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Ter, Maio

burguesia

  • O Conselho de Segurança da ONU analisa nesta quinta-feira (28) duas propostas antagônicas sobre a Venezuela, uma contra e outra a favor do governo Maduro. A primeira, apresentada pelos Estados Unidos, contesta a legitimidade do presidente chavista e pede novas eleições presidenciais. A outra, sugerida pela Rússia, defende o atual governo e o princípio da soberania nacional e não intervenção; sugere que a ajuda humanitária seja endereçada a Nicolás Maduro e às autoridades do país e adverte contra o uso da força.

    A proposta de Moscou confronta o projeto de Washington de que as remessas de alimentos e remédios sejam manipuladas pela oposição para fortalecer e legitimar o deputado golpista Juan Guaidó, que por orientação do vice-presidente norte-americano, Mike Pence, se autoproclamou presidente interino da Venezuela em 22 de janeiro.

    Intervenção ou soberania?

    São duas propostas antagônicas que revelam a divisão do Conselho de Segurança da ONU e o impasse que deverá resultar em rejeições mútuas, visto que as potências nucleares (EUA, Rússia, China, Inglaterra e França) têm poder de veto no organismo. Rússia e China apoiam o governo de Nicolás Maduro, ao passo que os EUA estão em feroz ofensiva para derrubá-lo e colocar um ponto final na revolução bolivariana, que desafiou o império e proclamou o objetivo de construir uma sociedade socialista.

    Mesmo se obtiver maioria entre os 15 membros do Conselho de Segurança nenhuma das duas propostas terá o respaldo da ONU em função do direito ao veto das cinco potências nucleares. A pressão dos EUA é intensa, mas esbarra na oposição de Moscou e Pequim, que parecem determinados a lutar por uma nova ordem internacional sem intervenções de potências estrangeiras em conflitos internos de outros países e fundada no respeito à autodeterminação dos povos.

    O conflito interno da Venezuela, que tem um nítido caráter de classes, está deste modo compreendido numa batalha geopolítica mais global que coloca em questão a decadente ordem imperialista definida pelos acordos de Bretton Wodds (1944), cuja fundamento é a hegemonia econômica, política e militar dos EUA, cuja decadência é hoje notória.

    Ofensiva imperialista

    Os EUA são em grande medida responsável pela crise que perturba a sociedade venezuelana, pois estão movendo uma cruel guerra econômica contra o regime chavista, com sanções de toda ordem e estímulo à violência e ao golpismo desde que Chávez chegou ao poder em 1998. O interesse maior e não confessados dos imperialistas americanos é tomar conta das maiores reservas petrolíferas do mundo e conter a crescente influência da China no continente.

    Em abril 2002 o líder da revolução bolivariana foi vítima de um golpe apoiado por Washington, que não teve respaldo popular e não chegou a durar 48 horas. Chávez voltou ao Palácio de Miraflores pelas mãos do povo e militares patriotas e revolucionários. O ano seguinte (2003) também foi marcado por iniciativas golpistas, lideradas pelos executivos da PDVSA, uma espécie de Petrobras venezuelana.

    Eles também acabaram derrotados, mas o espírito golpista continuou influenciando os círculos reacionários frequentados pela burguesia e latifundiários do país, aliados dos EUA. Nicolás Maduro também não teve momentos de sossego, enfrentou manifestações violentas capitaneadas pela extrema direita em 2014 e 2017 e agora depara-se com o golpe comandado pelo deputado Juan Guaidó.

    Bolsonaro e Guaidó

    Nesta quinta-feira (28) o golpista Guaidó foi recebido por Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto. Foi o encontro de dois líderes da extrema-direita latino-americana, ambos caudatários da política imperialista emanada de Washington e fãs do presidente Donald Trump. Num rasgo de demagogia bizarra e de mau gosto, Bolsonaro disse que "Deus é brasileiro e venezuelano". O apoio do presidente brasileiro ao líder da oposição venezuelana, que não passa de um fantoche da Casa Branca, não corresponde aos interesses do nosso povo, que já está sofrendo as consequencias, e viola a Constituição de 1988, que consagra o princípio da não intervenção e de solução pacífica para os conflitos políticos domésticos das nações.

