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Seg, Abr

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  • Huawei e a disputa pelo mercado internacional das telecomunicações

    Por Augusto Gabriel Colório, Rodrigo Brites e Bruno Lima Rocha*

    1. O caso: prisão e retaliação

    Apesar da prisão da diretora financeira e filha do fundador da gigante de telecomunicações chinesa Huawei, Meng Wanzhou, ter passada quase despercebida pela imprensa brasileira, a disputa ganhou as manchetes dos jornais da mídia ocidental. Notou-se que a mídia hegemônica acabou por reproduzir os interesses de Washington, alegando que a prisão seria consequência do descumprimento das sanções unilaterais feitas por esse país ao Irã, as quais impedem o comércio com o país médio-oriental.

    No entanto, o que está em jogo é um processo muito mais complexo e que se relaciona com atual fase da política internacional de transição sistêmica, bem como com a disputa de mercados e com o controle de tecnologias disruptivas que podem representar uma mudança na estrutura de poder global. Neste ensaio pretendemos discutir os principais interesses por detrás da prisão de uma das lideranças da Huawei, além disso o atual processo de disputa pelo mercado das telecomunicações global e os efeitos na área de segurança.

    Como já mencionado, no dia 1 de dezembro de 2018, as autoridades canadenses prenderam Meng Wanzhou após pedido oficial das autoridades norte-americanas. A alegação emitida pelas instâncias judiciais competentes foi que Meng teria sido presa por não respeitar o embargo econômico aplicado pelos EUA ao Irã. Imediatamente Beijing respondeu demandando que as autoridades norte-americanas e canadenses liberassem Meng acusando-os de violarem a liberdade da acusada e de não serem as autoridades competentes para julgar o caso por não se tratar de uma empresa dos dois países.

    Dias depois, a China prendeu dois cidadãos canadenses, o empresário Michael Spavor e o ex-diplomata Michael Kovrig por estarem envolvidos em atividades que “colocam em risco a segurança nacional”, o que foi visto por muitos analistas como uma forte resposta da China a prisão de Meng. Há que se destacar que a prisão veio logo após China e EUA terem anunciado uma trégua na Guerra Comercial, o que levou muitos observadores a destacar que poderia ser uma estratégia do Governo norte-americano de romper com o acordo anunciado por Trump durante reunião do G20 na Argentina.

    A grande mídia acabou reproduzindo principalmente os discursos das autoridades norte-americanas e canadenses, mas, em contraponto, consideramos aqui que esse caso representa na verdade a disputa global pelo mercado de tecnologia em meio ao acirramento da competição hegemônica entre a atual superpotência, EUA, e a potência ascendente, China.

    Recentemente a Huawei tornou-se a segunda maior empresa de smartphones do mundo, passando a Apple e ficando atrás apenas da sul-coreana Samsung. Além disso, a empresa anunciou projetos como o desenvolvimento da tecnologia 5g e do seu próprio sistema operacional, Kirin OS, capazes de colocar em xeque a hegemonia das telecomunicações exercida pelas empresas norte-americanas como Google e Apple.

    Na busca pela manutenção do status quo, os EUA inflaram o discurso que implica a Huawei em suspeitas de espionagem e roubo de propriedade intelectual, impactando a presença e expansão da empresa, por exemplo, no continente europeu. Além disso, como observamos na última década com os casos Snowden e o mais recente da Cambridge Analytica, as novas tecnologias trazem consigo uma ameaça securitária real às nações, e a reestruturação da rede atualmente centrada nos EUA enfraqueceria o domínio desse país nesse campo.

    Cabe destacar que Meng foi considerada por parte da mídia chinesa como uma liderança natural para assumir o cargo máximo da empresa no futuro. Ademais, pelo fato de a empresa ser chinesa fica evidente que as autoridades norte-americanas não são competentes para julgar Meng, além disso as sanções unilaterais dos EUA ao Irã não fazem parte da lei internacional o que não impõe nenhuma obrigação à China. Para sustentar nossa hipótese que o que está em jogo não é um caso de respeito a lei, mas sim uma disputa pelo mercado de tecnologia, na próxima parte busca-se compreender o desenvolvimento da Huawei e sua inserção internacional, tal como a participação da China no mercado de telecomunicações global.

    1. A história da Huawei e o crescimento chinês no mercado de telecomunicações

    Ao contrário do que se difundiu no mainstream, a estratégia de liberalização econômica controlada pelo Estado Chinês deve ser vista como uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo, atraindo capital e tecnologia estrangeiros, com a qual Pequim busca reconstituir o sistema sinocêntrico característico do período anterior ao Século de Humilhações (1839-1949). Tal estratégia acompanhada dos incentivos públicos aos grandes campeões nacionais, empresas escolhidas para a entrada no mercado internacional, e ao desenvolvimento de tecnologia avançada que garanta os interesses da segurança nacional, podem ser considerados os fatores cruciais na consolidação da Huawei entre as maiores empresas de telecomunicação do mundo. As repercussões geopolíticas do atual caso envolvendo a prisão da diretora financeira da empresa têm nas relações entre o Estado Chinês e o desenvolvimento da Huawei, ambos ascendendo em suas posições de poder, as raízes primordiais.

    Em 1988, final do período da liderança de Deng Xiaoping, a Huawei Technologies Co. foi fundada pelo ex-oficial do Exército Popular da Libertação e membro do PCC, Ren ZhengFei, em Shenzhen como uma empresa coletiva. Sua proximidade com a alta cúpula do Partido Comunista permitiu maior acesso a créditos públicos e a contratos com as grandes estatais da estrutura de telecomunicação chinesa China Telecom, China Mobile e China Unicom para o fornecimento de equipamentos. É importante destacar esse relacionamento próximo entre a empresa a o governo chinês, já que esse vem servindo como principal argumento para a identificação da Huawei como uma ameaça à segurança nacional de outros países.

    De início o diferencial da empresa se caracterizava pela produção e revenda de equipamentos de baixo custo, conquistando o interior do mercado chinês e os mercados internacionais de países em desenvolvimento, primeiro no Sudeste Asiático e Ásia Central, chegando na América Latina e Oriente Médio. Com seu crescimento, aliado às estratégias de contratar mão-de-obra qualificada de outras empresas de tecnologia e de promover alianças com empresas de telecomunicação com mais know-how, a Huawei passou cada vez mais a investir em Pesquisa e Desenvolvimento, criando centros de Pesquisas em diversos países, inclusive nos EUA, e agregando assim mais inovação e tecnologia de ponta a seus produtos.

    A partir da década de 90, o Governo chinês passou a entender o peso das novas tecnologias para a manutenção de um desenvolvimento econômico de longo prazo, ampliando seus incentivos ao setor e permitindo a entrada de empresas estrangeiras, inclusive norte-americanas. Mesmo assim, sempre o considerou como sensível para a segurança nacional e por isso mesmo manteve-o sob o rígido controle do Ministério da Informação e Indústria. É nesse período que se formula a estratégia Going Global que procura criar os chamados campeões nacionais para se internacionalizarem, mudando assim a imagem das indústrias chinesas de meras produtoras de bens de pouco valor agregado e baixa qualidade. Tal estratégia permanece ativa e se relaciona com a consolidação da Huawei em solo europeu que, além dos preços baixos e da grande qualidade dos últimos smartphones, utilizou uma política de softpower fazendo doações a escolas de elite, a líderes políticos e a caridade, medidas que abriram os mercados de países como Alemanha e Inglaterra. Além dela, se beneficiaram da estratégia as empresas de telecomunicação e produtos eletrônicos TCL, Lenovo, Xiaomi, Boe Technology a Galanz, ampliando a presença chinesa no mercado internacional de tecnologia.

    1. A disputa pelo mercado global de tecnologia e os efeitos na área de segurança

    A prisão de Meng, como alegamos, é mais um episódio no processo de competição internacional pelos mercados de tecnologia que possuem profundos efeitos na área de segurança. Os recentes avanços da China em tecnologia, sobretudo da Huawei, exemplificam o potencial de competição da empresa com as gigantes norte-americanas. Atualmente, o país apresenta a maior população de usuários de internet do mundo, quase três vezes maior que a dos Estados Unidos, com cerca de 800 milhões. Nos últimos três anos, a economia chinesa produziu um terço do total dos unicórnios globais, em grande parte devido ao grande complexo de financiamento estatal e abertura controlada ao investimento estrangeiro. Além disso, a economia digital chinesa representa 40% das transações globais feitas pela internet, participação que há uma década atrás era menos de 1%. Com toda essa transformação em direção a produção de tecnologias de ponta, a China se destaca entre as três maiores economias que mais investem em BigData, Inteligência Artificial, e companhias de Fintech.

    Nessa mesma linha, a Huawei acabou se consolidando como a segunda maior empresa provedora de smartphones do mundo, atrás apenas da Samsung. Em relatório anual de 2017/8, a empresa apresenta um crescimento de 15,7% da receita se comparado ao ano anterior, e um aumento do investimento em Pesquisa de 17,4%. Por regiões, nota-se que a única a ter um considerável recuo de participações nos negócios da empresa é a americana (América do Norte e Latina) que ficou com 6,5% do total, enquanto a China permanece como a principal região (50,5%), Europa, África e OM em segundo lugar (27,1%) e então a Ásia (12,3%). Sua internacionalização, que principiou em mercados da periferia global, ao passar a focar cada vez mais em mercados desenvolvidos encontrou a resistência de grandes empresas de tecnologia norte-americanas e consequentemente das potências ocidentais ameaçadas pela concorrência chinesa. Cabe ressaltar que recentemente a Apple apresentou a performance financeira mais baixa em 16 anos e vulnerabilidade devido à competição internacional e à guerra comercial.

    Além dos ganhos de mercado e inovação, o fator que mais produz inquietação em Washington são as supostas ameaças para as áreas de segurança causados pelo avanço da Huawei e, consequentemente da China. Como bem se sabe, os EUA possuem o controle da infraestrutura internacional responsável pelas telecomunicações, fato que concede ao país um grande poder sobre outros Estados, inclusive aliados. Com a ascensão chinesa no mercado de telecomunicações e a difusão da sua tecnologia, o poder norte-americano está sob ameaça.

    Esse processo fica ainda mais claro na corrida para o desenvolvimento da tecnologia 5g, atualmente liderado pela Huawei, que além de permitir uma internet wireless mais rápida de carregamento quase instantâneo, representa o avanço tecnológico em diversas áreas da vida humana, conectando na mesma rede desde carros autônomos até o controle de sistemas domésticos de iluminação e de ventilação. Isso significa uma maior quantidade de dados sobre a população sendo reunidos, possibilitando um melhor direcionamento de propagandas, melhores prospecções de políticas públicas ou um controle social mais apurado.

    Em recente nota, um membro do Conselho Nacional dos EUA destacou o perigo para os norte-americanos representado pela posição na dianteira da China no estabelecimento mundial do 5g. Com essa vantagem estratégica, segundo o conselheiro, os EUA perderão a posição hegemônica no controle do fluxo de informações. Não é a toa que os países membros do five eyes concordaram em banir produtos da Huawei para que assim possam manter sua posição de primazia na espionagem mundial.

    Assim, fica evidente que a prisão de Meng não está relacionada ao descumprimento das sanções ao Irã. Além desse episódio ser mais um sintoma da disputa comercial entre China e EUA, a prisão tem um teor claramente político na intenção de barrar o avanço da tecnologia chinesa sobretudo em um período de declínio do poder estadunidense e ascensão chinesa. De uma perspectiva mais ampla, os EUA por meio da guerra comercial e de outras estratégias buscam limitar o avanço chinês na economia mundial. Os dirigentes da Casa Branca sabem que com o consequente deslocamento da economia internacional para a esfera chinesa duas posturas de política externa são possíveis: acomodação ou disputa. Parece que eles já optaram pela segunda.

    *Augusto Gabriel Colório é mestrando em Conflito e Segurança Internacional pela Universidade de Kent e graduado em Relações Internacionais pela Unisinos. Rodrigo da Cunha Brites é graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e Bruno Lima Rocha é doutor em ciência política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e professor de relações internacionais da Unisinos.

  • O duelo entre EUA e China no centro da geopolítica mundial

    A decadência dos EUA e a ascensão da China são os fenômenos econômicos e geopolíticos mais relevantes do nosso tempo. Eles dão o tom dos conflitos internacionais e explicam a estratégia agressiva dos EUA para preservar e se possível ampliar a sua hegemonia.

    Entre os meios usados pelo império para manter o domínio global destacam-se a chamada guerra híbrida e as revoluções coloridas, que transformaram a realidade do Oriente Médio e levaram a mudanças de regime no leste europeu favoráveis a Washington e contrários aos interesses da Rússia. Esta, sob o governo Putin, transformou-se na mais forte e poderosa aliada da China na batalha por uma nova ordem internacional esboçada em iniciativas como a formação do Brics, a criação do Banco Asiático de Investimentos e Infraestrutura e de uma nova “Rota da Seda”.

    Os países da América Latina e Caribe também são palcos deste duelo, com os EUA em aliança com as forças conservadoras locais, principalmente as de extrema-direita, trabalhando para destruir as experiências de governos progressistas que, eleitos pelo povo, que derrotaram a Alca (em 20015) e deflagraram um processo de transição geopolítico na região hostil a Washington, que estimulou golpes de Estado em Honduras (2009), no Paraguai (2012) e Brasil (2016) para reverter o cenário político.

    Objetivos na Venezuela

    Neste momento, a Casa Branca não poupa esforços e conspira abertamente para derrubar o regime bolivariano liderado por Nicolás Maduro, que significativamente é apoiado por Moscou e Pequim. São dois os principais objetivos dos EUA na Venezuela: apoderar-se das maiores reservas de petróleo do mundo e conter a expansão da China na região que os imperialistas norte-americanos consideram como seu “quintal’. O resto é retórica sem substância real.

    A China é a nação mais rica e mais próspera do globo hoje. O histórico das estatísticas econômicas revela a superioridade do seu socialismo de mercado sobre o capitalismo neoliberal do Ocidente. O governo estadunidense, presidido pelo bilionário Donald Trump, iniciou uma temporada de guerra comercial contra o gigante asiático com o objetivo de interromper e reverter a sua ascensão. Até agora não teve êxito, mas estende sua estratégia agressiva não só para o campo comercial. Suas apostas provavelmente contemplam também a chamada guerra híbrida e lembram os eventos de 1989 na Praça da Paz Celestial, nos quais ficaram impressas as impressões digitais subversivas do poderoso império.

    Abaixo reproduzimos reportagem publicada recentemente no jornal “Valo Econômico”, assinada por Katsuji Nakazawa e intitulada “Exigências dos EUA abalam as bases do poder na China”, sobre o alarme que autoridades chinesas fizeram soar sobre a necessidade de prevenir contra a tentativa de fazer vingar no país uma “revolução colorida”. As frases entre parênteses foram observações críticas acrescentadas pela Redação do Portal CTB.

    Aniversário da revolução

    A polícia da China terá de impedir uma “revolução colorida” neste ano, o 70º aniversário da fundação da República Popular da China. A afirmação foi feita recentemente por uma importante autoridade da ordem pública, surpreendendo analistas da China no exterior.

    A advertência veio de Zhao Kezhi, conselheiro de Estado e ministro da Segurança Pública, uma autoridade com poderes de vice-premiê, encarregada de manter a ordem pública. É raro que autoridades chinesas se referirem publicamente à necessidade de evitar levantes populares num país em que o regime do Partido Comunista é tido como perfeito.

    Mas, no discurso feito na reunião nacional anual do ministério, em 17 de janeiro, Zhao disse que a polícia precisa “enfatizar a prevenção e oposição a ‘revoluções coloridas’, e lutar com firmeza para proteger a segurança política da China”. A transcrição do discurso se encontra no site do ministério.

    Defender o sistema socialista

    “Temos de defender com firmeza a liderança do Partido Comunista Chinês e o sistema socialista de nossa nação”, afirmou ele, acrescentando que a polícia precisa ainda “reagir contra todos os tipos de infiltração e atividades subversivas de forças estrangeiras hostis”.

    O termo revoluções coloridas é uma referência aos movimentos de democratização que varreram a extinta União Soviética, o Leste Europeu e o Oriente Médio nas últimas décadas, derrubando regimes autoritários duradouros (na verdade, trata-se de governos aliados à Rússia, substituídos por aliados de Washington; na Ucrânia foi instalado um governo golpista de feição neofascista apoiado pelos EUA e a Otan).

    Muitos movimentos receberam o nome de cores de flores. A Revolução Laranja de 2004-2005 na Ucrânia é um exemplo, assim como a Revolução Jasmim de 2010-2011 na Tunísia, que desencadeou a Primavera Árabe.

    A China também registrou clamores parecidos em 2011, mas mensagens disseminadas na internet foram rapidamente sufocadas, com as autoridades entrando em modo de gerenciamento de crise.

    Números invejáveis

    A economia da China cresceu 6,6% em 2018 e foi novamente estimulada no começo deste mês por um aumento de 8,5% no consumo no feriado do Ano Novo chinês. Embora os dois números sejam invejáveis pelos padrões globais, eles não dão aos líderes chineses conforto suficiente.

    Olhando em retrospecto, a economia chinesa vem crescendo desde a introdução, em 1978, da política de “reforma e abertura”. Apesar dos altos e baixos, a população chinesa não interrompeu sua marcha em busca de mais prosperidade. Seu sentimento de satisfação com a política econômica tem sido a pedra fundamental da legitimidade do partido para governar.

    É difícil prever o que acontecerá numa sociedade acostumada a crescer 10% ao ano se, de repente, o bolo crescer pouco. Mas essa incerteza provavelmente é o que levou o presidente Xi Jinping a alertar para o risco de um “cisne negro” em um pronunciamento recente. A expressão refere-se a eventos inesperados de grandes proporções.

    Estratégia de Big Data

    Por décadas a China alertou contra a teoria da Evolução Pacífica, uma crença de que o Ocidente, principalmente os Estados Unidos, estariam tentando transformar gradualmente o sistema socialista da China via meios pacíficos.

    O Ocidente, diz a tese, faria isso espalhando ideias políticas e estilos de vida ocidentais e incitando o descontentamento, encorajando grupos a se mobilizar e a enfrentar o Partido Comunista.

    A ansiedade é um reflexo do trauma sofrido pela China ao assistir o colapso da União Soviética, em 1991. A cautela da China com a teoria da Evolução Pacífica posteriormente se transformou em vigilância contra a ameaça mais iminente das revoluções coloridas.

    No discurso de janeiro, o chefe de polícia, Zhao Kezhi, falou sobre como evitar uma revolução colorida. A polícia vai empregar uma “estratégia de Big Data”, disse ele, e usar tecnologia digital de ponta.

    Na China, já aconteceu de um criminoso procurado pela Justiça ser presos num grande show de música. Câmeras de vigilância instaladas nas arenas e outros espaços públicos permitem o uso de sistemas de reconhecimento facial. O mesmo sistema monitora hóspedes que chegam a hotéis.

    Supremacia tecnológica

    Essa estratégia de Big Data é viabilizada por empresas de tecnologia como a Hikvision Digital Technology e Hytera Communications. Sediada em Hangzhou, a Hikvision é a maior fabricante de câmeras de vigilância do mundo, enquanto a Hytera, sediada em Shenzhen, é uma grande fabricante de equipamentos de rádio e sistemas de rádio para a polícia.

    Essas empresas estão agora no centro da disputa entre os EUA e a China que, à primeira vistas parece envolver questões econômicas e comerciais, mas no fundo é uma luta pela supremacia tecnológica.

    Os EUA começaram a impor sanções a essas companhias com a aprovação da Lei de Autorização de Defesa Nacional, no terceiro trimestre de 2018. A partir de agosto de 2020, empresas que estiverem usando em seus escritórios produtos fabricados por cinco companhias chinesas de tecnologia, incluindo a Hikvision e a Hytera, serão proibidas de fazer negócios com órgãos do governo dos EUA.

    Mobilizar o Big Data e acelerar a “China Digital” são pilares importantes do “Made in China 2025”, o programa chinês de desenvolvimento de setores “high-tech”. Washington já exigiu que a China abandone totalmente a iniciativa.

    O controle duro exercido pela China sofre a informação é bem representado pelo bloqueio a plataformas internacionais de redes sociais, como Google e Facebook. O temor é que o fluxo livre de informações possa ameaçar o sistema de governo do Partido Comunista (afinal, conforme mostraram informações vazadas pelo Wikileaks as grandes empresas de informática dos EUA estão associadas ao serviço de espionagem global montado pela CIA, NSA e Pentágono).

    Enquanto isso, o WeChat e outras redes sociais chinesas podem ser usadas livremente nos países ocidentais. O Ocidente teme que, por meio delas, informações possam ser coletadas em todo o mundo pela China. Memes da internet que criticam o Partido são deletados e, em alguns casos, as contas são suspensas abruptamente.

    Com uma confiança recém-adquirida em suas habilidades de tecnologia da informação, a China está trocando sua tradicional posição defensiva por uma mais ofensiva, tentando ampliar o alcance de sua rede de informações.

