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Dom, Mar

Apenas um rapaz latino-americano

  • Belchior 70 anos: “Eles venceram e o sinal está fechado para nós que somos jovens”

    Os versos da emblemática canção “Como nossos pais”, de Belchior mostra toda a importância e atualidade do cantor e compositor cearense, que fez muito sucesso nos anos 1970 e 1980 com suas canções icônicas.

    Belchior completou 70 anos de idade na quarta-feira (26) sem festa porque ninguém sabe ao certo o seu paradeiro desde 2009, quando ele sumiu sem dar notícias. "Como nossos pais", que contém o verso do título, é uma das mais executadas até hoje na voz da cantora gaúcha Elis Regina (1945-1982).

    Como nossos pais 

    Com “Apenas um rapaz latino-americano”, Belchior canta a latinidade e a necessidade de união dessa parte do continente americano tão maltratada pelos países do Hemisfério Norte. Ela permanece tão atual que o grupo paulistano de rap Racionais MCs a cita na sua canção “Capítulo 4 versículo 3”.

    “Não me peça que eu lhe faça/Uma canção como se deve/Correta, branca, suave/Muito limpa, muito leve/Sons, palavras, são navalhas/E eu não posso cantar como convém/Sem querer ferir ninguém”, diz uma estrofe da música do artista nordestino.

    Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, o Belchior, nasceu em Sobral, Ceará. Carrega em sua obra toda a rica herança cultural da cultura cearense e nordestina, sob muita influência do rock, principalmente dos Beatles, algumas vezes citados em suas músicas, além de Luiz Gonzaga, como não poderia deixar de ser.

    Apenas um rapaz latino-americano

    Do Ceará para o mundo a sua força poética e o seu jeito de cantar fizeram que alguns críticos o comparassem com o compositor norte-americano Bob Dylan, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura deste ano.

    Conseguiu gravar seu primeiro disco em 1974, “Mote e glosa”, onde canta “Passeio”, na qual fala em fugir em um disco voador. Como no disco “Todos os sentidos”, de 1978, na canção “Até amanhã”, ele diz que o reencontro pode não acontecer porque pode não haver amanhã. O sumiço parece algo presente em sua obra.

    Além de “Como nossos pais”, e “Apenas um rapaz latino-americano”, muitos sucessos de Belchior estão eternizados no imaginário popular. Em “Velha roupa colorida” ele canta o seu tema predileto o tempo e a juventude.

    Velha roupa colorida 

    “Você não sente, não vê/Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo/Que uma nova mudança em breve vai acontecer/O que há algum tempo era novo, jovem/Hoje é antigo/E precisamos todos rejuvenescer”, diz o clássico da MPB.

    Outros clássicos de sua autoria nunca são esquecidos. “Paralelas”, “Galos, noites e quintais”, “Medo de avião”, “Retórica sentimental”, “A palo seco”, “Tudo sujo de batom”, “Divina comédia humana”, “Alucinação”, “Saia do meu caminho”, entre outras dezenas de belas canções, eternizadas no acervo histórico da MPB.

    Então pouco importa o paradeiro de Belchior, que de acordo com o jornal Folha de S.Paulo está no Uruguai para traduzir a obra do italiano Dante Aleghieri (1265 dC-1321 dC), o clássico “Divina Comédia”.

    Divina comédia humana 

    Belchior já fez o suficiente para permanecer eternamente na história da cultura brasileira e mora nos corações dos brasileiros, com ou sem medo de avião.

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy

  • É impossível ouvir Belchior e não querer transformar o mundo num local bom para se viver

    O Portal CTB presta homenagem ao poeta, cantor e compositor Belchior que nos deixou no dia 30 de abril, em Santa Cruz do Sul (RS). Uma verdadeira legião de fãs ficou atônita, mesmo com o autor cearense, nordestino, brasileiro, latino-amercicano estando fora dos palcos há muitos anos.

    As suas músicas inundam a alma e o cérebro de quem sente e vê que o novo sempre vem. Um dos mais importantes porta-vozes de uma geração que foi à luta por liberdade e democracia. Que deixou os cabelos crescerem, vestiu minissaias, tirou sutiãs e rompeu barreiras, mesmo em tempos sombrios,

    Impossível, portanto, ouvir Belchior e ficar impassível com as mazelas da vida. Impossível não querer mudar as coisas. Mesmo quando se deixa de ser como os nossos pais e passe a ser como os nossos tataravós.

    “Já faz tempo eu vi você na rua cabelo ao vento gente jovem reunida

    Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais

    Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos

    Ainda somos os mesmos e vivemos

    Como nossos pais” (Como nossos pais)

    Poucos interpretaram como ele a juventude dos anos 1970 e 1980. Principalmente na vontade de transgredir a ordem patriarcal vigente. Cantando o social e o individual, o amor e a revolução, a utopia e a vida, tudo ao mesmo tempo e uma coisa de cada vez.

    “Tenho vinte e cinco anos

    De sonho e de sangue

    E de América do Sul

    Por força deste destino

    Um tango argentino

    Me vai bem melhor que um blues” (A palo seco)

    A palo seco (Belchior)

    O autor cearense morreu aos 70 anos, completados no dia 26 de outubro. Legou para a posteridade centenas de obras-primas da MPB.  Suas composições viajam do lírico ao épico com uma desenvoltura intrínseca à miscelânea de sons que unia Beatles, música regional nordestina, Bob Dylan, Luiz Gonzaga, bossa nova, música de nossos vizinhos latino-americanos.

