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Ter, Jun

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Na última segunda-feira (7), a Comissão Nacional da Verdade (CNV) realizou uma audiência pública na data em que foram completados os 50 anos do Massacre de Ipatinga (MG), onde funcionários da Usiminas foram duramente reprimidos por protestarem contra a violência da policia e seguranças da empresa contra os trabalhadores.

Na oportunidade, 18 vítimas e testemunhas deram seu depoimento no caso que é investigado pela CNV. O evento foi co-organizado pelo Fórum Memória e Verdade do Vale do Aço e teve a participação da Comissão da Verdade do Estado de Minas Gerais que cooperará nas apurações.

"O Massacre de Ipatinga foi legitimado pelos governos militares, pois foi na ditadura que o que foi apurado no inquérito policial militar foi julgado e os policiais indiciados, absolvidos", afirmou Rosa Cardoso, coordenadora do grupo de trabalho ‘Ditadura e Repressão aos Trabalhadores e ao Movimento Sindical’- composto por representantes da CTB, CGTB, CSB, CSP-Conlutas, CUT, FS, Intersindical, NCST e UGT- responsável pela investigação sobre o massacre.

Segundo a integrante da CNV e coordenadora do GT, Rosa Cardoso, o caso é exemplar para a história do movimento operário e da classe trabalhadora brasileira, pois aprofunda o caráter de classe da ditadura e o quadro de injustiça social do golpe que ocorreu meses depois. “Os trabalhadores eram tratados como animais naquela época, mas hoje continuam sendo tratados como cidadãos de terceira classe. Se o massacre tivesse ocorrido contra a classe média, o tratamento que ele teria recebido seria completamente diferente", afirmou.

Membro da Comissão da Verdade de Minas Gerais, o ex-metalúrgico e jornalista Jurandir Persichini Cunha sentiu três vezes a violência: primeiro como testemunha da violência nos alojamentos, depois ao escapar dos tiros na porta da siderúrgica e, pela última vez, como jornalista sindical. "Em 1967, trouxe de Belo Horizonte para Ipatinga exemplares do jornal A Verdade, com matéria sobre os 4 anos do massacre. Por isso, fui preso e torturado", afirmou.

Traumas 

Lutar todos dias com a lembrança e sobreviver foi o resumo da vida da professora Eva Reis. "Eu era a filha do homem que morreu na greve. Foi assim que eu fui conhecida durante muitos anos", contou. Ela é filha de Antônio José dos Reis, morto com um tiro na nuca quando fugia do local em que tombaram a maior parte dos mortos oficiais, no antigo portão dois da Usiminas. "Não é uma alegria estar aqui. É um sofrimento, mas é um compromisso. E eu acredito que quando a gente faz uma reflexão sobre a história, a gente não pode modificá-la, mas pode mudar o presente".

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Aloísio Souza de Jesus e Cruz só descobriu o massacre em 2005, quando saiu à procura da família de seu pai, em busca de suas raízes. Pela mãe soube apenas que o pai, que havia deixado a família em busca de melhores condições de vida teria morrido nas mãos de um sargento. Após muita pesquisa encontrou na Bahia duas testemunhas da morte do pai dele, Jesulino França de Souza. Eles contaram que Souza foi executado por um PM durante a fuga dos trabalhadores da usina após os disparos. O corpo da vítima, entretanto, nunca foi encontrado e não faz parte da lista oficial de mortos no massacre. Na sua busca, Aloísio descobriu que inúmeros nordestinos deixaram Ipatinga após a chacina com medo da violência da empresa e da polícia.

Respostas e Dúvidas 

A Usiminas e a Polícia Militar de Minas Gerais foram chamadas pela CNV para prestar esclarecimentos na audiência. O representante da companhia siderúrgica, privatizada em 1991, Afonso Celso Flecha de Lima Álvares não respondeu as questões da Comissão e da Comissão da Verdade de MG, mas disse que a empresa está comprometida em ajudar. "A Usiminas não se furtará a prestar informações e já pedimos que o RH e os arquivos façam uma busca em torno de documentos que possam esclarecer os fatos", disse Álvares.

De toda forma, Alvares levou para a empresa a lista de pedidos de informações da CNV e a Comissão de MG: lista dos 47 feridos diretamente contratados pela Usiminas, lista dos feridos atendidos no ambulatório da Usiminas, nota fiscal dos caixões comprados pela empresa e os pedidos de sangue para as vítimas nos hospitais, lista de empresas terceirizadas que trabalhavam para a Usiminas na época, arquivos da vigilância privada da Usiminas, lista de contratos e acordos da empresa na época, cópias de escrituras de todas as áreas relacionadas ao massacre, arquivos produzidos em 63 e posteriores, que continuam na empresa, sobre o massacre.

Já o coronel Eduardo César Reis, representante da Polícia Militar, entregou à CNV cópia do inquérito policial militar que tramitou entre 1963 3 1964. Segundo o coronel, a Polícia Militar de Minas Gerais indiciou 20 policiais no IPM e encaminhou os resultados da investigação à Justiça Militar em 1964. Nenhum policial, porém, foi condenado pela Justiça.

A CNV fez também uma série de requisições à PM. O objetivo dos pedidos feitos ao comando da PM e à companhia é tentar obter mais informações sobre o massacre. Sabe-se que pelo menos 32 caixões foram encomendados pela companhia, pois uma testemunha relatou isso ao jornalista Marcelo Freitas, autor do livro "Não Foi por Acaso", sobre o morticínio.

Entretanto, alguns dos depoimentos prestados à CNV indicam que o número de vítimas pode ser muito maior e que a violência na empresa não se restringiu ao seu período de formação da Usiminas e que houve muitas prisões e monitoramento após a implantação da ditadura.

Esta ação faz parte dos atos únitários promovidos pelo GT dos Trabalhadores com a CNV, os próximos eventos ocorrerão em São Bernardo do Campo (SP), Santos (SP) e Osasco (SP). 

Com informações da Comissão Nacional da Verdade 

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