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Ter, Mai

Mark Zuckerberg

  • A Folha saiu do Facebook. E agora?

    Decisão do jornal é uma tentativa de se reposicionar na disputa por audiência e credibilidade, e escancara os graves problemas do Facebook no controle, sem transparência, da distribuição de conteúdos.

    Nesta briga de titãs, não nos cabe defender um ou outro monopólio. Mas não resta dúvida: Já passou da hora de mais setores da sociedade, em particular da mídia alternativa, repensarem sua presença no Facebook e descortinarem outros mecanismos que recuperem o papel da própria rede mundial de computadores, para enfim reduzir o poder desta corporação que quer fagocitar a internet.

    Nesta quinta-feira, 08 de fevereiro, a Folha de S.Paulo anunciou, em chamada de capa, que não vai mais publicar seus conteúdos no Facebook. Os motivos elencados pelo jornal são: a alteração dos algoritmos implementada pela plataforma que “passou a privilegiar conteúdos de interação pessoal, em detrimento dos produzidos por empresas, como as que produzem jornalismo profissional”, e o fato de o Facebook não ter conseguido “resolver satisfatóriamente o problema de identificar o que é conteúdo relativo a jornalismo profissional e o que não é”, o que de acordo com a Folha contribui para a disseminação das “fake news”.

    Há vários aspectos a serem analisados tanto na decisão da Folha, quanto nos argumentos por ela explicitados. É importante, também, refletir sobre este momento do Facebook, talvez a primeira crise da rede social criada por Mark Zuckerberg em fevereiro de 2004, e que tem em torno de 2 bilhões de usuários.

    A encruzilhada do jornalismo como produto comercial

    Os últimos anos foram mortais para as empresas jornalísticas. O surgimento da internet abalou os pilares que sustentavam essas empresas e abriu caminho para que o monopólio da produção de notícias fosse ameaçado.

    No Brasil, as empresas jornalísticas privadas gozavam do privilégio de serem, praticamente, as únicas produtoras de notícias para grandes massas. A barreira econômica de entrada para esta atividade empresarial sempre foi muito elevada e, portanto, reservada a grandes capitalistas, primeiro no meio impresso, depois no rádio e na televisão. Por integrarem um extrato da elite econômica, essas empresas também sempre tiverem o monopólio do discurso, impondo à sociedade uma agenda política, social e cultural baseada nos seus interesses de classe.

    A Internet mudou isso. Novos grupos sociais, políticos e econômicos passaram a ter a possibilidade de produzir conteúdo informativo e opinativo, disputando a atenção de parcela da sociedade e criando um ambiente mais plural e diverso na arena da comunicação. O “valor” da notícia caiu. Informações das mais variadas fontes passaram a estar disponíveis “sem custo” para o internauta. Esse novo ambiente abalou o modelo de negócios no qual – principalmente a mídia impressa – se baseava.

    Esse modelo era o da criação de uma escassez artificial da notícia. Mas o que é isso? Sinteticamente: A informação é um bem intangível (não existe fisicamente). Se eu te “dou” uma informação eu não deixo de tê-la. Eu a divido com você e nós dois passamos a ter a mesma informação. É diferente dos bens tangíveis, uma cadeira, por exemplo. Se eu dou a cadeira para você, eu deixo de tê-la. Bom, e daí? Daí, que este é um dos elementos que determinam o preço das coisas e todo o seu ciclo econômico. Com a informação, a notícia, não é assim. Por isso, o que as empresas faziam era criar uma escassez artificial da informação, a partir do controle de acesso (tiragem, bilhete, assinatura), da obsolescência programada (ninguém compra o jornal do dia anterior, ele perde a “validade e o valor” em 24 horas), propriedade intelectual e outros mecanismos.

    O valor da produção da notícia em si é aproximadamente o mesmo para a Folha e para um site da mídia alternativa. O que muda é o preço da impressão e distribuição. A internet eliminou estes dois e “desmonetizou” a notícia.

    Agora, a informação é dada em tempo real pela internet muito antes de sair nos jornais e está disponível em dezenas, centenas de páginas. Esse é o dilema das grandes empresas jornalísticas que se veem diante da eminência do já anunciado juízo final dos jornais impressos.

    Facebook alavanca novos produtores

    O Facebook condensou na sua plataforma mecanismos de distribuição de conteúdo que romperam a lógica dos grandes jornais e portais, permitindo a ampliação do alcance de outras veículos. Novas fontes de informação e opinião ganharam um grande alcance na rede social. O fenômeno já vinha desde o final de 2010. Mas, em particular no Brasil, houve um boom de novos coletivos de comunicação e cultura, que passaram a ser referência e ter grande alcance. Um deles é a própria Mídia Ninja.

    É nesta fase que se dá uma disputa mais acirrada pela audiência entre a mídia tradicional e as “novas mídias”. Isso se refletiu, inclusive, na distribuição de publicidade privada e estatal. É neste período que empresas e governos passam a investir mais recursos de publicidade na internet e em plataformas como Google e Facebook.

    Parecia inevitável que, em algum momento, a contradição entre os interesses deste novo gigante da internet e os da mídia tradicional fossem se chocar.

    Bate a assopra

    Há alguns anos o Facebook buscou estabelecer uma “aliança” com os tradicionais veículos de mídia, criando a funcionalidade dos “instant articles”. O recurso, lançado em 2015, permitia que as empresas de comunicação “hospedassem” seus conteúdos no Facebook. Desta forma, a pessoa poderia ler o conteúdo diretamente na plataforma do Zuckerberg sem ser direcionado para a página do jornal. A vantagem para o jornal seria o carregamento mais rápido do seu conteúdo e o estímulo ao usuário ler seus artigos na integra.

