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Quando movimentos sociais, organizações sindicais e partidos políticos de centro-esquerda vão às ruas protestar e reivindicar seus direitos, são chamados por boa parte da imprensa de baderneiros. Quando ‘coxinhas’ bloqueiam a Paulista sem prévia autorização por mais de 40 horas, são tratados como manifestantes.

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Foto: André Penner/AP

Um manifestante protesta na Avenida Paulista, em São Paulo, contra o governo e a nomeação do ex-presidente Lula como ministro-chefe da Casa CivilUm manifestante protesta na Avenida Paulista, em São Paulo, contra o governo e a nomeação do ex-presidente Lula como ministro-chefe da Casa Civil O papel da imprensa livre, imparcial e independente é fundamental em todas as sociedades. Todavia, existe uma diferença brutal desses valores (liberdade, imparcialidade e independência) entre as sociedades desenvolvidas e democráticas comparativamente àquelas sociedades onde a imprensa cumpre um papel exatamente no sentido oposto ao que dela se espera.

Basta ter apenas dois neurônios em perfeita atividade para observar que a grande maioria da imprensa brasileira faz parte desse segundo grupo, muito embora seus discursos sempre procurem corroborar com os valores universais anteriormente mencionados.

No momento em que a sociedade brasileira vive um clima de conflito político cotidiano, em grande medida estimulado por uma imprensa com aquelas características do segundo grupo, é importante recordar o comportamento em episódios recentes que tiveram tratamentos muito distintos. E essa distinção não pode ser dissociada da luta política em curso no país, onde a grande imprensa optou por ter seu lado nessa luta.

Desde o período pós-democratização do país nota-se que essa grande imprensa sempre procurou modelar a sociedade de acordo com seus interesses, ao criar padrões de costumes e de valores de certa casta social como se eles fossem universais e perpassassem a todos as demais classes sociais.

Porém, num determinado momento histórico em que outros segmentos se sentem empoderados e passam a reivindicar seu lugar na sociedade, rapidamente aqueles valores universais são jogados no lixo e o que prevalece é o jogo truculento e quase imperial de uma imprensa que tem de tudo, menos o valor da imparcialidade. Sua narrativa passa a ser então a narrativa das classes dominantes e de seus valores econômicos, políticos, sociais e culturais.

Vejamos como isso está presente na cobertura de duas atividades políticas semelhantes. Quando movimentos sociais, organizações sindicais e partidos políticos de centro-esquerda vão às ruas protestar e reivindicar seus direitos, normalmente são tratados pejorativamente por baderneiros, especialmente por uma parte de comentaristas que falam raivosos impropérios para desqualificá-los perante o grande público.

Isso é patente especialmente com relação aos movimentos sociais mais expressivos, como tem sido sistematicamente o tratamento linear dado ao MST. Se este ou outro movimento qualquer bloquear uma via pública, imediatamente se invoca o direito de ir e de vir de todos, o qual está sendo impedido pelos “baderneiros”.

Todos aqueles que não são plasmados pelos discursos simplistas que se espraiam pelas chamadas “redes sociais” sabem os nomes das figurinhas conhecidas a que estou me referindo.

No conflito político atual, o tratamento é bem distinto e pautado pela parcialidade. Refiro-me aos atos dos “coxinhas” que, desde a noite do dia 16.3.2016, bloqueiam as duas pistas da Avenida Paulista em São Paulo.

A eles a “imprensa imparcial” está dando o tratamento de “manifestantes” e não se ouviu uma única voz das figurinhas conhecidas dessa mesma imprensa invocar o direito de ir e de vir de todos. E por que isso ocorre desta forma? Exatamente porque aqueles “manifestantes” são, em grande parte, a massa de manobra dessa mesma imprensa que, em conluio com setores do poder judiciário e do empresariado, estão amadurecendo um golpe político-institucional contra um governo legitimamente eleito e sobre o qual não paira nenhuma acusação, além da choradeira em curso desde a derrota eleitoral de outubro de 2014.

Chamam atenção os atos de barbárie que estão sendo praticados por parte desses “manifestantes” desde a noite da última quarta-feira (16.3.16) e que estão sendo divulgados pelas redes sociais e por canais alternativos. Mas nada disso é relevante para a imprensa oficial do golpe, pois o que importa mesmo é que essa massa de desinformados permaneça fiel aos seus propósitos. Para tanto, eles precisam ser bem tratados, afinal eles estão lá defendendo os “interesses do país”.

Neste processo merece registro também o papel das autoridades do Estado de São Paulo, cujo governo também está totalmente envolvido com o golpe político. Assim, 24 horas depois de os coxinhas obstruírem a via pública, nenhuma medida efetiva foi tomada, a não ser o jogo de cena promovido pelo secretário de segurança do governo estadual que passou pelo local e foi rapidamente embora. Não há dúvida de que se tal ato tivesse sido protagonizado pelo MST ou por qualquer outro movimento social ou sindical, certamente a tropa de choque da Polícia Militar (1) já teria desobstruído a via pública em nome do direito de todos de “ir e vir”.

Este jogo de cena entre imprensa golpista e governo paulista fica evidente quando o secretário de segurança do estado chama exatamente a imprensa “imparcial” para afirmar que houve uma negociação e que a “desocupação” iria ocorrer às 11h30 do dia 17.3.2016, fato que não se comprovou, porque, mesmo que os manifestantes não tivessem autorização, a PM nada fez até o final do dia quando escrevo estas notas (17).

O mais intrigante é que a própria PM afirmou que não havia nenhuma ordem de permissão para aqueles protestos. No entanto, os “defensores do país” continuavam lá de punhos erguidos e prontos para a guerra, conforme o registro fotográfico que ilustra este texto.

E assim o fascismo prospera à sombra da lei e com os beneplácitos da “imprensa imparcial” !!!!!

(1)Talvez a PM de SP não tenha tempo porque está ocupada invadindo reuniões sindicais para saber se estão organizando atos de protestos em defesa do presidente Lula.

Lauro Mattei é professor do curso de Ciências Econômicas e do Programa de Pós-Graduação em Administração, ambos da UFSC, além de coordenador do NECAT-UFSC e Pesquisador do OPPA (CPDA/UFRRJ).

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