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Sáb, Maio

Clã Bolsonaro sempre defendeu a milícia e homenageou os criminosos milicianos

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Remontamos aqui a proximidade entre os Bolsonaro e ex-policiais envolvidos na milícia de Rio das Pedras suspeitos de executar morte da vereadora do PSOL.

Por Lilian Milena, no Jornal GGN

O sargento reformado da Polícia Militar Ronnie Lessa e o ex-PM Elcio Vieira de Queiroz foram presos na manhã desta terça-feira (12) em uma Operação Lume, da Delegacia de Homicídios (DH) da Capital e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao crime Organizado (Gaeco/MPRJ), pela execução do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes.

A operação cumpriu 34 mandados de busca e apreensão, um deles no condomínio Vivendas da Barra, na Avenida Lúcio Costa, 3.100, onde mora o policial Lessa e, por coincidência, onde vivia o presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), até assumir o Planalto. O fato de serem vizinhos, entretanto, não é motivo para haver alguma ligação.

As promotoras Simone Sibilio e Leticia Emile, que assinam a denúncia, disseram que o crime foi “meticulosamente” planejado três meses antes da execução dos assassinatos que completam um ano na quinta-feira (14).

“É inconteste que Marielle Francisco da Silva foi sumariamente executada em razão da atuação política na defesa das causas que defendia. A barbárie praticada na noite de 14 de março de 2018 foi um golpe ao Estado Democrático de Direito”, dizem em um trecho da denúncia.

Com a quebra do sigilo de dados, o Ministério Público conseguiu ter acesso ao armazenamento das pesquisas que Ronnie Lessa fez pela internet do seu celular e descobriu que o PM monitorava a agenda de eventos de Marielle. Um indício, portanto, de que os passos da vereadora estavam sendo rastreados pelo policial aposentado.

A prisão preventiva dos dois suspeitos foi decretada pelo juiz substituto do 4º Tribunal do Júri Gustavo Kalil, após denúncia do Ministério Público do Rio. Segundo o MP, Lessa teria atirado nas vítimas enquanto Elcio dirigia o Cobalt prata usado na emboscada. A promotoria pediu também a suspensão da remuneração e do porte de arma de fogo de Lessa e indenização por danos morais aos familiares das vítimas e a fixação de pensão em favor do filho menor do motorista Anderson até completar 24 anos de idade.

Conexão entre o Escritório do Crime e a morte de Marielle

Em uma outra operação para desmantelar a milícia de Rio das Pedras, a mais antiga do Rio de Janeiro, deflagrada no dia 22 de janeiro, o Gaeco/MPRJ, com o apoio da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (DRACO) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil, culminou com a prisão de outros suspeitos envolvidos no assassinato da vereadora Marielle.

Os principais alvos foram o ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope) Ronald Paulo Alves Pereira, o subtenente reformado da PM Maurício Silva da Costa, o Maurição, e Adriano Magalhães da Nóbrega, chefe da milícia de Rio das Pedras que tem como principal atividade explorar o ramo imobiliário ilegal com ações violentas e assassinatos.

O MP do Rio considera Adriano Magalhães da Nóbrega um dos líderes do chamado “Escritório do Crime”, grupo que reúne policiais e ex-policiais contratados como matadores de aluguel. Segundo matéria do G1 divulgada na época, fontes ouvidas pelo jornal disseram que Adriano atuava na contratação de pessoal e não participava diretamente dos crimes.

Conexão entre milicianos e os Bolsonaro

Adriano Magalhães da Nóbrega e Ronald Paulo Alves Pereira, presos na operação Os Intocáveis, deflagrada em janeiro para desmantelar a milícia de Rio das Pedras, foram homenageados na Assembleia Assembleia Legislativa do Rio, em momentos diferentes, com uma moção de louvor e congratulações por serviços prestados à população. O autor das duas homenagens foi o então deputado Flávio Bolsonaro, na época do PP.

O ex-capitão do Bope foi o primeiro a receber o tributo. “É com sentimento de orgulho e satisfação que presto esta homenagem ao 1º TENENTE PM ADRIANO MAGALHÃES DA NÓBREGA, devendo receber desta Casa Legislativa a presente MOÇÃO DE LOUVOR E CONGRATULAÇÕES”, assinou Flávio Bolsonaro em 24 de outubro de 2003.

Em abril de 2004 foi a vez de Ronald Paulo Alves Pereira receber a homenagem do ex-deputado, mesmo sob suspeita de ter participado da chacina de quatro jovens em uma casa de shows em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, crime que havia acontecido três meses antes de receber a congratulação.

“Pelos importantes serviços prestados ao Estado do Rio de Janeiro quando da operação policial realizada no Conjunto Esperança no dia 22 de janeiro de 2004 às 00:30 hs que resultou em confronto armado com marginais da Lei, onde três destes vieram a falecer, sendo um deles o meliante MACUMBA, líder do tráfico no conjunto Esperança”, justificou Flávio Bolsonaro na moção de louvor entregue ao major Ronald.

Em 2007, Flávio fez um discurso na Alerj defendendo abertamente as milícias. Disse ele na ocasião que “a milícia nada mais é do que um conjunto de policiais, militares ou não, regidos por uma certa hierarquia e disciplina, buscando, sem dúvida, expurgar do seio da comunidade o que há de pior: os criminosos”.

A explicação dada por Flávio Bolsonaro há cerca de 12 anos faz sentido. Os dois suspeitos presos nesta terça-feira (12) pela execução direta de Marielle Franco e Anderson Gomes já trabalharam na Polícia Militar.