    Esse recurso coincide, mais ou menos, com o crescimento das ofertas de Facebook grátis para os planos de internet móvel, o chamado zero-rating. Operadoras e plataforma firmavam algum tipo de parceria e na hora de adquirir um pacote de dados para acesso à internet pelo celular, o cliente ganhava o Facebook – ou seja, a navegação na plataforma do Zuckerberg não descontava do plano de dados do usuário.

    Isso parecia interessante naquele momento, já que dados da Organização União Internacional das Telecomunicações (UIT) mostravam (e ainda mostram) que a maior parte das pessoas com acesso à internet estão conectadas pelo celular. Grandes empresas jornalísticas aderiram à proposta do Facebook: The New York Times, National Geographic, The Atlantic, NBC News. No Brasil o Estadão, a revista Exame e Catraca Livre.

    A força centrípeta do Facebook e seu crescimento no último período tornava de certa forma inquestionável que, apesar das contradições, as empresas jornalísticas ainda tinham algo a ganhar de visibilidade e audiência compartilhando seus conteúdos na rede social. Um pouco na lógica de ruim com ele, pior sem ele.

    Mas em janeiro desse ano, Mark Zuckerberg anuncia mais uma mudança nos algoritmos do Facebook e diz que sua plataforma vai mudar os critérios de indexação dos conteúdos para dar mais visibilidade a compartilhamentos pessoais, de amigos e família.

    Em sua página, o CEO do Facebook disse que uma pesquisa feita internamente mostra que “quando nós usamos as redes sociais para nos conectarmos com pessoas que gostamos, pode ser bom para nosso bem-estar”. E segundo ele esse é o objetivo da sua plataforma.“Uma vez que há mais conteúdo público do que posts de amigos e da família, o feed afastou-se da coisa mais importante que o Facebook pode fazer: ajudar a nos conectarmos uns com os outros”.

    Na sua avaliação, “nós podemos nos sentir mais conectados e menos sozinhos, e isso faz um paralelo com uma série de medidas sobre felicidade e saúde. Por outro lado, ler artigos passivamente ou assistir a vídeos — mesmo que eles sejam para entretenimento ou informativos — pode não ser tão bom.”

    A medida foi mal recebida pelas empresas jornalísticas, por outros produtores de conteúdo para o Facebook e inclusive para a bolsa de valores de Nova York – Nasdaq.

    As ações da companhia caíram, só em 12 de janeiro (um dia depois do anúncio), 4,47%. Essa queda representou uma perda de U$ 24,2 bilhões de dólares no valor de mercado do Facebook.

    Essa foi a gota da água, pelo menos para a Folha de S.Paulo, que ousou ao anunciar sua “retirada” do Facebook. Desde meados de 2017, mudanças nos algoritmos da plataforma já estavam afetando o alcance e a visualização de conteúdos de páginas, inclusive da mídia alternativa. No caso da Folha, “a importância do Facebook como canal de distribuição já vinha diminuindo significativamente antes mesmo da mudança do mês passado, tendência também observada em outros veículos”.

    Eles mostram que “o volume total de interações obtido pelas 10 maiores páginas de jornais brasileiros no Facebook caiu 32% na comparação com o mesmo mês do ano passado”.

    O fato é que ninguém sabe ao certo como funcionam os algorítimos do Facebook.

    Não há nenhuma transparências nos parâmetros que definem o que aparece ou não na nossa timeline.

    Não há mecanismos de accountability e os usuários (indivíduos ou empresas) são completamente reféns da caixa-preta do Facebook e do que o CEO considera que deva ser a missão da plataforma. Nos últimos anos, a plataforma de Zuckerberg foi se tornando cada vez mais um grande filtro de informação, ou como se diz no jargão jornalístico, um gatekeeper. Passou a direcionar o que a gente vê, lê ou assiste, de acordo com nossos “gostos”. O Facebook criou grandes bolhas que têm trazido impactos preocupantes para a vida em sociedade, amplificando a intolerância ao impedir a saudável contraposição de opiniões.

    Folha x Facebook

    A disputa econômica é o pano de fundo da decisão da Folha, que está apostando em outros mecanismos para recuperar relevância e audiência na internet. Entre eles, a mudança nos algoritmos do Google, que ao contrário do Facebook, passaram a privilegiar os veículos de grande mídia na indexação de suas buscas sobre o argumento de combater as “fake news”. Ou seja, se a notícia foi produzida por uma empresa jornalística sai ganhando na hora de aparecer nas primeiras colocações dos resultados do Google.

    Se o que moveu a Folha foi o fator econômico, o argumento público para justificar o “abandono” do Facebook é justamente o do combate às notícias falsas, ou “fake news”.

    Segundo avaliação do jornal, ao tirarem a “prioridade” dos conteúdos jornalísticos do seu feed, o Facebook está aumento o espaço para a disseminação de “fake news” e reduzindo o do jornalismo profissional.

    Aqui tem um termo que vale a reflexão: Jornalismo Profissional. Ele foi cunhado há mais um menos um ano, quando a Folha de S.Paulo lançou o seu novo Projeto Editorial.

    Estava claro, ali, que o objetivo já era tentar diferenciar o conteúdo produzido pelo jornal dos produzidos pela mídia alternativa.

    Ao adjetivar o jornalismo com o termo profissional, a Folha buscava recuperar a sua credibilidade, bastante comprometida pela cobertura explicitamente pró impeachment e subordinada ao projeto de retomada de uma agenda regressiva na área econômica, política e social.

