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O Congresso do Paraguai em chamas atiçou os ânimos na América Latina. Horas depois os manifestantes foram identificados como ligados, majoritariamente, ao Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), o autor do golpe de 2012 contra Fernando Lugo, e a setores do Partido Colorado, o mesmo do presidente Horácio Cartes. Ou seja, é uma disputa de oligarquias. A atitude irresponsável resultou na morte de um jovem, destruição do edifício, e pode causar nova instabilidade política.

Tudo começou na quarta-feira (28), quando em sessão extraordinária no senado, 25 senadores, entre eles membros do Partido Colorado e da Frente Guasu – a coalizão de partidos de esquerda presidida por Fernando Lugo – aprovaram por unanimidade a mudança do regulamento interno do Senado para facilitar a aprovação de um referendo constitucional para permitir a reeleição de ex-presidentes. A medida permitiria que o presidente deposto com um golpe em 2012 se candidatasse novamente, e também que o atual mandatário, Horário Cartes, concorresse à reeleição.

O PLRA, autor do golpe de 2012, se enfureceu com a aprovação da matéria, afinal, contava com vitória certa nas eleições de 2018 sem ter Lugo e Cartes na disputa. Correntes do Partido Colorado declaradas “anti-Cartes” também repudiaram a votação. Setores progressistas e a extrema-esquerda acusaram o ex-presidente da Frente Guasu de “se aliar à direita”.

Em todas as pesquisas de intenção de voto realizadas nos últimos meses Lugo aparece em primeiro lugar. Mas não é de hoje que a Frente Guasu planteia a mudança constitucional. Aprovar a reeleição seria a única forma do presidente deposto, de alguma maneira, dar continuidade a seu mandato interrompido com o golpe de Estado.

Truculência, uma marca da oligarquia paraguaia

A história do Paraguai é marcada por golpes de Estado e violência extrema contra movimentos sociais e setores progressistas. Não à toa o país teve um das mais longas ditaduras do continente e um único partido – o Colorado – permaneceu 62 anos consecutivos no poder. Não causa espanto que uma vez mais a direita tenha excedido todos os limites para impor sua posição no jogo político. É disso que se trata o incêndio no Congresso na última sexta-feira (31).

A polícia paraguaia é famosa pela truculência com a qual reprime manifestantes. Mas estranhamente não agiu assim na noite de sexta-feira, quando cerca de 800 pessoas ameaçavam avançar contra o Congresso Nacional. Em pouco tempo o grupo conseguiu invadir o prédio, depredar os gabinetes dos senadores e atear fogo sem que a polícia fosse capaz de conter a mobilização. Em seguida, o Corpo de Bombeiros, que no Paraguai é uma junta voluntária, foi impedido pelos policiais de agir no local imediatamente para conter o incêndio e a grande mídia não demorou para atualizar suas manchetes com chamadas do tipo “O país está em chamas”. Desde o começo, parece faltar uma peça nessa história.

Em nota, a Frente Guasu denunciou se tratar de um grupo formado essencialmente por membros de torcidas organizadas contratado para atear fogo no Congresso. A ação, segundo a coalizão, foi anunciada durante meses por setores da extrema direita que ameaçavam “provocar rios de sangue se aprovada a convocação de um referendo e se expresse assim a vontade popular sobre a possibilidade de que Fernando Lugo, assim como outros ex-presidentes, possa ser candidato à presidência da República”.

Foi assim em 2012, quando uma semana antes do golpe, o chamado Massacre de Curuguaty causou comoção nacional e serviu de argumento para a direita impulsionar a deposição de Fernando Lugo. À época, a polícia invadiu um assentamento sem terra e assassinou 11 camponeses, durante a ação, seis policiais também foram mortos – e anos depois ficou claro que os agricultores não foram responsáveis por estes crimes, mas ainda assim foram condenados, atualmente eles recorrem em cortes internacionais para tentar reverter a pena.

Como aconteceu em 2012, este episódio de violência da última sexta-feira que resultou na morte do jovem liberal Rodrigo Quintana, de 25 anos, assassinado pela polícia dentro da sede do partido com um tiro na cabeça, pode gerar um novo momento de instabilidade política. A ação da direita paraguaia pode culminar novamente em intervenções maiores, cujo argumento já é batido: “reestabelecer a ordem”.

Esta extrema-direita tem como principais líderes o ex-vice-presidente de Lugo, principal “beneficiado” com o golpe de Estado, Federico Franco e Efraín Alegre, ambos membros destacados do PLRA. Além disso, correntes stronistas - seguidores do ditador Alfredo Stroessner (1954-1989) – do Partido Colorado. Horácio Cartes nunca foi um membro expressivo dos Colorados e sua candidatura nem sempre foi bem vista por todos os seus companheiros de sigla. Com a chegada dele ao governo, em 2013, as disputas internas se acirraram e cada vez mais nota-se o crescimento de uma corrente “anti-Cartes” que endossa a campanha contra a reeleição presidencial para evitar a continuidade dele no cargo.

Lugo contra-ataca

Imediatamente após a destituição forçada da presidência, Lugo acumulou forças para continuar na vida política sem deixar seu partido ser descartado do jogo. Já nas eleições de 2013 concorreu ao Senado e venceu e desde então vem construído sua volta ao cargo de presidente.

Mesmo anos depois de deixar a presidência, a presença de Lugo causa um grande impacto no país, por onde ele passa, todos querem se aproximar abraçar, conversar, tirar fotos. Nas pequenas cidades do interior, o ex-bispo é aindamais aclamado. Seu governo deixou marcas, mesmo que tímidas, de avanços democráticos até então desconhecidos no país.

Não à toa, em todas as pesquisas eleitorais realizadas recentemente Lugo aparece muito bem posicionado. Mas de acordo com a Constituição paraguaia, não poderia se candidatar novamente, mesmo tendo sido impedido de concluir seu mandato por meio de um golpe de Estado. Por isso a Frente Guasu se uniu aos parlamentares colorados para aprovar a mudança constitucional. Esta seria a única forma de disputar a presidência e contribuir para o fortalecimento do campo progressista no continente. Entretanto, o preço a ser pago é, além de apoiar a mesma emenda na Constituição defendida pelo partido que permaneceu seis décadas no poder, correr o risco de não derrota-lo nas urnas em 2018.

Por Mariana Serafini, no Portal Vermelho 
Foto: Claudio Ocampo/ABC Color

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