    É um gesto que tampouco está em harmonia com os sentimentos do povo venezuelano, que não respaldou o extremista Guaidó, não deseja a guerra civil e rejeita a intervenção do imperialismo. O mesmo se pode dizer em relação às Forças Armadas Bolivarianas e à Justiça do país, que apesar da crise e das pressões imperialistas continuam leais ao governo Maduro.

    Umberto Martins

  • E-mails trocados entre profissionais da Vale e de duas empresas ligadas à segurança da barragem de Brumadinho mostram que, dois dias antes do rompimento, a mineradora já havia identificado problemas nos dados de sensores responsáveis por monitorar a estrutura. A Polícia Federal (PF), que investiga o caso, identificou os e-mails. De acordo com o último levantamento, 150 pessoas morreram na tragédia e 182 estão desaparecidas.

    Depoimentos prestados por dois engenheiros da empresa TÜV SÜD, André Jum Yassuda e Makoto Namba, responsáveis por laudos de estabilidade da barragem, referem-se às mensagens, segundo a TV Globo. Eles haviam sido presos em dia 29 de janeiro, mas por determinação do STJ (Superior Tribunal de Justiça) foram soltos na terça-feira (5). Os advogados Augusto de Arruda Botelho e Brian Alves Prado, que defendem os engenheiros, disseram que não comentarão o conteúdo do depoimento.

    Já o delegado Luiz Augusto Nogueira, da Polícia Federal, referiu-se, no depoimento, à existência dos e-mails trocados entre os funcionários da Vale, da TÜV SÜD e da Tec Wise, outra empresa contratada pela Vale. Segundo Nogueira, as mensagens começaram a ser trocadas no dia 23 de janeiro, às 14h38, e se prolongaram até as 15h05 do dia seguinte. A barragem se rompeu em 25 de janeiro, às12h28min25s.

    Vale pressionou engenheiro

    Nas perguntas, Nogueira afirma que o assunto das mensagens “diz respeito a dados discrepantes obtidos através da leitura dos instrumentos automatizados (piezômetros) no dia 10 de janeiro de 2019, instalados na barragem B1 do CCF, bem como acerca do não funcionamento de 5 piezômetros automatizados”. No depoimento não constam, no entanto, detalhes sobre as mensagens.

    O engenheiro Makoto Namba afirma que só ficou sabendo das alterações dos dados fornecidos pelos sensores após o rompimento da barragem. Depois de ler as mensagens para Namba, o delegado o questionou: “qual seria sua providência caso seu filho estivesse trabalhando no local da barragem?”.

    Namba respondeu, segundo o relatório da PF, que “após a confirmação das leituras, ligaria imediatamente para seu filho para que evacuasse do local bem como ligaria para o setor de emergência da Vale responsável pelo acionamento do PAEBM [Plano de Ação de Emergência de Barragens de Mineração] para as providências cabíveis”.

    No depoimento, Makoto Namba também falou sobre uma reunião com funcionários da Vale sobre o laudo de estabilidade assinado por ele. Segundo o engenheiro, um funcionário da Vale chamado Alexandre Campanha o perguntou: “A TÜV SÜD vai assinar ou não a declaração de estabilidade?”. Namba disse à PF ter respondido que a empresa assinaria o laudo se a Vale adotasse as recomendações indicadas na revisão periódica de junho de 2018. No entanto, ainda assim, assinou o documento.

    Segundo ele, “apesar de ter dado esta resposta para Alexandre Campanha, o declarante sentiu a frase proferida pelo mesmo e descrita neste termo como uma maneira de pressionar o declarante e a TÜV SÜD a assinar a declaração de condição de estabilidade sob o risco de perderem o contrato”. A TÜV SÜD informou que não comentaria o assunto por estar sob sigilo.

    Parece evidente que a direção da empresa sabia (pois estava bem informada) que a tragédia era iminente, mas prefeririu instruir um subordinado a chantagear os engenheiros (únicos presos na história) para assinar um laudo mentiroso sugerindo a inexistência de riscos. A irresponsabilidade dos proprietários privados, cuja única preocupação é com os lucros, já havia sido largamente demonstrada em Mariana e não deveria ser colocado novamente à prova. Há muito eles deviam estar presos, mas a Justiça brasileira, implacável com os pobres e com seus líderes (como Lula), é por demais convincente com os mais ricos, que continuam declamando, agora pela boca dos Bolsonaros, a falsa ladainha de que a privatização é a cura para todos os males da economia brasileira. Privatização é o nome da tragédia.