    O termo profissional é uma maneira de qualificar o conteúdo da Folha, e desqualificar todo e qualquer conteúdo produzido por sites da mídia alternativa, independente, popular, comunitária. É uma forma de recuperar o valor comercial da notícia. Assim, tudo o que for produzido por coletivos e outros veículos que não sejam de empresas jornalísticas privadas não é “jornalismo profissional” e, portanto, não merece credibilidade.

    Se não é da grande mídia não tem qualidade, é suspeito e pode ser, potencialmente, uma notícia falsa. Por detrás do alarde criado em torno das “fakes news” há um velho conglomerado de empresas midiáticas monopolistas, que passaram a ter a sua hegêmonia econômica e política abaladas e que precisam a todo custo recuperar sua posição.

    Este divórcio entre Folha e Facebook é importante porque contribui para trazer à tona tanto o caráter prejudicial da rede social, quanto para mostrar as verdadeiras intenções dos jornalões que fazem de tudo para sobreviver.

    Renata Mielli é jornalista, coordenadora geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação e secretária geral do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e colunista da Mídia Ninja.

    Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor. 

     

  • Cresce a concentração de renda na medida em que os salários perdem valor

    Relatório do Boston Consulting Group (BCG), divulgado na sexta-feira (16) mostra claramente o que está acontecendo no mundo do século 21. A concentração de renda cresceu. Além de 1% deter 45% da riqueza mundial, aumenta o número de milionários nos Estados Unidos.

    Cerca de 18 milhões de famílias no mundo possuem uma riqueza de mais de US$ 1 milhão, de acordo com o BCG, sendo cerca de 7 milhões somente nos Estados Unidos e a estimativa é de que essa concentração cresça substancialmente. O relatório mostra também que a concentração de renda cresce em cima do achatamento salarial da classe trabalhadora.

    “Enquanto isso, os países emergentes veem sua economia definhar com o ultraliberalíssimo dominando as agendas, com sucessivos ataques às conquistas da classe trabalhadora, como no Brasil com o governo ilegítimo de Temer”, diz Carlos Rogério Nunes, secretário de Políticas Sociais da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).

    Os dados comprovam que o sistema financeiro domina a economia em detrimento dos setores produtivos, o que faz aumentar a concentração de riqueza e diminuir a criação de novos postos de trabalho. 

    Isso é o que acontece no Brasil após o impeachment da presidenta Dilma Rousseff no ano passado. Voltou-se a “um Estado que protege os interesses do 1% mais rico e vira as costas para a grande maioria da população, deixa o povo desprotegido. Tira os seus direitos, antes de tudo o direito a um emprego”, acentua o cientista social Emir Sader.

    Os oito mais ricos do mundo

    Pela lista da revista Forbes, entre os oito mais ricos do mundo, seis são norte-americanos. Os mais ricos são: Bill Gates, fundador da Microsoft, lidera o ranking, com uma fortuna de US$ 75 bilhões; seguido pelo espanhol Amancio Ortega, fundador da Inditex, empresa-mãe da Zara (US$ 67 bilhões); pelo americano Warren Buffett, acionista da Berkshire Hathaway (US$ 60,8 bilhões); pelo mexicano Carlos Slim Helu, dono da Grupo Carso (US$ 50 bilhões); e pelos americanos Jeff Bezos, fundador e principal executivo da Amazon (US$ 45,2 bilhões); Mark Zuckerberg, cofundador e principal executivo do Facebook (US$ 44,6 bilhões); Larry Ellison, cofundador e principal executivo da Oracle (US$ 43,6 bilhões) e Michael Bloomberg, cofundador da Bloomberg LP (US$ 40 bilhões).

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy com agências. Arte: Latuff

  • Facebook censura página de Fernando Morais, que é contra o impeachment

    O jornalista e escritor Fernando Morais teve sua página do Facebook bloqueada na noite em que ocorria a votação da admissibilidade do pedido de impedimento da presidenta Dilma pela Câmara dos Deputados no domingo (17).

    Veja a página de Fernando Morais aqui.

    “A censura imposta desde domingo à noite ao ‘foicebook’ foi suspensa há poucos minutos”, escreveu Morais em sua página da rede social hoje (18). Ele afirma ainda que “um diretor do Facebook me ligou para informar que a censura tinha sido imposta a partir de uma denúncia de postagem de nudez”.

    Por isso, cresce a suspeita de que grupos defensores do impeachment tenham organizado uma onda de denúncias contra Morais e, quando isso acontece, a pessoa fica impedida de mexer em suas publicações por 30 dias.

    Tudo porque o funcionamento do Facebook se dá por algorítmos e, portanto, não se individualiza e não se dá chance de defesa aos denunciados. Então, com um certo número denunciantes a página fica suspensa para averiguações, segundo a rede social.

    O ativismo político e as ideias comunistas podem ter influenciado o bloqueio pela rede social de Mark Zuckerberg. Além disso, Morais acompanha o ex-presidente Lula em suas palestras para escrever um livro e tem sido voz constante nos atos contra o impeachment de Dilma.

    De acordo com o escritor, a revogação de sua pena aconteceu depois de interferência de Keffin Gracher, responsável pela comunicação digital do governo federal. “A revogação da censura é, estou certo, resultado da gritaria feita aqui mesmo, no Facebook”, reforça em sua página já de volta.

    Autor de importantes livros como “A Ilha” (1976), “Olga'' (1985), “Chatô: o Rei do Brasil'' (1994), “Corações Sujos” (2000) e “Os Últimos Soldados da Guerra Fria” (2011), Morais se diz “ de novo, um branco forro”, alforriado para exercer o que sabe fazer bem: escrever. E além disso, denunciar as mazelas de golpistas de plantão.