    “Moro num lugar comum, perto daqui, chamado Brasil.

    Feito de três raças tristes, folhas verdes de tabaco

    e o guaraná guarani.

    Alegria, namorados, alegria de Ceci.

    Manequins emocionadas:

    - são touradas de Madri

    ...que em matéria de palmeira ainda tem o buriti perdido.

    Símbolo de nossa adolescência,

    signo de nossa inocência índia, sangue tupi.” (Retórica Sentimental)

    De Sobral (CE) para o mundo, nada faltou à sua obra eternizada no imaginário popular. Cantou a vontade de superar a vida mesquinha, a vida contida, a vida sozinha. Falou de amor, de desamor, de dor, de relacionamentos que fomentam a vida, habitam os sonhos, os desejos, a pressa de viver e o poder da alegria.

    “A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia

    E pela dor eu descobri o poder da alegria” (Fotografia 3x4)

    Fotografia 3x4 (Belchior)  

    “Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja

    Não quero o que a cabeça pensa

    Eu quero o que a alma deseja

    Arco-íris, anjo rebelde

    Eu quero o corpo, tenho pressa de viver” (Coração Selvagem)

    Levou o seu canto com a vontade de unir a América Latina contra os ataques do imperialismo e a sordidez do capital que desumaniza até as relações afetivas. Combateu com sua arte os preconceitos e o autoritarismo de uma sociedade atrasada, sob uma feroz ditadura.

    “Não me peça que eu lhe faça

    Uma canção como se deve

    Correta, branca, suave

    Muito limpa, muito leve

    Sons, palavras, são navalhas

    E eu não posso cantar como convém

    Sem querer ferir ninguém” (Apenas um rapaz latino-americano)

    Cantou o medo. O medo de pegar na mão da menina no amor adolescente, o medo do avião, mas sintonizou a profundidade do medo que paralisa e mumifica. Transpôs o medo de ter medo de ser feliz e chutou o balde da repressão e do individualismo, sublimando o sentimento de solidariedade, generosidade e superação.

    “Eu tenho medo e medo está por fora

    O medo anda por dentro do teu coração

    Eu tenho medo de que chegue a hora

    Em que eu precise entrar no avião” (Pequeno mapa do tempo)

    Medo de avião (Belchior) 

    “Foi por medo de avião

    Que eu segurei

    Pela primeira vez a tua mão

    Agora ficou fácil

    Todo mundo compreende

    Aquele toque Beatle

    I wanna hold your hand” (Medo de avião)

    Sonhou, desejou, ensejou a vontade de ver um mundo igual, onde qualquer pessoa tenha a plenitude de andar sozinha e sem medo. Andar pelas ruas livres de amarras e preconceitos. A alma límpida e a mente viajante.

    “No presente a mente, o corpo é diferente

    E o passado é uma roupa que não nos serve mais

    No presente a mente, o corpo é diferente

    E o passado é uma roupa que não nos serve mais” (Velha roupa colorida)

    Alucinação (Belchior) 

    “Um preto, um pobre

    Uma estudante

    Uma mulher sozinha

    Blue jeans e motocicletas

    Pessoas cinzas normais

    Garotas dentro da noite

    Revólver: cheira cachorro

    Os humilhados do parque

    Com os seus jornais” (Alucinação)

    Mostrou o poder da canção em cativar pessoas e conquistar corações e mentes. A vontade de superar o passado e viver o presente com os olhos no futuro. A força da felicidade como arma para derrotar a solidão e a opressão.

    “O tempo andou mexendo

    Com a gente

    Sim!

    John!

    Eu não esqueço

    (Oh No! Oh No!)

    A felicidade

    É uma arma quente” (Saia do meu caminho)

    Saia do meu caminho (Belchior, interpretada por Margareth Menezes) 

    “Eu quero gozar no seu céu, pode ser no seu inferno

    Viver a divina comédia humana onde nada é eterno

    Ora direis, ouvir estrelas, certo perdeste o senso

    Eu vos direi no entanto

    Enquanto houver espaço, corpo e tempo e algum modo de dizer não

    Eu canto” (Divina comédia humana)

    Não sucumbiu ao deus mercado, ao contrário se impôs. Não cedeu aos ditadores de plantão, resistiu. Sublimou as vicissitudes do seu povo em arte da maior qualidade.

    “Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo

    O mal que a força sempre faz

    Não sou feliz, mas não sou mudo

    Hoje eu canto muito mais” (Galos, noites e quintais)

    Falar da morte de Belchior é impossível fugir do clichê de que ele nos deixou, mas sua obra está tatuada em nosso corpo, em nossa alma, em nosso sangue. Nem por ser clichê deixa de ser verdade.

    Aparências (Belchior) 

    “Aparências, nada mais,

    Sustentaram nossas vidas

    Que apesar de mal vividas têm ainda

    Uma esperança de poder viver

    Quem sabe rebuscando essas mentiras

    E vendo onde a verdade se escondeu

    Se encontre ainda alguma chance de juntar

    Você, o amor e eu” (Aparências)

    Quisera todos pudéssemos transformar nossos fantasmas, nossas dores, medos, alucinações em arte de tamanha qualidade.

    Outro clichê: Belchior vive. Vive nas agruras de brasileiros e brasileiras que sonham construir o novo. Como Belchior cantou "vem viver comigo, vem correr comigo, meu bem"... 

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy