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Sáb, Fev

cultura

  • "A Cultura deve ser central em projeto de desenvolvimento nacional"

    O incêndio que destruiu o Museu Nacional fez intensificar o debate sobre como o Brasil cuida de seu patrimônio. Para o secretário nacional de Cultura do PCdoB, Javier Alfaya, é preciso usar o impacto que este episódio trágico causou para dar sequência a uma ação política capaz de mudar a forma como a administração pública encara a Cultura, uma vez que esta deve ser tratada de forma central para o desenvolvimento nacional.

    Alfaya, que é mestre em Desenvolvimento e Cidades pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), defende que a Cultura deve ser pensada também como uma questão estratégica para o desenvolvimento nacional. Portanto, precisa receber investimentos proporcionais à importância da pasta. Para isso, o orçamento público deve ser gerido de forma a estabelecer uma distribuição equilibrada entre os ministérios. “O orçamento deve ser executado com organização e planejamento, evitando que certas pastas fiquem na condição de pedintes, como é o caso da Cultura”.

    Para o especialista o país não tem condições de implementar um novo modelo de desenvolvimento se determinadas áreas não estiveram articuladas entre si, neste caso, especificamente, ele cita as pastas de Ciência e Tecnologia, Artes e Cultura, Educação e Comunicações. “Elas devem funcionar sem concorrência e sim de maneira solidária, diferente do que acontece hoje”.

    Neste sentido, a prioridade da nova gestão, que vai assumir o governo em 2019, deve ser ativar a economia de forma a “preservar uma poupança nacional e assim destinar 20% do PIB em investimentos, e em segundo lugar assumir uma nova narrativa que não force mais os ministérios a agirem como concorrentes entre si numa disputa pelo orçamento”.

    Biblioteca Nacional

    O Museu Nacional, por exemplo, tinha sua manutenção ligada à Universidade Federal do Rio de Janeiro que passa, atualmente, por um processo de sucateamento sistêmico. Porém, este é um problema crônico que afeta diversos aparelhos públicos de cultura. Alfaya destaca que durante os governos progressistas houveram avanços importantes com a intenção de sanar esta deficiência, mas ainda assim não foram suficientes.

    Em 2009, por exemplo, foi criado o IBRAM (Instituto Brasileiro de Museus), uma autarquia federal vinculada ao Ministério da Cultura. Este é o órgão responsável agora por desenvolver e aplicar a Política Nacional de Museus, cujo objetivo é preservar, melhorar os serviços e ampliar o setor.

    “O pedido de socorro era antigo”

    O acontecimento desastroso e as consequências desse episódio que ficará marcado na nossa memória cultural é a expressão de um processo que se arrasta a décadas, lembra Javier. O governo de Temer, o governo da destruição, de fato tem a maior responsabilidade; mas é um processo que se arrasta há décadas. “A UFRJ pediu verba para resolver a situação crítica, e foi feito um levantamento de inúmeras matérias nos últimos anos sobre a situação do Museu, sobre a luta da Universidade Federal do rio, dos pesquisadores, funcionárias e funcionários. Chegaram a fazer vaquinha digital para combater a presença dos cupins na madeira de um prédio do século 19”, cita, para ilustrar a situação degradante vivida pela instituição.

    “A madeira está muito presente na estrutura desses prédios, usada junto com a argamassa; os pisos também eram de madeira”, conta Javier, arquiteto de formação. Essa estrutura somada com o material altamente inflamável, como papéis e o formol usado para a preservação de matéria orgânica exposta, causou a tragédia. Com todo o seu material irrecuperável, o Museu era uma mescla de universos.

    O grito por socorro pra salvar o museu já era antigo: o desastre era previsível, e foi a prova do descaso atual. Somam-se ainda elementos históricos: “o museu não chegou nessa situação de vulnerabilidade em poucos meses nem em dois anos, foi também um acumulo de problemas de anos anteriores”.