    Ele reclama do ocorrido: “O episódio encheu muito o meu saco”. Além de relatar que conviveu com a censura "da noite de 13 de dezembro de 1968, quando foi editado o Ato-5, até o dia 2 de junho de 1976, quando os censores deixaram as redações da grande imprensa”.

    Assim, acentua que “não tenho mais idade nem paciência para censor. Para evitar novos dissabores talvez eu tenha que seguir o conselho de amigos e começar a migrar do Facebook para um blog”.

    E para que ninguém se esqueça, ele conclui, bem ao seu estilo, o texto com um PS: “Só para não esquecer. A família Marinho e as Organizações Globo são inimigas do Brasil e dos brasileiros e assim devem ser tratadas”.

    Bruno Torturra também é bloqueado

    Contrário ao impeachment da presidenta Dilma, o jornalista Bruno Torturra também teve sua página nessa rede social suspensa por “suspeita de ser uma conta falsa”. Torturra teve mais sorte que Morais, sua conta foi liberada no mesmo dia.

    A página de Torturra aqui.

    Ele reclama de não ter sido “consultado previamente” e acha errado isso ocorrer “sem a chance de defesa prévia” porque “essa dinâmica protege caluniadores”.

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy

  • Facebook: 2 bilhões de usuários e um projeto para dominar o mundo

    Além de violar o nosso direito à privacidade e usar de forma indevida nossos dados pessoais, agora o Facebook quer ler nossas emoções, quer se apropriar da nossa alma.

    O Facebook atingiu a impressionante marca de 2 bilhões de usuários em todo o planeta. Aproximadamente 25% da população mundial está na plataforma fundada por Mark Zuckerberg. Isso deveria ser motivo de uma séria e profunda reflexão sobre o papel desta plataforma na sociedade hoje.

    Nascido em fevereiro de 2004 para ser uma rede de relacionamento para os estudantes da Universidade Harvard, o Facebook, em apenas 13 anos, transformou-se num dos maiores – senão o maior – monopólio privado de comunicação do mundo.

    Ao longo desta década, a existência do Facebook teve impacto importante nos hábitos de consumo de notícias, no padrão de ‘relacionamento’ entre as pessoas e organizações e tem crescentemente influenciado decisões políticas e eleitorais.

    Primavera Árabe, Indignados da Espanha e Occupy Wall Street, no ano de 2011, foram talvez as primeiras grandes mobilizações sociais cujo engajamento ocorreu de forma decisiva pela plataforma de Zuckerberg. No Brasil, podemos citar as mobilizações de junho de 2013.

    Sua rede está tão onipresente nos dias atuais, que muitos usuários acreditam que o Facebook seja a própria internet. Isso não é nada bom. Ao contrário: é muito perigoso.

    Rua sem Saída

    O Facebook está sugando a internet para dentro de sua “timeline”. Poucas pessoas navegam na internet hoje. Elas acessam o Facebook e nele ficam lendo manchetes de notícias, postagens pessoais, institucionais, fotos e vídeos, mas dificilmente clicam para ir para o conteúdo original.

    Isso ocorre por vários motivos, entre eles porque as novas tecnologias criaram a ditadura da velocidade: não há tempo para ler uma notícia, um artigo ou assistir a um vídeo de mais de 30 segundos.

    Também porque o modelo de negócio das empresas de Telecomunicações impôs um padrão de acesso baseado nos dispositivos móveis (celulares) que oferta pacotes limitados de dados com alguns aplicativos “gratuitos”. É o que chamamos de ‘zero-rating’. E o Facebook, coincidentemente, é um destes aplicativos nos quais você navega e acredita não estar pagando por isso. Aliás, o Facebook e o Whatsapp (comprado pelo Facebook, em 2014, pela bagatela de US$ 22 bilhões).

    Assim, quando você se depara com um artigo bacana do Mídia Ninja na sua timeline e clica para ler o conteúdo, aparece uma mensagem, digamos pouco estimulante, perguntando se você tem certeza que quer ler aquele conteúdo, porque a partir daquele momento o tempo que você ficar fora do Facebook vai ser descontado do seu pacote de dados.

    Digamos que para 89% dos usuários da internet no Brasil que acessam a rede a partir de dispositivos móveis, – a maioria com contrato no modelo pré-pago – a mensagem é quase um alerta: Não faça isso!

    Além disso, o Facebook foi criando novas funcionalidades para que você se sinta cada vez mais “em casa” e não queria sair. Por que sair, não é mesmo? Por exemplo, se você quer publicar um vídeo, publique diretamente no Facebook. Transmissão ao vivo, use o live do Facebook. Até porque se você não fizer isso, sua postagem será, digamos, sabotada. Experimente comparar o desempenho de postagens de vídeos ou lives de outros aplicativos e os que usam o próprio Facebook que você vai ver isso explicitamente.

    O Facebook é como uma rua sem saída. Até os conglomerados tradicionais da mídia hegemônica estão se rendendo a sua força centrípeta. Acordos entre a rede social e grupos de mídia criaram os instant articles. Sob o argumento de que nos celulares muitas vezes o carregamento de páginas externas é muito lento, o Facebook criou um mecanismo para que as empresas jornalísticas publiquem notícias diretamente na plataforma. Conveniente, não?

    Trabalho não remunerado

    Não dá para negar que o CEO do Facebook e sua equipe são brilhantes. Não pelas funcionalidades do Facebook e por terem construído algo tão grandioso, mas principalmente porque fizeram um negócio bilionário cujo conteúdo que lhe dá valor é produzido por seus 2 bilhões de usuários, de forma gratuita. Isso mesmo, eu, você, e todos que postamos NOSSOS conteúdos no Facebook e trabalhamos gratuitamente para ele. E para se ter uma ideia do quanto nosso trabalho é lucrativo, em 2016 o Facebook teve um receita de US$ 26,8 bilhões, 57% maior que em 2015. Seu lucro líquido aumentou 117%.