    A batalha pela supremacia dos dados é o que está por trás da decisão de excluir a gigante tecnológica chinesa Huawei Technologies do fornecimento de infraestrutura para as redes de comunicação 5G da próxima geração. Os EUA querem impedir que informações de todo o mundo, inclusive do próprio país, fluam para a China.

    Enquanto houver confronto, são mínimas as possibilidades de a China permitir buscas no Google e acesso ilimitado ao Facebook em seu território, sem censura.

    Guerra comercial

    Permitir isso afetaria a base da política de propaganda e de governança do partido. O mesmo vale para as negociações comerciais entre EUA e China, que entraram numa fase crítica antes do prazo final de 1º de março para que os dois países cheguem a um acordo.

    O representante comercial dos EUA, Robert Lighthizer, que liderou a delegação americana em Pequim, na semana passada, disse que “questões estruturais” são importantes, assim como mecanismos para fazer a China cumprir os acordos. Mas a China insiste que é impossível mudar a base de seu sistema econômico. As divisões entre os EUA e a China são grandes.

    O principal foco das negociações sino-americanas não está mais no desequilíbrio comercial bilateral. Está na “proteção da segurança política da China”, segundo disse o ministro da Segurança Pública, Zhao, em seu discurso.

    As exigências comerciais dos EUA se aproximam do centro do regime do partido. A insistência de Washington para que Pequim elimine os subsídios às estatais chinesas é um exemplo disso.

    O fortalecimento das empresas estatais é um dos pilares da “nova era” de Xi. O próprio presidente chinês faz vários apelos por estatais “mais fortes, melhores e maiores”. Se os EUA interferirem, as conquistas de Xi poderão ser invalidadas, e sua autoridade, minada (note-se que a política da China, neste e em outros aspectos, é uma antítese da receita neoliberal que o governo estadunidense pretendem impor a todo o mundo).

    Até mesmo companhias estatais ineficientes podem ter lucro e sobreviver na China, pois recebem tratamento favorável do governo, que permite seus oligopólios.

    Além do mais, mudanças de pessoal na cúpula das estatais são feitas com o mesmo mecanismo que o partido e o governo usam no rearranjo de suas lideranças. Executivos graduados de estatais são trocados regularmente segundo interesses do Comitê Central do partido. Eles não são executivos no sentido ocidental da palavra, e sim burocratas que desempenham um papel no Partido Comunista.

    Assim, Xi não pode negar a si próprio esse pilar da “nova era”. Como a liderança chinesa não pode abrir mão de seu controle sobre o Big Data, que ela usa para manter a rede de vigilância que, acredita, irá evitar uma revolução colorida.

    Antes das negociações comerciais da semana passada, o presidente americano, Donald Trump, não deixou claro se se reuniria com Xi, pressionando o líder chinês. O governo Trump ameaça aumentar as sobretaxas impostas a US$ 200 bilhões em produtos importados da China, de 10% para 25%, se não houver acordo até 1º de março. O tempo está acabando (na verdade já acabou sem que se chegasse a um acordo e um novo prazo final para o encerramento das negociações foi fixado: 27 de março, quando Trump tem um encontro marcado com Xi na Flórida).

  • Paulo Nogueira Batista Jr: Brasil, Estados Unidos, China

    A paisagem mundial é marcada pelo conflito entre os Estados Unidos e a China. Esse conflito vai perdurar pelas próximas décadas. A China, que já tem a maior economia do planeta (em paridade de poder de compra), deve continuar crescendo e ganhando peso relativo vis-à-vis dos EUA e da economia mundial como um todo. Os americanos vêm lidando mal com essa ascensão.

    Trump não criou o conflito, que remonta ao período Obama, pelo menos. O cenário de uma ascensão tranquila da China parece pouco provável, mesmo depois de Trump – em parte por causas das reações nacionalistas dos EUA, em parte porque o sucesso dificilmente deixa de subir à cabeça, e os chineses não estão imunes a essa regra geral. Desde o início do governo Xi Jinping, nota-se, eu não diria arrogância, mas uma crescente altivez dos chineses, o que acentua a reação americana.

    Como deveria se posicionar o Brasil? Primeiro, o óbvio: o Brasil não deve se alinhar a nenhum dos dois. País que se preza não se alinha automaticamente a ninguém. As nações, como dizia o general de Gaulle, não têm amigos, mas interesses. Para o Brasil, as relações com os EUA e a China são de grande importância econômica e política. O Brasil não tem a mais remota razão para tomar partido ou imiscuir-se nas desavenças entre os dois.

