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Sex, Set

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Então, o maior dos delatores trucou.

Ao contrário da impressão corrente, não é o juiz o ápice do desbalanceamento dos poderes da República. Seu poder foi corroído pela vaidade que aprisiona, pela chantagem, pelo que não se vê. Também o judiciário é refém. Há poderes ocultos. Não se trata, apenas, de um poder – o judiciário - sobre os demais – legislativo executivo. Todos sabemos do quarto poder, a mídia monopolista, redesenhando o país sob o esquadro dos piores pesadelos. E é esse poder oculto/descarado, que é o porta-voz da chantagem, irmã siamesa da delação.

O quadro tem se tornado cada vez mais triste desde que o voto do povo deixou de valer. Só os “grandes eleitores” decidem o futuro do país e contra a maioria do povo. Vale o voto desse congresso, em que só uma minoria defende o povo, minoria esmagada pelos ladrões de direitos e guardiões de privilégios. Os trabalhadores pagam alto preço por não elegerem seus representantes. Rasga-se a CLT. Acabam com a previdência pública e a aposentadoria popular. Desemprego às centenas de milhares e aos milhões, quando, no passado recente, tivemos menos de 6% de desemprego. São pais e mães de família, crianças, indo viver nas ruas, empurrados ao desespero, às humilhações, ao risco, à violência, à fome.

Estão sabotando a Petrobrás, entregando o Pré-sal aos estrangeiros, vendendo empresas estatais, rasgando direitos, matando os indígenas, tudo contra os pequenos, os pobres. E essa hecatombe só se explica por um quinto poder, o mais oculto, incensado e cruel. Sobre tudo e todos, o poder do rentismo e seu apetite pantagruélico, que lucra com cada desemprego, com a destruição das empresas, com a PEC dos gastos, porque o rentismo especulativo lucra sempre e cada um de nós pode sentir seu toque funesto quando conta o quanto os juros comem das nossas vidas. Cada um de nós paga juros imorais e o Governo federal destina metade de seus recursos ao pagamento desses mesmos juros. Essa é a mãe de todas as corrupções, a mãe de todas as chantagens. E é a explicação do caráter pusilânime de nosso empresariado, em pútrida parasitose no corpo da Nação, através da corrução e da ciranda financeira da especulação em torno da dívida pública. Essa é a nova pirâmide social que pretendem, em que não cabe o povo, a democracia é abolida, e a black friday Brasil continua, inclemente.

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Temer já era objeto da descrença geral, dada sua pequenez. Ainda assim, ousou entronizar-se como o instrumento do Golpe, do retrocesso, da conspiração pelo desmonte da República graças à cobiça das oligarquias, da imprensa golpista, dos especuladores vorazes. Mas não está disposto, no fim da vida, a ser imolado, sozinho. Desafiador, falou não para o público, mas para o privado, quem tiver ouvidos, ouça. Tendo vivido tanto os meandros do poder, é preciosíssimo e ameaçador arquivo vivo e, por isso mesmo, jamais abandonaria sua segurança - até pessoal. Comprou centenas de votos de parlamentares à vista de todos e com o apoio do PIG, para depor uma Presidenta honesta, Dilma. Suas relações carnais com a imprensa golpista e com o mercado financeiro não são menores. Ele disse e foi entendido: Não vai sozinho. No ápice do executivo tem a maior margem para operar o que seja.

Daí a ironia: é o delator e a imprensa golpista que têm os sabres na mão. É esse o poder absoluto de delatar, chantagear e trair a que chegamos, tristemente. Uma república policial, judiciária, mas sobretudo midiática e rentista. No futuro, poderá ser chamada de República dos Delatores. Ou República X9, República do dedo duro, ou ainda, a República dos Alcaguetes.

Mas a justa revolta não pode esquecer é que, se há implosão, há quem aperte o botão, e não é o povo. A dissolução da política é a escada para o fascismo. A corrupção não pode ser combatida com pirotecnia, hipocrisia, parcialidade, dissociada do projeto nacional e democrático. Corrupção não se combate com exportação de commodities, mas com desenvolvimento. Corrupção se combate com democracia, com controle social, com redução das desigualdades. E a política só se legitima como expressão da soberania popular.

O golpe, dentro do golpe, dentro do golpe, dentro do golpe, infinitamente, é o caminho para destruir a participação política, negar a soberania popular, entregar o poder supremo aos rentistas, oligarcas, verdugos e à imprensa golpista. E nesse trono de lama, ainda, está Temer, o seu “herói”. E, numa república de delatores, o poder dado a quem aponta – não esqueçamos - destina-se a, primeiramente, preservar a si próprio por crimes cometidos. E, em segundo lugar, às vinganças. São tais os interesses inconfessáveis capazes de destruir a democracia, a economia, a soberania nacional e o futuro do país. No trono de lama, o supremo delator recusa-se a deixar a ribalta. E o Brasil olhou pra si e viu o beco sem saída a que chegou. Nessa hora, tão soturna, do fundo d´alma da Nação, tão agredida e humilhada, quatro palavras singelas gritaram, com a liberdade que nos resta: Fora Temer! Diretas Já!

O povo precisa ser chamado a escolher seu destino. E às forças democráticas, patrióticas e populares, cumpre o dever de refundar sua utopia, projetos e unidade, para serem dignas de conduzir o país para longe desse abismo. E, dessa vez, sem as ilusões sobre mudanças profundas sem rupturas. Não há vitória assegurada. Só uma ampla unidade poderá abrir caminhos para um tempo novo. E, ainda assim, o desmonte havido, por suas proporções, obriga a ajustar contas com o rentismo, os especuladores, e a imprensa golpista.

A soberania popular, a defesa da democracia, a possibilidade de decidir de modo limpo o futuro do país, eis a frágil esperança para sair do labirinto pútrido do poder de poucos. Não nos confiemos no papel de espectadores das conspirações palacianas, recusemos o circo dos horrores da imprensa golpista contra a democracia e a Nação, reunamos todas as forças que lutem pela democracia no Brasil ameaçado. E que o povo decida.

Paulo Vinicius (PV) é dirigente da CTB-DF e secretário de Política Sindical do Sindicato dos Bancários/DF.


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