    Ah, você pode me questionar agora, “mas não pagamos nada por isso”, o Facebook é “de grátis”. Mais ou menos.

    Primeiro porque pagamos com o nosso trabalho, com o tempo que dedicamos a curtir, reagir e postar coisas no Facebook. E uma das máximas do capitalismo pode ser expressa pela frase “time is money”. E, além disso, o Zuckerberg criou os posts patrocinados. Ah!, quem disse que a gente não paga pelo Facebook. A gente precisa pagar para ser visto, ou para termos a sensação que estamos sendo vistos, lidos e seguidos.

    Aqui, na minha opinião, está um dos problemas mais graves do Facebook: a falsa ideia de que estamos falando para muita gente, que finalmente quebramos a barreira da comunicação unidirecional e que estamos exercendo plenamente nossa liberdade de expressão. Ledo engano. Você pode ter 1 milhão de amigos, igual ao Rei Roberto Carlos, mas esteja certo de que algo em torno de 1% disso pode de fato prestar atenção em você. Se você pagar, vai atingir um pouco mais, mesmo assim, quem vai te ver será determinado por um algoritmo, uma fórmula matemática que, aplicada, tem contribuído para uma rápida evolução da Inteligência Artificial.

    Ou seja, quem determina quando e quem vai ver sua postagem é um código que, no fundo, ninguém sabe como funciona de verdade e quais são os parâmetros de dados utilizados para definir a sua programação.

    A ideia de que seriam apenas dados aleatórios baseados no número de interações, interesses e no mapa do seu comportamento na rede, de que não seriam aplicados outros filtros, de caráter político, ideológico e econômico não está devidamente garantida.

    Até porque o Facebook já informou, há quinze dias (após os atentados do início de junho em Londres), que seus algoritmos estão usando Inteligência Artificial para retirar conteúdos “terroristas” da sua plataforma. “A análise inclui um algoritmo que está no estágio inicial de aprendizagem sobre como detectar posts similares. A promessa do Facebook é que o algoritmo vai acumulando informação e se aperfeiçoando com o tempo. Os algoritmos também estão usando páginas, grupos, posts ou perfis já catalogados que estão apoiando o terrorismo para tentar identificar material relacionado que possa estar fazendo o mesmo”, disse nota da empresa.

    Se podem identificar conteúdo “terrorista”, podem identificar qualquer conteúdo e isso pode significar um potencial de censura e manipulação da informação imensos. Quem define quem são os terroristas? Quem define quem são os inimigos?

    O plano: dominar o mundo

    E muito ainda está por vir. Novas funcionalidades para o Facebook são estudadas e desenvolvidas na velocidade da luz. Todas devidamente patenteadas para garantir a propriedade do Facebook sobre elas. Aliás, uma visita no escritório de patentes para conhecer o que o Facebook tem em seu nome é uma pesquisa interessante e preocupante. Uma delas é um dispositivo para capturar o rosto dos seus usuários e, com isso, definir seu “humor”. “Através de uma técnica para detecção de emoção e entrega de conteúdo. Este é um fluxograma direto para capturar a imagem dos usuários através da câmera para rastrear suas emoções ao visualizar diferentes tipos de conteúdo. O Facebook poderia ver seus estados emocionais ao assistir vídeos, anúncios ou imagens de bebê e isso serviria de conteúdo no futuro, apenas lendo seu estado inicial de emoção”, segundo notícia publicada no site da Forbes.

    Além de violar o nosso direito à privacidade e usar de forma indevida nossos dados pessoais (nós concordamos com isso de forma não informada quando aceitamos às políticas de privacidade – alguém lê mesmo isso? Tema para outro artigo futuro), agora o Facebook quer ler nossas emoções, quer se apropriar da nossa alma.

    E qual o objetivo de tudo isso? Melhorar a nossa “experiência” de navegação? Certamente que não. O poder é algo que seduz. E Mark Zuckerberg definitivamente parece estar querendo mais poder.

    No início deste ano, às vésperas de chegar à marca de 2 bilhões de usuários, Zuckerberg fez dois pronunciamentos, um em março e outro no último dia 22 de junho, dizendo que diante do novo contexto internacional, dos dilemas da humanidade, o Facebook se viu convocado a mudar a sua missão. Inicialmente pensada para “conectar as pessoas”, agora ela é ajustada para “aproximar o mundo” (Bringing the World Closer Together).

    O CEO do Facebook parece crer que sua plataforma pode estar acima das nações e dos poderes constituídos. Na primeira carta que lançou sobre o tema, Zuckerberg afirma: “Os atuais sistemas da humanidade são insuficientes. Esperei muito por organizações e iniciativas para construir ferramentas de saúde e segurança por meio da tecnologia e fiquei surpreso por quão pouco foi tentado. Há uma oportunidade real de construir uma infraestrutura de segurança global e direcionei o Facebook para investir mais recursos pra atender a essa necessidade”.

    Mais recentemente, no evento que reuniu as “lideranças” das maiores comunidades do Facebook, Zuckerberg retoma o tema e afirma que é preciso enfrentar um mundo dividido e, a partir do Facebook, lançar as bases para um “common ground”, numa tradução literal um terreno comum, um mundo mais homogêneo e unido. “Este é o nosso desafio. Temos que construir um mundo onde todos tenham um senso de propósito e comunidade. É assim que vamos aproximar o mundo. Temos que construir um mundo em que nos preocupemos com uma pessoa na Índia, na China ou na Nigéria ou no México, tanto quanto uma pessoa aqui. É assim que conseguiremos as nossas maiores oportunidades e construir o mundo que queremos para as gerações vindouras. Eu sei que podemos fazer isso. Podemos reverter esse declínio, reconstruir nossas comunidades, começar novas e aproximar o mundo inteiro”.
    A despeito de palavras bonitas, é preciso compreender que este não pode ser o papel de uma empresa privada. Inclinações totalitárias não combinam com soberania e democracia.