    “Nós estamos falando de um edifício de 200 anos atrás. Ele precisava de cuidados muito especiais, de manutenção continua”, relembra Javier. Ele explica que o Museu Nacional de Belas Artes, a Biblioteca Nacional e o Museu Nacional são uma tentativa da sociedade brasileira, através do Estado, de concentrar a simbologia nacional. “Essas instituições guardam a história social, política, natural e artística do país: essa coleção de referências compõem a história do Brasil, assim como mostram objetos simbólicos da de outros países”, reitera. Esses museus tentam mostrar, de maneira organizada, boa parte da história brasileira e o que constitui a identidade do país.

    A Biblioteca Nacional também carece de cuidados. Nos últimos anos, a fachada do prédio foi reformada porque corria risco de cair. Do lado de dentro, funcionários relatam que o principal problema é a questão elétrica, que não pode ser expandida. Em 2015, um incêndio de grandes proporções tomou o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. O trabalho de recuperação custará ao todo 77 milhões de reais, com dinheiro público e privado, sendo que 22,1 milhões de reais já foram gastos nas primeiras e segundas fases da obra, para a restauração da fachada e do teto, segundo o G1.

    Em 1978, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM) também foi atingido por um incêndio. As chamas se espalharam pelos três andares do pavilhão de exposição e queimaram quase todo o acervo do museu, incluindo obras de Picasso, Salvador Dalí, Matisse, Portinari e Di Cavalcanti, entre outras. Grande parte das obras do grande pintor uruguaio modernista Torres Garcia foram destruídas. nesta ocasião, o prédio era de concreto, o que preservou sua estrutura.

    Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro

    As causas do fogo não foram esclarecidas, mas as investigações apontaram que uma faísca causada por curto-circuito em meio a instalações elétricas em mau estado foi a responsável pelo desastre. Na época, o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) se manifestou dizendo que o incêndio representava “apenas uma das manifestações concretas do processo de negação e abandono da cultura brasileira”. O Museu só reabriu em 1990. Mas, em março deste ano, anunciou a intenção de vender uma obra para a criação de um fundo patrimonial, uma maneira de ajudar a equilibras as contas.

    Se não é incêndio, é chuva. Telhados que caem, água que danifica documentos ou que destrói a tela das pinturas, esculturas que oxidam devido a exposição prolongada. “É a tragédia da falta de manutenção, do trato equivocado, da falta de preparo técnico dos ambientes. Esse é um problema antigo e estratégico a ser resolvido na área da cultura. Museus e casas de cultura não são apenas depósitos de peças para serem mostradas, mas lugares de pesquisa acadêmica e cientifica, de desenvolvimento artístico e atividades pedagógicas”, argumenta Javier; são instituições vivas.

    Com a quantidade de informação que chega da internet, os Museus precisam ser mais dinâmicos, segundo o arquiteto. O público não encontra nas redes a informação tão organizada quanto nos Museus. “Lá o público irá para se divertir, claro, mas irá também refletir, sentir espanto; arte e memória provocam reflexão e espanto. O espanto e a admiração também fazem parte do processo de formação”, completa.

    Reconstrução do Museu Nacional e modelos de administração

    Ainda não se sabe com exatidão qual foi o estrago causado pelo incêndio no Museu Nacional, há esperança de que alguns objetos – dos 20 milhões de itens que eram abrigados na mais antiga casa de pesquisa do país – tenham resistido, mesmo que parcialmente às chamas. A estrutura do prédio, porém, poderá ser recuperada e um novo acervo deverá ser constituído, ao longo do tempo. Alfaya alerta que este novo museu deve ser reconstruído com um sistema tecnológico de forma a evitar novos acidentes. “Obviamente isso não é barato, mas cercas coisas se justificam o investimento, este é o caso do Museu Nacional porque trata-se de uma instituição referência para o país e para a sociedade”.

    Alfaya defende que estes aparelhos estratégicos como é o caso do Museu Nacional, ou da Biblioteca Nacional – que contém objetos fundamentais para a preservação da identidade da nação – devem ser mantidos e administrados pelo Estado. “Devido ao modelo de formatação do capitalismo neoliberal, existe uma onda internacional que prega a gestão privada como melhor solução. Isso é uma mentira. Nós precisamos melhorar a gestão pública direta sobre certos equipamentos [estratégicos]”.