Ronnie Lessa foi aposentado depois de um atentado a bomba contra ele, por conta de uma briga entre facções criminosas, que resultou na amputação de uma de suas pernas. Já Elcio Queiroz foi expulso da corporação enquanto atuava no Batalhão de Olaria (16º BPM). O afastamento aconteceu logo após ser preso, em 2011, na Operação Guilhotina, da Polícia Federal, que apurou o envolvimento de policiais militares com traficantes de drogas e com grupos milicianos.

Aqui vale destacar que a operação Os Intocáveis prendeu sete PMs lotados no 16º BPM. Adriano Magalhães, apontado como chefe do Escritório do Crime, também atuou no batalhão de Olaria antes de ser expulso da corporação em 2003, mesmo ano em que recebeu a homenagem de Flávio Bolsonaro na Alerj, pelo envolvimento no sequestro, tortura e extorsão de três jovens da favela de Parada de Lucas.

Reportagens de janeiro desse ano também constataram que a mãe a esposa do ex-capitão do Bope foram contratadas para trabalhar no gabinete de Flávio.

Raimunda Veras Magalhães, mãe de Adriano, trabalhou desde 2015 até o ano passado na Alerj. Já a mulher do ex-PM, Danielle Mendonça da Costa da Nobrega, trabalhou de 2010 até o ano passado no mesmo local como assessora do parlamentar.

As duas foram contratadas com salário líquido de R$ 5.124,62 e o nome de Raimunda aparece no relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) como uma das pessoas que fizeram depósitos para Fabrício Queiroz, ex-motorista de Flávio.

O Cobalt prata, a milícia de Rio das Pedras e Queiroz

No dia 22 de janeiro, O Globo divulgou uma matéria apontando que foi da comunidade Rio das Pedras que partiu o Cobalt prata, com placa clonada, usado no assassinato de Marielle e Anderson. A comprovação aconteceu por imagens de câmeras de segurança de vias e comércios que foram registrando o percurso do veículo desde a comunidade da Zona Oeste do Rio, passando pelo Quebra-Mar, na Barra, antes de chegar a Estrada do Itanhangá e seguir pelo Alto da Boa Vista até a Tijuca na mesma data em que o crime aconteceu, em 14 de março de 2018.

O Cobalt prata parou ao lado do carro onde estava Marielle, e uma pessoa que estava no banco de trás fez os disparos contra a vereadora, morta com 4 tiros na cabeça. Algumas balas atingiram Anderson Gomes na lateral das costas, também morto no local. Havia uma assessora acompanhando Marielle que não foi morta, apenas ferida com estilhaços.

A comunidade Rio das Pedras é ainda onde o ex-assessor e motorista de Flávio Bolsonaro na Alerj, Fabrício Queiroz, procurou abrigo para evitar a justiça, um dia após o Estado de S.Paulo ter revelado a movimentação atípica de R$ 1,2 milhão entre 2016 e 2017 em contas suas. Em seguida, no dia 20 de dezembro, Queiroz, que também é ex-policial militar, internou-se no Hospital Albert Einstein em São Paulo para iniciar um tratamento de câncer.

Em nota sobre a contratação de parentes de Adriano Magalhães, o senador Flávio Bolsonaro argumentou que a indicação de Raimunda Magalhães foi de Fabrício Queiroz.

“A funcionária que aparece no relatório do Coaf foi contratada por indicação do ex-assessor Fabrício Queiroz, que era quem supervisionava seu trabalho. Não posso ser responsabilizado por atos que desconheço, só agora revelados com informações desse órgão”, escreveu.

Por fim, o ataque do presidente Bolsonaro contra jornalistas

No domingo passado (10), dois dias antes da operação que prendeu o policial reformado Ronnie Lessa no mesmo condomínio onde morou Bolsonaro, o presidente voltou a atacar a imprensa, especificamente Constança Rezende, do Estado de S.Paulo, pontuando ser ela filha de Chico Otávio, jornalista do O Globo responsável pelas matérias que vem lançando luz à relação da milícia de Rio das Pedras com o assassinato de Marielle Franco, reconstruídas até aqui neste artigo.

Acontece que Bolsonaro fez os ataques se baseando em uma notícia falsa, divulgada pelo site Terça Livre, do seu seguidor Allan da Silva. Segundo a publicação, em uma entrevista em inglês concedida a um estudante chamado “Alex MacAllister”, Constança teria comentado que estaria envolvida em trabalhos do Estado de S.Paulo para fazer matérias com a intenção de arruinar Flávio Bolsonaro e o governo.

Desde o início do ano o Estado vem postando matérias sobre movimentações suspeitas na conta de Fabrício Queiroz, mas as reportagens não são assinadas por Constança e sim pelo jornalista Fábio Serapião.

Já O Globo tem sido responsável pela cobertura da relação entre as milícias e o antigo gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, sempre assinadas por Chico Otávio.

Isso explica colocar Constança no meio da jogada no suposto conluio, mesmo não tendo sido ela a autora das reportagens sobre as movimentações suspeitas nas contas de Queiroz e Flávio Bolsonaro. Era preciso, a partir de uma entrevista simples que ela deu a um jovem estudante para chegar até Chico Otávio, do O Globo, responsável pelas primeiras matérias que iniciaram as denúncias da relação entre a família do presidente com um grupo criminoso que atua no Rio de Janeiro, reduto eleitoral dos Bolsonaro.

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