    Renata Mielli é Jornalista, coordenadora geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação e secretária geral do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé. Artigo originalmente publicado em sua coluna na Mídia Ninja.

  • Será o começo do fim do Facebook?

    O título é mais uma provocação do que um prognóstico. Seria precipitado afirmar que o Facebook está com os dias contados. Mas é fundamental entender os motivos e o que representa essa que talvez seja a primeira grande crise da plataforma que, em 2017, ocupou o 4º lugar no ranking das empresas de internet mais valiosas do mundo, atrás apenas da Apple, Alphabetic (Google) e Microsoft. Em dezembro de 2017, a rede social de Zuckerberg alcançou a marca dos US$ 520 bilhões, mantendo-se à frente de outra gigante, a Amazon, segundo dados da Forbes.

    O Facebook tem sido alvo de multas milionárias (bilionárias até), de críticas motivadas pelo descontentamento de usuários que se veem lesados pelo uso indevido dos seus dados, pela maneira como os algoritmos da plataforma cria bolhas, a falsa ilusão de alcance, contra a política de patrocínios e a propagação de notícias falsas.

    O escândalo sobre o vazamento de dados pessoais de cerca de 50 milhões de usuários para uso indevido por uma empresa de estratégia política, a Cambridge Analytica, é a mais profunda que Mark Zuckerberg já enfrentou.

    O CEO e fundador do Facebook saiu da sua “bolha de proteção e conforto” para assumir a missão de tentar limpar a imagem da sua plataforma. Deu entrevistas a jornais e redes de televisão – o que não é uma prática de Zuckerberg – e já apresentou medidas de controle e segurança, com o intuito de reduzir danos, em particular na bolsa de valores, onde as ações da companhia já tiveram uma queda de mais de 12%, acumulando uma perda de mais de 50 bilhões de dólares apenas essa semana.

    As propostas de Zuckerberg, no entanto, são superficiais e pouco eficazes para impedir novos vazamentos. No caso dos aplicativos, eles anunciaram que irão fazer uma auditoria nos apps que usam o Face para identificar os que fazem “mau uso dos dados” e bani-los da plataforma. Se uma pessoa não fizer uso de um app por mais de 3 meses, o aplicativo deixará de ter acesso aos seus dados. Zuckerberg também anunciou que vai ensinar as pessoas a gerenciar seus apps, e informar quando os dados de alguém tiver sido usado de forma indevida.

    Enfrentar os problemas na raiz

    Essas medidas – que já deveriam ser uma política da empresa desde sempre – atacam apenas a superfície do problema. A raiz é justamente a possibilidade de a plataforma e seus aplicativos terem acesso irrestrito aos dados pessoais, de navegação e a todas as atividades do usuário na sua plataforma e, inclusive, fora dela. A origem do problema está na arquitetura dos algoritmos do Facebook, que são desenvolvidos para rastrear nosso comportamento digital e armazenar nossos dados. Ou seja, o Facebook foi construído desde o início com esse propósito, o seu modelo de negócios está baseado na coleta e comercialização das informações que nós, usuários, fornecemos gratuitamente para ele.

    Esse modelo de negócios é ainda mais perigoso, porque é operado por um monopólio que congrega e interliga outras redes à sua rede. Um dos compromissos firmados pelo Facebook na ocasião da aquisição do Whatsapp e Instagram foi justamente o de manter as três redes independentes. Pouco mais de um ano depois da compra das duas plataformas, o Facebook fez a integração das três, ampliando ainda mais a coleta de informações e dados que permitem traçar perfis praticamente individuais dos usuários, uma verdadeira mina de ouro tanto para o mercado de comércio e serviços, como para o “mercado da política” que tem empresas como a Cambridge Analytica.

    Zuckerberg também declarou que talvez seja o caso de haver algum tipo de regulação da sua plataforma. Admitiu publicamente que o Facebook assumiu um papel importante na construção de opinião e direcionamento de temas, além de reconhecer que sua plataforma tem um forte poder político para direcionar políticas e até governos.

    Por mais que seja uma plataforma privada, o Facebook adquiriu – gostemos ou não – uma papel público relevante e perigoso demais para ser mantido sem qualquer tipo de regulação.

    Por isso, para além das medidas anunciadas – totalmente paliativas – é preciso criar regras de transparência sobre as atividades e funcionamento da plataforma; exigir que o desenvolvimento dos algoritmos se dê a partir do conceito de privace by design (que desde a concepção são construídos para garantir parâmetros de privacidade); definir regras de desconcentração, impondo que o compromisso da separação entre Facebook, Instagram e Whatsapp seja cumprido; impedir que o Facebook adquira novas redes, medida importante para frear a ação monopolista da companhia na internet; definir políticas de proteção de dados pessoais e modelos mais rígidos e transparentes para que o usuário tenha conhecimento das regras e possa decidir sobre como devem ou não ser utilizadas suas informações. Padrões internacionais mínimos deveriam ser definidos sobre esse tema, mas a plataforma deveria ser obrigada a obedecer as legislações nacionais de proteção de dados pessoais.