    Segundo o especialista, é necessário, porém, estudar e desenvolver formas de administração híbridas também. Ele cita exemplos de museus e equipamentos de cultura mundo a fora que conseguiram ativar um mercado no entorno a fim de fomentar a economia. “A França é um bom exemplo, eles perceberam o potencial de preservar e fomentar a cultura e hoje fazem disso um mercado importante”, explica, mas faz ressalvas: “apesar de ser um país imperialista”.

    “Existem várias possibilidades de administração possíveis levando-se em conta o que é público e privado, isso é algo que deve ser discutido. É preciso defender mais explicitamente a cultura como elemento de centralidade do projeto de desenvolvimento, e não como enfeite ao lado de coisas sérias; tudo é sério”.

    Fonte: Portal Vermelho, por Alessandra Monterastelli e Mariana Serafini

     

     

  • A cultura bombou neste ano em defesa da democracia, dos direitos e da liberdade

    Os artistas se engajaram na luta contra o golpe. Nomes consagrados e novatos da classe artística saíram a campo contra o governo golpista de Michel Temer. Nenhum artista que ama o Brasil e a justiça esteve fora dessa campanha.

    Contra o obscurantismo se levantaram diferentes vozes para reforçar a importância de consolidação da democracia no país. Com isso, as redes sociais ferveram a favor e contra os artistas engajados na luta pela liberdade.

    Acompanhe alguns eventos de 2017 que mostraram a necessidade da cultura na vida das pessoas:

    O brilhantismo de Caetano Veloso de graça no Largo da Batata neste domingo (10), em São Paulo

    João Bosco ataca ação da PF na UFMG e não admite utilização de sua música

    Artistas iniciam movimento contra a censura às artes. Assista aos vídeos!

    Che Guevara: “Ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética”

    Violeta Parra representa a força da mulher latino-americana contra a cultura do estupro

    Railídia Carvalho lança o seu primeiro disco em Belém do Pará nesta sexta (15)

    Chico Buarque chacoalha a hipocrisia e a ignorância com sua caravana musical

    Gibi sobre Lei Maria da Penha quer formar novos homens e mulheres para acabar com violência

    MPB perde uma das mais valiosas pérolas com a morte de Luiz Melodia

    50 anos: o tropicalismo rompeu barreiras e chacoalhou as estruturas da cultura e da vida

    Rafael Braga ganha exposição no Instituto Tomie Ohtake em defesa de sua liberdade

    Gilberto Gil completa 75 anos brilhando na cultura brasileira

    Artistas homenageiam classe trabalhadora no 1º de maio com postagens contra a reforma trabalhista

    "Era o Hotel Cambridge" mostra a gana do capital em construir e destruir para lucrar

    Assédio sexual não combina com a alegria do carnaval. Saiba como cair na folia sem agredir

    O filme “Eu, Daniel Blake” é um chamamento à ação revolucionária

    Portal CTB

     

     

  • Abertura oficial da Bienal emociona estudantes no palco do Teatro Castro Alves

    Por Cristiane Tada

    Uma noite de muitas emoções na quarta-feira (06/2) deu a largada da bienal das bienais, a 11ª Bienal da UNE – Festival dos Estudantes, em Salvador (BA). Com o teatro Castro Alves, repleto, a presidenta da UNE, Marianna Dias deu as boas-vindas.

    “Salvador é uma cidade histórica para o movimento estudantil e é aqui que saudamos todas as delegações, de todos os estados, que vieram para o nosso festival. Viva o Nordeste, viva o Sudeste, viva o Norte, viva o Sul, viva o Centro Oeste, viva a décima primeira Bienal dos estudantes!”.

    Foi exatamente aqui, na capital da Bahia, que foi realizada a primeira Bienal, há 20 anos atrás, em 1999. Foi também aqui que UNE foi reconstruída há 40 anos depois de perseguida e levada à clandestinidade.

    Mancha de dendê

    O vice-reitor da Universidade Federal da Bahia, Paulo Miguez, foi responsável por um dos momentos mais emocionantes da noite que levou Marianna às lágrimas. Ele levantou seu crachá de delegado do 31º Congresso da UNE, em maio de 1979. “Como bom baiano eu diria que essa lembrança é uma mancha de dendê não sai nunca. Eu queria dizer com esse gesto de memória expressar um momento tão especial como esse e mostrar confiança que deposito em cada um de vocês, em cada jovem brasileiro. Eu sei que vocês irão defender o direito inegociável à universidade publica brasileira”.

