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Fato importante e carregado de simbolismo aconteceu na quarta-feira, dia 27 de março de 2019, na famosa rua Maria Antônia de São Paulo: os estudantes da Universidade Presbiteriana Mackenzie impediram o presidente Bolsonaro de adentrar o campus universitário.

Por Haroldo Lima*

A visita de Bolsonaro estava programada e o presidente já estava em São Paulo, quando chega-lhe uma notícia inesperada: os estudantes do Mackenzie estavam na rua Maria Antônia, onde fica o campus, gritando palavras de ordem contra a sua presença, dizendo que ele “não terá sossego em nenhuma universidade do Brasil”, que não era bem-vindo e que ali não entraria. Comandava a manifestação a presidente da União Nacional dos Estudantes, a baiana Marianna Dias.

Percebendo que só entraria na universidade se houvesse o uso de força contra os estudantes, o presidente, certamente assessorado por alguém acometido de bom senso, desistiu do arriscado objetivo, e optou por outro mais maneiro, visitar o comando do Exército.

Ao saber que o presidente bateu em retirada, a presidente da UNE coordenou o refrão vitorioso: “Na universidade não”.

A rua Maria Antônia, que liga a rua da Consolação ao bairro Higienópolis, tem sua história.

Lá, pelos idos de 1880, um casal de presbíteros americanos, George e Mary Chamberlain, instalou a escola que já tinham há alguns anos em São Paulo e deu-lhe o nome de Mackenzie, em homenagem a John Theron Mackenzie, um americano que nunca conheceu o Brasil mas que, ao morrer, deixou uma boa quantidade de dinheiro para que ali fosse construída uma escola de engenharia. E assim surgiu, a partir de 1896, a Escola de Engenharia Mackenzie.

Três décadas depois, ocorre a Revolução de 1930, que trouxe um problema para as oligarquias paulistas. Elas não só não o protagonizaram, mas reagiram a ele, o maior movimento progressista da história do país. Ademais, resolveram promover um levante contrarrevolucionário, em 1932, chamado Revolução Constitucionalista, massacrado por Vargas. São Paulo perdera o papel de destaque e de condução dos rumos do país, apesar de toda sua opulência.

Na continuidade, o grande estado tirou como lição criar de imediato um centro para a “formação da elite brasileira”. Unificou faculdades isoladas e fundou, em 1934, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas, FFLCH, em torno da qual estruturou a Universidade de São Paulo, a USP. A FFLCH foi instalada na rua Maria Antônia.

Nos primeiros anos da ditadura militar, na rua Maria Antônia, concentravam-se, de um lado, um dos destacamentos mais aguerridos da esquerda estudantil da época, na FFLCH e, de outro, os estudantes da Mackenzie. Ocorre que as forças repressivas organizaram, dentro da Mackenzie, um grupo do Comando de Caça aos Comunistas, que atuava de forma provocativa, agredindo lideranças, criando tumulto em passeatas e assembleias.

E chega o incrível ano de 1968. Um sopro de rebeldia varreu a Europa, a Ásia e a América. Uma lufada correspondente clareia os ares do Brasil.

A repressão fazia de tudo para provocar e desalojar o bastião estudantil da Maria Antônia, utilizando seu grupo do CCC.

No dia 3 de outubro, quando estudantes faziam pedágio para arrecadar dinheiro para o Congresso da UNE, o CCC lançou pedras, rojões e balas contra eles. Um estudante morreu, o prédio da USP foi incendiado. A provocação foi grande.

Isto foi chamado de “batalha da Maria Antônia”, mas não foi uma batalha entre os estudantes da FFLCH e do Mackenzie, nem muito menos entre as duas instituições de ensino ali existentes, como esclarece José Dirceu no seu livro de memórias. O que houve foi uma provocação violenta do CCC, organizado no Mackenzie, onde quatro das cinco entidades estudantis apoiavam a UNE e a UEE.

Nesses episódios estiveram presentes lideranças estudantis proeminentes da época, como Luís Travassos, então presidente da UNE, e que era da Ação Popular, o próprio José Dirceu, então presidente da União Estadual dos Estudantes, e que era de uma divergência do PCB, e Yara Iavalberg, da Polop, depois do VPR, que iria ser companheira de Lamarca e foi assassinada brutalmente em Salvador, em agosto de 1971.

O que é curioso, muito curioso, e educativo, é que o quinquagésimo aniversário da “batalha da Maria Antônia”, transcorrido no ano passado, suscitou reportagens que recontaram os fatos. Jornalistas foram à Maria Antônia ver como hoje estão os estudantes do Mackenzie e os da USP que frequentam o atual Centro Universitário Maria Antônia. Eis algumas impressões que a Folha de São Paulo lá colheu:

“Política não é mais assunto predominante aqui”, disse um estudante. Outro completou: “Preferimos falar de coisas do dia a dia, como baladas, meninas ou assuntos ligados a nossa faculdade.” Um morador acrescentou: “Só mesmo quando vem alguém daqueles tempos, para matar a saudade, é que relembram aquelas histórias do passado. No mais, a vida seguiu para outro rumo.” (FSP 30/set/2018 )

Seis meses depois desses registros, esses mesmos estudantes, que pareciam tão desligados e alienados, vão à Maria Antônia e barram a ida do presidente ultradireitista ao campus do Mackenzie!!

O jovem é assim. Quando percebe a tirania, o atraso, a incultura e o fascismo, quando vê que “já podaram seus momentos” e “desviaram seus destinos”, seu “coração de estudante” explode, inesperadamente e com força, “bem mais perto que pensamos”, “renovando a esperança”. (versos de Milton Nascimento). O exemplo de rebeldia da Maria Antônia deve ser saudado e seguido.

*Haroldo Lima é membro da Comissão Política Nacional do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

 

Fonte: vermelho.org.br

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