    É cedo para dizer qual será o desdobramento dessa crise do Facebook. Se este será um momento de reconfiguração da plataforma que já passou por mudanças significativas desde a sua criação (apesar de nenhuma delas motivada por uma crise de credibilidade); ou se esse abalo vai levar a um êxodo da rede, que poderá perder relevância até ser superada por outra novidade, como aconteceu com o Orkut.

    Aliás, essa é uma característica da Internet: a velocidade com a qual as novidades surgem e desaparecem na rede mundial de computadores é muito grande. Isso faz com que seus gigantes econômicos tenham uma vida mais curta que os gigantes da economia tradicional. AOL, Altavista, Napster, Orkut são alguns dos exemplos que mostram como é possível ser grande tão rapidamente, mas, num piscar de olhos, deixar de existir.

    O próprio surgimento de uma bolsa de valores específica (Nasdaq) para negociar ações de empresas de tecnologia se constituiu num grande fenômeno que cresceu e explodiu. Toda grande bolha cresce até o limite de sua elasticidade, depois estoura.

    Uma breve linha do tempo do Facebook

    Os picos de expansão econômica do Facebook coincidem com mudanças significativas da plataforma e do seu modelo de negócios (introdução de anúncios, posts patrocinados, impulsionamento de páginas, parcerias com outras empresas e plataformas, criação de funcionalidades para competir com os concorrentes – como os vídeos ao vivo – e outras inovações ao longo dos últimos 14 anos).

    Quando percebeu o alcance de sua rede – que nasceu para conectar os estudantes da Universidade de Harvard – e o potencial bilionário de seu negócio, Zuckerberg começou ampliar suas metas e aspirar, porque não, transformar o Facebook na própria internet.

    Quando os caminhos de Zuckerberg começaram a trilhar neste sentido, ele começou a enfrentar seus primeiros obstáculos. Não adianta conquistar o mundo e matá-lo ao mesmo tempo.

    O Facebook passou a ser uma ferramenta de interação mais ou menos dois anos depois de ser lançado.

    Em 2006, a plataforma criou sua primeira versão de feed de notícias. Até aí, apenas páginas pessoais eram possíveis de serem criadas e a rede era, digamos, estritamente social – uma maneira de contar ao outro o que o que você estava fazendo, com quem e onde, e o que pensava ou sentia sobre determinado assunto.

    Em 2008, surgiu a primeira funcionalidade para que o usuário pudesse adicionar links e fotos ao seu status. Foi aí que as pessoas começaram a trocar links de páginas de notícias, de venda de produtos, de empresas, dos mais variados temas. Zuckerberg percebeu que seria muito interessante introduzir as empresas na sua plataforma, permitir que além das pessoas físicas, pessoas jurídicas (.com e .gov) pudessem produzir conteúdo – e valor econômico – para o Facebook.

    É nesta etapa que o Facebook passa a desenhar o seu modelo de negócios como o conhecemos hoje – gerar cada vez mais tráfego na sua plataforma, aumentar mecanismos de interação (comentários, compartilhamentos e likes) e a partir disso monetizar as interações com base em frequência e relevância.

    Também é aqui que o modelo passa a se basear de forma mais dependente da coleta, tratamento e comercialização de dados pessoais.

    Em 2009 surgem as páginas, com funcionalidades distintas dos perfis pessoais. Nessa altura, muitas empresas e governos já mantinham perfis individuais. O Facebook fez uma campanha para que houvesse uma migração para as páginas. Nas páginas, funcionalidades de acompanhamento estatístico do alcance das postagens foram introduzidas, preparando o caminho para o que já estava planejado como próximo passo: os patrocínios e impulsionamentos.

    Bolhas, ilusões e bolsa de valores
    Ninguém, nem mesmo o Rei Roberto Carlos, pode ter realmente 1 milhão de amigos. Nem mil. O Facebook criou essa ilusão, de que ao se conectar com alguém na sua plataforma você está fazendo um “amigo”. E junto com isso, o Facebook vendeu inicialmente para seus usuários outra falsa ideia: a de que os seus milhares de amigos podem acompanhar a sua atualização de status. Talvez lá no início fosse assim. Mas com toda certeza a partir de 2009, 2010, já não era mais.

    Então, é mais ou menos neste momento que o papel dos algoritmos passou a se tornar mais relevante e a mudar o perfil da rede social.

    Já havia um algoritmo que “selecionava” o que cada usuário via no seu feed. Mas a entrada dos usuários .gov e .org ampliaram essa “seleção”.

    No ano de 2012 o Facebook passou realmente por uma grande transformação. Não na sua interface e funcionalidade, mas na sua composição. De um empreendimento individual, tornou-se uma empresa capitalista de mercado aberto. Em 18 de maio, Zuckerberg vendeu o primeiro lote de ações da sua empresa na Bolsa de Valores de Tecnologia de Nova York, a Nasdaq. Naquele momento, a empresa estava avaliada em US$ 104 bilhões.

    Ao abrir seu capital, o Facebook passou a ter a obrigação de reverter lucro aos acionistas que investiram na empresa. O ideal “misantropo” de Zuckerberg de conectar as pessoas deu lugar à frase máxima do capitalismo norte-americano “Show me the money”.

    Lucro e Poder

    Essa mudança se traduz no botão “Promote” ou “Promover”. Já havia uma insatisfação das páginas que percebiam pelas estatísticas o baixo alcance de suas publicações para os seus “fãs” ou seguidores. Nesta época, uma média de 12% das pessoas que curtiram uma página visualizavam seus posts. O Facebook então resolveu fazer com que as páginas pagassem para ter mais alcance. Quer ser visto ou lido? Então pague por isso.

    Assim, o Facebook aprofundou o modelo econômico baseado nos likes: quanto mais tempo, mais interação e frequência de postagens você tiver, mais valor você vai gerar para si e para o Facebook.