    Este ano é a primeira vez que festival reúne secundaristas, universitários e pós-graduandos.  O presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), Pedro Gorki, destacou essa união histórica nesse momento de resistência da história do nosso país. “A Bienal cumpre a função de inaugurar o período de lutas que os movimentos sociais do Brasil terão pela frente no ano de 2019. Aqui estamos, estudantes, artistas, ativistas, militantes, unidos na defesa da democracia e dos direitos, na defesa da educação e da cultura, contra a censura e a mordaça, pela liberdade do nosso país”.

    A presidenta da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), Flávia Calé, também reforçou a unidade.  “Vamos reconstruir a unidade do nosso povo, celebrar a diversidade cultural do Brasil, e fortalecer os nossos laços e as nossas forças”.

    O patronato Gilberto Gil

    A aula show do homenageado máximo da noite, Gilberto Gil, foi um formato de perguntas intercaladas com música. A escritora Ana de Oliveira mediou a conversa entre o ex-ministro da Cultura e os estudantes da UNE.

    Ele respondeu sobre o passado e sua militância, bem como comentou a conjuntura política do Brasil e do mundo. Gil também foi homenageado como patrono do Cuca da UNE, e recebeu um quadro com a arte oficial do evento feito pelo artista Elifaz Andreato.

    “Eu sou contemporâneo da infância da UNE do movimento em que os estudantes se agregaram nessa forte inconstitucionalidade que se tornou o movimento estudantil que eu participei naquele início. Muito da minha formação da minha capacidade de compreensão da dimensão cidadã, muito disso veio da militância junto a UNE, junto ao Centro Acadêmico”, afirmou. E completou generoso: “Eu sou não só grato, mas devedor da UNE, por tudo isso que me deu”.

    Para o músico essa geração é beneficiada por um longo tempo do que chamou de “exercícios libertários”. “Quiséramos ter naquela época, 40, 50 anos atrás o grau de autonomia que vocês tem hoje, o grau de compreensão sobre a complexidade, sobre a paradoxidalidade dessas coisas que vocês tem hoje que já podem reconstituir de fato uma trans-esquerda”, afirmou.

    E se identificou com a juventude. “Quando jovem eu tive os mesmo impulsos, as mesmas esperanças, as mesmas atitudes desafiadoras que vocês jovens tem hoje. Vocês hoje são mais cultos e mais experimentados. O tropicalismo almejou tudo isso, expandir a compreensão sobre o mundo”, afirmou.

    Ele finalizou a noite empolgando a plateia com a canção vencedora dos festival da Record de 1967 e talvez uma das suas músicas mais famosas: Domingo do Parque.

    Programação

    Desta quinta até domingo ocorrerão mais de 90 atividades, incluindo debates, conferências, oficinas, visitas guiadas, lançamentos de livros, vivências criativas, uma feira de economia solidária, atividades relacionadas a todas as áreas de interesse da juventude. Nas mostras estudantis selecionadas, a Bienal apresenta mais de 270 trabalhos, com destaque para as áreas da música, audiovisual, literatura, artes cênicas, artes visuais, extensão, ciência e tecnologia. Nas atrações culturais artistas como Baiana System, Atoxxxa, Djonga, Francisco El Hombre, além de uma grande culturata de blocos de carnaval como o Ilê Ayê, Banda Didá e Filhos de Ghandy.

    Fonte: UNE

  • Renata Mielli: a censura a serviço do adestramento social

    “Não escute o mal, não fale o mal, não veja o mal.” Arte de Keith Haring

    Um dos dispositivos mais efetivos para exercer controle sobre a sociedade é o cerceamento à liberdade de expressão.

    A restrição das manifestações culturais, das ideias, opiniões e informações que circulam na sociedade pode se dar de várias formas: pela concentração dos meios de comunicação na mão de grupos que compartilham dos mesmos valores e interesses, pelo ocultamento das divergências, das lutas e expressões culturais, pelo uso da violência para impedir a livre manifestação do pensamento, pela censura jornalística e cultural, pela perseguição ideológica.

