a exclusão pelo preço, ou seja, o serviço existe, você que não pode pagar.

    2019 se aproxima e com ele a certeza de que lutar será norma para aqueles que defendem trabalho, salário, saúde, educação, moradia, lazer e acesso à cultura dignos. As cartas na mesa desenham uma luta política ainda mais acirrada, a qual também posiciona no tabuleiro a defesa da liberdade.

    Atenção Brasil! Aproxima-se o tempo da defesa de questões fundamentais. E a unidade deve ser o pavimento para esta nova etapa.

    Joanne Mota é jornalista e assessora da CTB Nacional.

  • O ano de 2018 se encerra com os movimentos populares se preparando para a chegada do novo presidente da República. Para as entidades sindicais do Brasil, fortemente afetadas pelo governo ilegítimo de Michel Temer, “é tempo de aprendizado e de autocrítica apurada pois estamos sofrendo as consequências por nossa falta de capacidade de envolver o povo brasileiro na defesa de seus interesses mais fundamentais”, segundo o presidente da Fitmetal, Marcelino da Rocha.

    Nesta entrevista, o dirigente fala sobre os efeitos iniciais da Reforma Trabalhista sobre o movimento sindical, sobre a importância do movimento Brasil Metalúrgico e defende um novo modelo de relacionamento entre sindicatos e suas entidades de nível superior (federações, confederações e centrais sindicais). “Há necessidade de corrigirmos aspectos que nos enfraquecem, em especial nesse cenário que se inicia em 2019”, sustenta.

    Confira abaixo os principais trechos da entrevista: 

    Fitmetal: É impossível para o movimento sindical fazer um balanço positivo do ano de 2018, mas certamente muitas lições servirão para as lutas futuras, especialmente durante o governo do próximo presidente. O ano de 2019 chegará com muitas dificuldades para toda a classe trabalhadora, mas qual deve ser a estratégia de luta dos metalúrgicos para o próximo período?: Este ano foi o coroamento do golpe dado pelas elites brasileiras em 2016. O auge desse golpe, naturalmente, foi a reforma trabalhista, que entrou em vigor no final do ano passado. Em 2018 nós começamos a viver as consequências de todo esse processo, liderado por uma burguesia que não aceita a ascensão social do povo que produz as riquezas deste país. Historicamente, os movimentos sociais brasileiros sempre foram obrigados a executar recuos estratégicos, procurando aprender e tomar lições sempre que golpes e ataques como esse nos afetaram. Mais uma vez as centrais sindicais, os partidos políticos e os demais movimentos têm a necessidade de construir uma grande unidade, uma grande aliança, formada a partir de bandeiras concretas, deixando de olhar para nós mesmos e nossos interesses, mas com a intenção de fortalecer a democracia brasileira. Neste governo que se inicia teremos que lutar muito pelos direitos sociais e também pela soberania brasileira, já que nossa elite deseja entregar de vez o que ainda resta da capacidade de desenvolvimento da economia brasileira. É tempo de aprendizado e de autocrítica apurada, pois estamos sofrendo as consequências por nossa falta de capacidade de envolver o povo brasileiro na defesa de seus interesses mais fundamentais. 

    Fitmetal: Pensando nessa estratégia para o futuro e trazendo a conversa para a luta da nossa categoria, como você avalia o papel do movimento Brasil Metalúrgico até o momento e de que maneira suas entidades poderão se organizar para manter a pauta da reindustrialização em evidência?
    Marcelino da Rocha: A continuidade do Brasil Metalúrgico é algo imperioso nos dias atuais. Há uma série de retrocessos a caminho, que afetam diretamente nossa categoria e também a classe trabalhadora em geral. A questão da reindustrialização e do desenvolvimento nacional precisa ser debatida. A entrega de setores estratégicos de nossa economia para os interesses privados internacionais (em especial dos Estados Unidos) afeta diretamente a categoria metalúrgica. Isso somado ao advento da Indústria 4.0 exige de nós, líderes do Brasil Metalúrgico, uma tomada de posição. 
    Outro ponto importante é a possível Reforma da Previdência, de inspiração chilena, que está sendo discutida pelo novo governo. No Chile estamos acompanhando o alto índice de suicídios de trabalhadores aposentados por esse sistema, hoje sem nenhuma condição de se sustentarem em condições minimamente adequadas. Entendemos que esse modelo não é o mais adequado aos brasileiros e que é necessário que diversas categorias se unam para manifestar sua contrariedade. 

    Em linhas gerais, temos que ter iniciativas mais amplas. Se cada um de nós tentar obter sucesso somente em seu sindicato, em sua cidade, em seu estado, nossa chance de êxito será muito menor. O Brasil Metalúrgico já deu mostras de sua capacidade de articulação e precisa iniciar 2019 com essa tarefa de construir uma unidade ampla e de caráter nacional. 

    Fitmetal: O Contrato Nacional Coletivo de Trabalho é algo que tem condições de ser discutido neste momento?
    Marcelino da Rocha: Entendo que mais do que nunca está na ordem do dia o Contrato Nacional Coletivo, já que há uma discrepância muito grande no salário e nos direitos de metalúrgicos de diferentes regiões do país. Se pegarmos o caso de São Bernardo do Campo ou da Bahia, vemos que os trabalhadores dessas regiões estão em um determinado patamar, com muita participação da categoria na conquista de mais direitos. Por outro lado, no Centro-Oeste ou em outras regiões do Nordeste você vê trabalhadores com salários muito diminuídos e com uma ausência muito grande de direitos. 

    Há também a realidade bem particular dos trabalhadores de montadoras de veículos, com cenários totalmente diferentes. Você vê metalúrgicos que recebem no final do ano uma Participação nos Lucros e/ou Resultados (PLR) de R$ 3 mil em algumas fábricas e R$ 25 mil, como vemos no Paraná em alguns casos. É por isso que mesmo na adversidade essa deve ser uma luta que não deve estar fora de nossas prioridades. Temos que construir essa unidade.

    Fitmetal: Com o fim do Ministério do Trabalho, como você avalia que se dará a interlocução das entidades sindicais com o governo federal? Será necessária uma aproximação maior com o Legislativo?
    Marcelino da Rocha: Esse é mais um dos ataques desferidos contra os trabalhadores, ainda que o Ministério do Trabalho já viesse sofrendo certo abandono inclusive de governos que tinham o nosso apoio, como o da ex-presidenta Dilma. Não é de hoje a falta de concursos públicos e de auditores fiscais, bem como a necessidade de instrumentalização das delegacias regionais de Trabalho. Os golpistas estão colocando em prática seu projeto. Cabe a nós desenvolver um novo projeto de articulação política, sem nenhuma ilusão em relação ao Parlamento eleito em 2018, que é ainda mais reacionário do que o atual. O movimento sindical precisa buscar uma unidade concreta e objetiva, para somente depois se articular com frentes do Legislativo, do Executivo e do Judiciário, na tentativa de impedir esse desmantelamento de direitos trabalhistas do povo brasileiro. 

    Fitmetal: A reforma trabalhista trouxe dificuldades concretas para a sustentabilidade das entidades sindicais de todos os níveis. Falando primeiramente a respeito dos sindicatos, qual deve ser a estratégia adotada por suas direções para que o trabalho junto à categoria não sofra retrocessos ainda maiores?
    Sem generalizar, mas precisamos combater o distanciamento das entidades de nível superior em relação às suas bases. Com a reforma trabalhista, isso fica ainda mais latente. Nosso primeiro grande trabalho é essa reaproximação. Precisamos rever os métodos pelos quais nos relacionamos com os trabalhadores. Teremos que usar de muita criatividade, pois o que vínhamos usando já não os convencem mais. A categoria que tiver uma entidade presente no seu cotidiano, com líderes que não se vejam como superiores em relação àqueles que por eles são representados, conseguirá construir um nível de consciência mais elevado e será capaz de garantir sua sustentabilidade e representação.

    Fitmetal: Falando agora um pouco mais sobre a Fitmetal e outras entidades de nível superior, qual deve ser a estratégia para sua sustentabilidade? De que maneira precisará ser aprimorada a relação com os sindicatos?
    Marcelino da Rocha: Mesmo num ambiente totalmente adverso e de muita precarização, os metalúrgicos ligados à Fitmetal mantiveram conquistas históricas de suas bases (algo que freia, de certa forma, o retrocesso da reforma trabalhista) e ainda conquistaram avanços sociais e econômicos importantes. Isso se deu tanto pelas negociações de data-base quanto nas discussões de PLR. 

    Infelizmente, no entanto, essa relação com as entidades superiores exige que toquemos numa ferida. Os sindicatos de base, em geral, só compreendem a importância de suas federações, confederações e centrais sindicais quando é deflagrada uma disputa eleitoral na categoria, com a apresentação de chapas adversárias. Nesse momento sempre surge uma mobilização concreta, deslocamento de militantes, gastos com hospedagem, alimentação, materiais de comunicação e de estrutura. No entanto, uma vez resolvida essa questão, as entidades de nível superior são novamente deixadas de lado. 

    É claro que não podemos generalizar, mas esse relacionamento também tem problemas em seu sentido inverso. Como eu já disse anteriormente, as federações, confederações e centrais sindicais precisam se reaproximar com urgência de seus sindicatos de base. Essa relação não pode ser apenas contábil, baseada somente em números para definir sua representatividade. Diante dos desafios e dificuldades que vamos enfrentar, essa relação precisa ser revista por todos os atores envolvidos.

    Fonte: Fitmetal