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Antes de ontem 50 pessoas morreram por asfixia no porão de um barco. Hoje, mais de 70 pessoas dentro de um caminhão. Hoje acordamos com dois naufrágios: pode ser mais uma centena de mortos. Temos um mar que está cheio de mortos. Limites que são preenchidos com fios, pregos, lâminas ... e pessoas mortas.

Homens, mulheres e crianças, mortos.

E uma parte da Europa chora, grita, quer que sejam salvos, quer que eles não morram, mas ... mas que não venham, que se vão, que vão embora, que não existam e que parem de vê-los na TV, e menos ainda em nossas ruas, com seus cobertores, no metrô, ou nos degraus de nossas casas.

Alguns de forma irresponsável promovem o medo ao "outro", ao "ilegal", "àqueles que vêm para vender sem licença", "gastar a nossa saúde", "ficar com nossos recursos", "para ocupar o nosso lugar nas escolas" , "vão pedir", "vão mendigar" "vão delinquir" ...

Mas o medo é apenas isso: medo. Nosso medo de viver um pouco pior contra o seu medo de não sobreviver. Nosso medo de ter de compartilhar uma pequena parte do bem-estar contra o seu medo da fome e da morte, tão profundo que lhes deu a coragem de arriscar tudo, para vir com outra equipagem do que o próprio medo ele mesmo.

Medo contra medo. E o deles é mais forte. Então, Europa, europeus: devemos abrir nossos olhos. Não haverão muros ou arames farpados suficientes para parar isso. Nem bombas de gás lacrimogêneo ou balas de borracha. Ou assumimos o drama humano desde a capacidade de amar que nos torna humanos, ou acabaremos todos desumanizados. E haverá mais mortes, muitas mais. Esta não é uma batalha para proteger-nos "dos outros". Agora mesmo esta é uma guerra contra a vida.

Que os governos parem de ameaçar com o "Efeito chamada". O que a Europa precisa urgentemente é de uma "Chamada ao afeto", uma chamada para a empatia. Poderiam ser nossos filhos, irmãs ou mães. Poderia ser nós mesmos, como também foram exilados muitos dos nossos avós.

Embora esta seja uma questão de competência nacional e europeia, a partir de Barcelona, vamos fazer tudo que pudermos para participar de uma rede de cidades-refúgio. Queremos cidades comprometidas com os direitos humanos e com a vida, cidades de que se orgulhar.

Ada Colau Ballano, prefeita de Barcelona, na Espanha