    Todos estes elementos estão presentes na sociedade moderna, em alguns momentos de forma mais latente, em outros de forma mais explícita, a depender do contexto político de cada período histórico.

    A construção de uma sociedade democrática é a busca de um equilíbrio entre as várias estruturas de poder nela existentes: mídia, judiciário, economia, política, cultura, religião.

    A convivência racional entre estas esferas da sociedade – na busca de uma harmonia entre as diferenças, que se chocam dentro de um relativo contexto de respeito e tolerância – é o que permite o Estado Democrático de Direito e, consequentemente, a vigência da democracia.

    No entanto, quando por motivos econômicos e políticos esse equilíbrio é desfeito, quando uma ou mais destas estruturas de poder passa a se sobrepor ou determinar as regras sociais, a democracia se vê ameaçada. A quebra deste equilíbrio, que antes se dava pela força bruta, agora se dá através de instrumentos aparentemente democráticos para lhe conferir uma legitimação.

    E é exatamente esta situação que o Brasil vive hoje. O sistema da Justiça e a mídia passaram a atuar de uma forma mais aberta para deslocar o equilíbrio social, usando um das competências jurídicas, e outro do monopólio do discurso para interromper um processo político e social que vinha sendo construído no país.

    Essa construção se dava pela escolha livre e soberana dos governantes, pelos instrumentos de participação social criados para garantir que a sociedade pudesse contribuir com a construção de políticas públicas e com a ampliação, mesmo que precária, do debate público.

    Nesse processo, Justiça e Mídia criam um ambiente de supressão de direitos, mesmo que sob a forma de defesa destes, que levam à restrição da democracia.

    Isso é fundamental para controlar a reação da sociedade às medidas de retirada de direitos sociais, trabalhistas, de desmantelamento do Estado, com as privatizações e a desnacionalização da economia.

    Neste ambiente, a liberdade de expressão é um dos primeiros direitos a serem comprometidos. O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) tem alertado, desde o golpe que tirou Dilma Rousseff da Presidência da República, para o preocupante aumento nos casos de violações à liberdade de expressão.

    Percebendo que num contexto de ruptura da soberania do voto popular, o governo que assume o país não têm qualquer compromisso com os interesses sociais e há inevitavelmente uma suspensão da democracia, o FNDC lançou em outubro de 2016 a campanha Calar Jamais!, para receber e dar visibilidade às denúncias de violações à liberdade de expressão.

    Em um ano de campanha, divulgamos mais de 70 casos de violações. Praticamente uma denúncia a cada três dias úteis entre 18 de outubro de 2016 a 18 de outubro de 2017. Estes casos são alguns dos que foram noticiados, denúncias e dos quais a sociedade pôde, de alguma maneira, tomar conhecimento. Mas não seria demais afirmar que possivelmente mais de uma centena de outros casos devem ter ocorrido e, dos quais, não tomamos conhecimento.

    Esse quadro mostra que, sem um Estado garantidor de direitos, a democracia fica asfixiada. E este quadro não poderia ser diferente, uma vez que o aparato público está a serviço da supressão de direitos para impôr uma agenda política e econômica que representa os interesses de uma minoria contra a ampla maioria do povo.
    Nestes momentos, ganham mais espaço exatamente as agendas conservadoras, que são em sua essência punitivistas e cerceadoras das liberdades. O que temos visto no campo da Cultura, com os ataques à exposições em museus, o discurso moralista contra o corpo e sua representação, a discussão da “Escola Sem Partido” e o exacerbamento dos preconceitos é fruto deste desarrajo na harmonia entre as estruturas de poder.

    Essas posturas não se dão por acaso. Elas são conscientemente construídas para dar um sentido cultural e social para o período de restrição democrática. Não são as “carolas” que precisamos combater para enfrentar esse quadro de cerceamento das liberdades, é o discurso organizado das estruturas de poder que querem impôr um modelo político, econômico e social.

    A questão que precisamos enfrentar é que a supressão de direitos fundamentais – entre os quais a liberdade de expressão – se dá a partir de instrumentos aparentemente legais e de proteção.