    Ao adotar este caminho econômico, o Facebook direcionou os conteúdos pela afinidade dos seus usuários – afinal, aparecem para mim conteúdos relacionados com o meu hábito – de quem eu mais compartilho, interajo etc. Começaram a se aprofundar as bolhas. O que havia de diversidade no Facebook, a possibilidade de estar em contato com conteúdos diferentes, de se confrontar com outros pontos de vista, foi reduzido praticamente a zero.

    Outras mudanças foram sendo incorporadas – a ideia aqui não é fazer um histórico detalhado da evolução do Facebook, mas mostrar como sua trajetória foi sendo conduzida para criar armadilhas no sentido de aprisionar cada vez mais as pessoas dentro da plataforma. A ideia era de que a internet que se lasque, você tem que postar no Facebook, compartilhar no Facebook, comentar no Facebook, publicar o link da notícia no Facebook e, porque não, ler na íntegra os conteúdos de outros sites dentro do Facebook.

    Surgem os Instant Articles, parcerias com empresas de mídia para não mais postarem links, mas hospedarem seus conteúdos para serem lidos diretamente na timeline do Facebook.

    De novo, menos internet mais Facebook.

    Saltamos para o ano de 2014. É mais ou menos neste momento que o CEO do Facebook anunciou a criação de um projeto para conectar os desconectados através de um acesso móvel oferecido pela empresa chamado Internet.org, que de tão bombardeado mudou rapidamente de nome e passou a chamar Free Basics. Através de um aparelho celular, a pessoa baixa o aplicativo do Free Basics e instala uma versão do Facebook que dá acesso à algumas funcionalidades da plataforma. A pessoa não estará conectada à rede mundial de computadores, não poderá transmitir dados como vídeos, fotos de alta resolução, transferir arquivos, ou usar programas de voz por IP [como o Skype], mas poderá navegar no Facebook.

    Todas essas iniciativas coincidem com a discussão envolvendo a neutralidade de rede e o modelo de negócios de acesso à internet baseado na expansão da conexão por dispositivos móveis. Nesse momento, o Facebook e empresas de telecomunicações firmaram uma parceria que permitia pessoas que contratassem um pacote de dados para acesso à internet pelo celular “ganhassem” o acesso grátis ao Facebook. Ou seja, para navegar na plataforma do Zuckerberg não haveria descontos do pacote de dados. Essa oferta é chamada de zero-rating.

    Esses e outros instrumento perversos do Facebook foram criados para manter as pessoas quase que “exclusivamente na sua plataforma” e limitar o acesso à internet. Quando o usuário via uma notícia interessante na sua timeline e clicava para acessa-la, uma janela abria instantaneamente para perguntar: Você tem certeza que quer continuar? A partir deste momento a navegação será descontada do seu pacotes de dados.

    Nem precisa pensar duas vezes: num cenário de preços elevadíssimos dos pacotes de dados, pelo menos no Brasil, o usuário não vai clicar para ler a notícia, vai guardar os dados para um momento mais importante. E assim a pessoa vai ficando no Facebook, adquirindo pacotes cada vez menores e usando apenas aquilo que vem de graça – Facebook, Instagram e Whatsapp, estes dois últimos comprados pelo Zuckerberg em 2012 e 2014 respectivamente. Ou seja, é como se o usuário ficasse preso em casa, num cárcere privado, sem a possibilidade de percorrer as largas avenidas e milhares de ruas que compõem a world wide web.

    Encruzilhada

    Apesar de ainda manter um crescimento, aos poucos o Facebook vai perdendo sua relevância. As pessoas começam a tomar consciência dos limites, da manipulação, das bolhas e do poder que o Facebook tem de interferir nos hábitos, em suas vidas e na própria soberania e democracia dos países.

    Ao aprofundar esse modelo que originou as grandes bolhas de auto-referenciamento de opiniões já estratificadas, a plataforma gerou um ambiente refratário ao debate e até impulsionador de intolerância e preconceitos. Passaram a ser mais constantes os discursos de ódio no Facebook, como campanhas de difamação. A economia dos cliques, impulsionada pela plataforma, gerou um caça níqueis que permitiu o surgimento de páginas de conteúdos sensacionalistas e notícias falsas, que rapidamente foram instrumentalizados com objetivos políticos.

    Os setores progressistas, de outro lado, já há muito tempo denunciam os mecanismos de coleta e uso de dados pessoais dos usuários do Facebook, o intercâmbio com agências de inteligência, o cerceamento à liberdade de expressão por retirada de conteúdos de seus usuários, a definição discricionária da plataforma sobre o que é ou não conteúdo terrorista, ou impróprio, enfim, uma série de “decisões” da empresa que impactam negativamente na circulação dos conteúdos na timeline.

    O que vai acontecer a partir daqui é difícil dizer. Mas parece certo que o Facebook está diante de uma encruzilhada.

    Ceder à pressão para que a sua plataforma possa ser alvo de uma regulação externa, que ao mesmo tempo imponha uma série de obrigações à empresr de decisão sobre sua presença na rede; ou se vai manter a postura de adotar medidas paliativas e garantir a permanência do modelo atual.

    Qualquer dos dois caminhos, vai exigir, também, medidas para impedir uma retirada em massa da plataforma, que segundo informações divulgadas pelo próprio Zuckerbeg, já sofreu uma redução de 50 milhões de horas a menos de utilização diária desde o início desse ano.

    Talvez, como outros gigantes da internet, o Facebook já tenha vivido seu auge e esteja entrando no seu declínio.

    Renata Mielli é jornalista, coordenadora geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação e secretária geral do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e colunista da Mídia Ninja.

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