    Espero não estar exagerando na homenagem ao Conselheiro Acácio. Mas é que alguns dos integrantes do governo Bolsonaro (inclusive, infelizmente, o próprio presidente), flertam com a ideia de alinhamento aos EUA. Faz parte disso a oferta gratuita e absurda, em seguida abandonada, de sediar uma base americana em solo nacional. Faz parte disso, também, certa hostilidade à China – é verdade que mais antes do que depois da eleição. Escapa à minha compreensão o que exatamente o deputado Bolsonaro pretendia com a visita que fez a Taiwan, em março de 2018.

    O exemplo de Getúlio Vargas talvez seja relevante. Na segunda metade das décadas de 1930 e no início dos anos 1940, quando os EUA se defrontavam com a ameaça de uma Alemanha em ascensão, Vargas não se comprometeu com nenhum dos dois. Acabou entrando do lado americano na Segunda Guerra, mas obteve importantes vantagens em troca, inclusive o apoio dos EUA à implantação de Volta Redonda.

    Não deveria a postura brasileira ser semelhante agora? Ou seja: não caberia evitar precipitações e verificar, caso-a-caso, quem oferece melhores condições em termos de parcerias econômicas e políticas? Isso inclui, por exemplo, não assumir compromissos com a OCDE, fugindo da linha iniciada pelo governo Temer. A OCDE, recorde-se, é uma organização controlada pelos EUA e outros países desenvolvidos. Estabelece exigências abrangentes, que limitam severamente as políticas de desenvolvimento e defesa da economia nacional.

    Em Davos, Bolsonaro afirmou que buscará incorporar “as melhores práticas internacionais, como aquelas que são adotadas e promovidas pela OCDE”. O medíocre presidente do Banco Central do governo Temer, Ilan Goldfajn, que permanece temporariamente no cargo, foi mais longe e especificou há poucos dias que o Brasil está comprometido em aderir ao acordo de liberalização dos fluxos de capital da OCDE. Mais uma bobagem.

    Tive longa convivência com americanos e chineses no FMI, no G-20 e nos BRICS. Os chineses têm qualidades, mas a sua agenda é estreita e eles são de um pragmatismo ligeiramente selvagem; não hesitam em sacrificar os outros BRICS quando isso lhes convém.

    Mas os americanos mostram-se mais complicados. Comportam-se, em geral, de maneira prepotente e se consideram líderes natos e hereditários. Não sabem trabalhar em aliança. Coisa curiosa: com os americanos é difícil cooperar mesmo quando há concordância de posições. Passei por isso mais de uma vez nos oito anos em que tive contato regular com as delegações americanas no G-20 e a diretoria desse país no FMI.

    E um aviso aos navegantes: os americanos desprezam visceralmente comportamentos subservientes. Quantas vezes testemunhei a indiferença e, não raro, os maus-tratos dispensados por americanos a seus satélites, especialmente latino-americanos!

    Não se alinhar a nenhum dos dois não significa necessariamente manter equidistância. Se tivermos que pender para um dos lados, é provavelmente preferível pender um pouco para o da China com quem o Brasil tem uma cooperação de caráter estratégico e relativamente equilibrada no âmbito dos BRICS. Em 2019, convém recordar, o Brasil exerce a presidência de turno do grupo. A cúpula dos BRICS se dará em novembro, no Brasil, sob presidência brasileira – oportunidade que não deve ser desperdiçada.

    *Paulo Nogueira Batista Jr. é economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países.

  • Venezuela: a guerra híbrida desencadeada pelos EUA pode desaguar na intervenção direta

    Obscurecida por uma cortina de fumaça midiática que nos quer convencer de que se trata de um dilema entre democracia (concebida como um valor universal) e ditadura, os conflitos políticos que sacodem a Venezuela e envolvem todo o seu entorno adquirem cada vez mais os contornos de um embate geopolítico que opõem notoriamente os Estados Unidos à China e à Rússia.

    O objetivo à margem da retórica é o controle das maiores reservas de petróleo do mundo e preservação da hegemonia mundial. A Europa, embora aparentemente em cima do muro e desfiando contradições e remorsos, tende a respaldar as aventuras da Casa Branca.

    O governo de Nicolás Maduro conta com o apoio da China (que investiu cerca de US$ 70 bilhões na Venezuela) e da Rússia, que defendem o consagrado direito internacional das nações à autodeterminação, que por definição exclui e condena a possibilidade de intervenção estrangeira em pelejas domésticas, princípio também proclamado pela Celac e pelos governos progressistas da América Latina e Caribe.

    Onda conservadora

    Mas a onda conservadora que invadiu o continente ao longo dos últimos anos, distribuindo golpes de Estado e fortalecendo políticos conservadores, alterou as percepções e a correlação de forças políticas, revertendo o processo de integração regional que desaguou na Celac e desenhou um novo arranjo geopolítico hostil ao hegemonismo de Washington, que parece ter recuperado o comando da situação.

    Não se pode dizer por quanto tempo o quadro atual prevalecerá, mesmo porque ele não está em sintonia com as transformações econômicas, objetivas e silenciosas, ocorridas nas últimas décadas, traduzidas na ascensão da China, que se transformou na maior economia do planeta, e na progressiva decadência do poderio econômico relativo dos EUA.

    A sensação de declínio, ampliada com Donald Trump e sua guerra comercial, deixou os imperialistas americanos ainda mais arrogantes e belicosos. A forma com que se conduzem diante da crise na Venezuela, apoiando abertamente um golpe de Estado, é emblemática. Os EUA deflagraram o que alguns críticos do imperialismo caracterizaram como guerra híbrida, uma espécie de guerra por procuração, terceirizada, promovida por lacaios.

    Porém, frente à resistência do governo Maduro, que conta com o precioso apoio das Forças Armadas, da Corte Suprema e da população mais pobre, o impasse se agravou e crescem os indícios de que a guerra híbrida tende a evoluir para uma intervenção militar direta.    

    Intervenção militar

    Segundo o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, María Zajárova, o governo dos Estados Unidos está "preparando o cenário" para uma intervenção militar no país e a narrativa de "intervenção humanitária" (para defesa da democracia) não passa de uma "operação de encobrimento". A decisão de intervir militarmente já foi tomada, de acordo com informações da porta-voz ao RT, canal estatal russo de televisão.

    “Continuam chegando sinais de Washington sobre a possibilidade de usar a força para derrubar as autoridades legítimas através de uma intervenção militar direta”, disse a representante do governo da Rússia, aliado do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.

    A crise no país sul-americano se acentuou depois que o deputado oposicionista Juan Guaidó, com o apoio dos Estados Unidos, se autoproclamou presidente República. Ele foi reconhecido por uma série de países aliados aos EUA e pela União Europeia. Países como China, Turquia e Rússia, no entanto, seguem reconhecendo a legitimidade de Maduro.

    Para a porta-voz do governo da Rússia, a presença de militares norte-americanos na área de fronteira da Venezuela, que ocupam essas regiões sob a justificativa da “ajuda humanitária”, não passa de uma “operação de encobrimento” que tem, por objetivo, a intervenção militar direta.

    Operação de encobrimento

    “Nesta situação, você chega a uma conclusão óbvia: de que Washington já tomou a decisão de intervir militarmente na Venezuela. Todo o resto é operação de encobrimento”, disparou.

    As declarações de Zajárova vêm quatro dias após o próprio presidente dos EUA, Donald Trump, admitir que tem a intervenção militar como uma “opção” para resolver a crise na Venezuela.

    “Gostaria de lembrar que tais declarações de autoridades norte-americanas são uma violação direta do artigo da Carta da ONU, que obriga todos os membros da organização a não ameaçarem ou fazerem o uso da força em suas relações internacionais”, disse a porta-voz.

    Cúmulo do cinismo

    Na mesma declaração desta quinta-feira (7), a porta-voz do governo russo chamou de “cúmulo do cinismo” a postura dos Estados Unidos ao criticar o governo de Nicolás Maduro ao mesmo tempo em que impõe sanções econômicas que agravam a crise no país.

    “Eles dizem que os venezuelanos vivem mal com este governo. Bem, não imponham sanções! Deixe o estado vivo para que se desenvolva e resolva seus próprios problemas, não os agrave”, pontuou. A hipocrisia já foi considerada por um atento observador como um patrimônio nacional dos EUA, embora seja um patrimônio exclusivo das suas classes dominantes. É, com efeito, uma arte na qual são inigualáveis.

    Umberto Martins, jornalista, editor do Portal CTB e autor do livro "O golpe do capital contra o trabalho".