    Afinal, o ataque à Cultura está se dando pelo discurso de que é preciso “proteger a infância”, a repressão aos protestos se dá pelo viés da manutenção da ordem (lema autoritário resgatado pelo presidente imposto), a censura contra comunicadores, jornalistas e veículos de comunicação se dá pelo argumento do combate à injúria, calúnia e difamação, e assim vai se construindo uma simbologia legal e socialmente aceitável para atacar a democracia e os direitos.

    Para enfrentar este cenário é preciso muita luta, denúncia e diálogo. Insurgência social para reestabelecer o interesse público, para retomar nas mãos do povo os mínimos instrumentos de democracia formal. Denúncia das violações aos direitos fundamentais.

    Precisamos usar todos os canais existentes para denunciar as violações à liberdade de expressão, para mostrar para o mundo os retrocessos civilizatórios que estão impondo à sociedade – retorno do trabalho escravo, perseguição a cultura e à educação, impedimento do livre exercício do pensamento, livre circulação de ideias, opiniões e informação na sociedade. E diálogo com o povo. O povo precisa sair da hipnose catártica em que está imerso, precisamos discutir com as pessoas, das mais simples as mais ilustradas, o sentido dos movimentos conservadores e das ações do governo.

    O FNDC, além de sua luta histórica pela democratização da comunicação, busca dar a sua contribuição neste momento através da Calar Jamais!. Reunimos em um relatório – divulgado no último dia 17 de outubro, em Salvador, nos marcos das atividades da Semana Nacional pela Democratização da Comunicação – 66 casos de violações à liberdade de expressão recebidas pela campanha no último ano.

    Como diz a apresentação do relatório, o objetivo do FNDC foi “transformar estatísticas em pessoas, olhar caso a caso os abusos e as violações que tomaram conta do nosso país no esteio do avanço do conservadorismo e da negação de direitos constitucionais conquistados com muita luta há 30 anos”.

    Dar voz aos Eduardos, Matheus, Edvaldos, Caios, Madalenas, Teresas, Alessandras, Reinaldos e, a partir desses casos, tentar impedir que essa escalada de violações continue no nosso país.

    Renata Mielli é jornalista, coordenadora geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação e secretária geral do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé. Colunista da Mídia Ninja às quintas-feiras.

  • Se as pessoas soubessem como funcionam as coisas no Brasil fariam a revolução; assista

    O ex-banqueiro, Eduardo Moreira afirmou em entrevista à Rádio Jovem Pan, no dia 19 de julho, que “os bancos fazem uma covardia” no Brasil. “os cinco maiores bancos cobram de tarifa por ano mais de R$ 130 bilhões”.

    Para ele, “hoje em dia no Brasil, se as pessoas soubessem como funcionam as coisas, os pobres e a classe média fariam a revolução”. Mas “somos uma sociedade rasa, debatedora furiosa de manchete de Facebook”.

    Como comparação conta que o orçamento anual do Ministério da Saúde corresponde a R$ 130 bilhões, do Ministério da Educação é R$ 120 bilhões e da Cultura, R$ 2 bilhões anuais. Para ele, o sistema tributário brasileiro é uma “máquina de concentração de riqueza”.

    Assista esse trecho da entrevista de Eduardo Moreira

    Moreira, que também é economista, diz que “os ultra-ricos do Brasil pagam em média 6,9%” no Imposto de Renda Pessoa Física. Isso mostra que “o Brasil é um paraíso fiscal”, realça. “O sistema de impostos no Brasil é um crime”.

    Diz ainda que os bilhões que os ultra-ricos ganham “lá na frente, vêm da pobreza” e por isso, o Brasil é o país onde os 1% mais ricos são os maiores concentradores de renda no mundo. Assinala ainda que 50% dos impostos aqui incidem sobre bens e serviços.

    O ex-banqueiro compara a conjuntura nacional com magia. Ele conta que fez um curso de mágico e “sabe qual é o truque da mágica?”, pergunta? E responde que “é atrair a atenção das pessoas para tudo o que não tem a menor importância”. Aí questiona se não é isso o que o poder faz.

    Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB